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segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

CONCERTO: Ricardo Ribeiro



CONCERTO: Ricardo Ribeiro
Com | Ricardo Ribeiro (voz), Manuel Oliveira (teclados)
Centro das Artes e do Espetáculo de Sever do Vouga
17 Jan 2026 | sab | 21:30


Depois de um inoportuno adiamento, o Centro das Artes e do Espectáculo de Sever do Vouga abriu-se finalmente a uma das vozes mais singulares e respeitadas da música portuguesa contemporânea. Reconhecido como um dos expoentes máximos do fado, Ricardo Ribeiro subiu ao palco com o peso sereno de quem, há mais de duas décadas, vem construindo uma carreira sólida, feita de rigor e verdade e não isenta de risco artístico. Num alinhamento plural, pontuado por intervenções bem humoradas e sábias reflexões no intervalo das músicas, ao longo de uma hora o cantor mostrou a forte apetência em ultrapassar fronteiras, tanto estéticas quanto geográficas, levando a sua música a estender-se a uma grande variedade de géneros e a abraçar os mais diversos públicos. Com seis álbuns editados e um sétimo “na calha”, Ricardo Ribeiro provou na bonita sala de Sever do Vouga que não se limita a interpretar música, antes interroga-a, expande-a e devolve-a ao público com uma intensidade que convoca tanto os signos da tradição quanto a urgência do presente. “Precisamos de cantar a poesia. Vivemos momentos muito estranhos e aquilo que os artistas podem fazer é trazer ao público algo de belo e profundo”, disse, justificando o lado intimista da música, nos seus mundos interiores, “como uma necessidade”.

Com Manuel Oliveira ao seu lado nos teclados, o cantor apresentou-se num formato onde cada nota se mostrou essencial, os gestos oferecidos em carícia, as pausas prenhes de emoção e sentido. Como um jogo de sedução subtil, o concerto construiu-se entre a contenção inicial e as explosões súbitas de força e dramaticidade, entre um lirismo quase frágil e a aspereza cortante no verso seguinte. Solidários na beleza e no amor de cada música, os dois artistas em palco mostraram uma respiração comum e uma escuta cúmplice, o que permitiu a cada um dos temas revelar as suas múltiplas camadas, ora de modo íntimo e confessional, ora de uma forma muito física, intensamente visceral. Num registo dúplice e particularmente versátil, a voz de Ricardo Ribeiro soube percorrer emoções extremas com uma naturalidade comovente. “Há fados que dão cabo da gente. É uma cantiga terrível, parece que não tem nada e depois tem tanta coisa que a gente fica cansado e com uma coisa cá dentro”, confessou, depois de interpretar magistralmente “De Loucura em Loucura”, com letra de João Dias, do fado “Cravo” de Alfredo Marceneiro.

Tema após tema, o público foi convidado a entrar nesse movimento pendular, a beleza nascida da tensão entre o que existe e o que se rasga de novo. De “Cinquenta e Um”, com letra de A garota não e que integrará o novo álbum do cantor, nos escaparates a partir do próximo mês, ao inevitável “Mondadeiras” que fechou o concerto num “encore frouxamente reclamado - não sei se por timidez do público, depois de um momento vivido de forma quase reverencial -, o concerto trouxe consigo marcas profundas das raízes alentejanas do cantor, bem como influências do canto árabe, da herança sefardita e de uma ibericidade assumida que atravessa toda a sua identidade artística. O que se ouviu em Sever do Vouga foi um meio-termo fascinante entre o fado que conhecemos e o fado que ainda está por vir, pontuado por temas como “Atraso”, de João Paulo Esteves da Silva, “Lembra-me um Sonho Lindo”, de Fausto Bordalo Dias ou “Por La Mar Chica Del Puerto”, de Manuel Alcantara. Um território onde a tradição não é passado, mas matéria viva, e o presente se faz futuro da melhor música. Um concerto que prendeu e emocionou não pelo excesso, mas pela verdade: uma verdade cantada de corpo inteiro, a confirmar que Ricardo Ribeiro é referência maior e uma voz necessária no rico e complexo universo da melhor música portuguesa.

domingo, 3 de setembro de 2023

CONCERTO: Lula Pena



CONCERTO: Lula Pena
Centro das Artes e do Espectáculo de Sever do Vouga
02 Set 2023


“para o mundo não pisar às avessas
o negro que sou inclusive em alma
a custo forçaram a ver navios”

Noite de sábado. Penumbrosa, enigmática, Sever do Vouga é uma vila parada. Para muitos é fim de férias. Vêem-se algumas pessoas no interior dos cafés, na televisão o Benfica a jogar. Há sardinhada “ali ao lado”, na Silva Escura. O vento traz com ele o som do repuxo no lago e há no ar um cheiro de tempestade. Lula Pena pisa o palco do Centro das Artes e do Espectáculo de Sever do Vouga, perante uma plateia de não mais de vinte pessoas. A artista dirige-se ao público e fala de viagens, de um mapa com várias opções, de jogo, de caminhos novos que vão dar a velhos lugares, de improviso e desafio. De intimismo. De viagens, novamente. Viagens “por muitos países, muitas luas”. Viagens por geografias da alma, um “archivo pittoresco” que somos convidados a descobrir como nosso: Nas linhas que acompanhamos como nas mudanças de rumo ou direcção, na amplidão onde se abrigam novos horizontes como no desenho de rios e mares navegados como se fora a primeira (ou a última) vez. De mãos dadas com o sonho, aceitamos o convite, prontos para lançar a âncora em lugares do coração.

A guitarra primeiro, de seguida a voz. Fechados nos limites que adivinhamos em nós infinitos, somos envolvidos por sonoridades únicas que não conhecem fronteiras. Seguimos numa hipnótica digressão pelas costas da Sardenha ou pela longa cordilheira andina, banhamo-nos no Amazonas, vamos do Algarve ao País Basco e chegamos a terras do Novo Mundo. Escutamos o grego e o sardo, o adocicado português do Brasil, o inglês ou o francês, o espanhol ou o italiano. Bebemos as palavras de Jerusa Pires Ferreira, Ederaldo Gentil ou Elomar, de Benedicte Houart, Manos Hadjidakis, Salvatore Sini, Louis Scutenaire ou Violeta Parra. Diluídos num peculiar cosmos, percebemos quão próximos podem estar o “phado” do tango, a bossa nova da canção francesa, o flamenco da morna. Numa viagem sem interrupções, vogamos pelo fluir de línguas, sons e ecos, ajustamo-nos aos ritmos e às melodias. Sentimos este mundo cada vez mais nosso, a distender-se e a contrair-se na voz grave da cantora, no seu dedilhar, na relação alquímica com a guitarra, milagre dos sentidos feito de carne e espírito.

Voltei de novo a Lula Pena, ao seu / nosso “Archivo Pittoresco” e foi como se fosse a primeira vez. Natural, verdadeira, sedutora e livre, ao longo de uma hora cantou e encantou, a sua viola simultaneamente instrumento de cordas e de percussão a desenhar pontes, sempre pontes - “Rose eu peço a Deus que os dias seus / Sejam vividos pra jamais eu lhe encontrar nesta tristeza / Incontida, tão esquecida de viver…”. Encadeando um conjunto de dez canções como se fossem uma só, ligando fragmentos e estabelecendo confluências, Lula Pena voltou a sublinhar a sua ideia de um mundo sem muros nem fronteiras. Um mundo de criação e liberdade, feito de intensas melodias, timbres harmoniosos e ritmos apaixonantes, num todo sugestivo e inspirador. Noite sublime, noite de magia, de felicidade e júbilo, a fruição e o prazer a tomarem conta de nós, a subirem devagarinho, em passos lentos, a dissiparem a nossa cruz do desalento, a porem-nos na boca um sorriso e no peito um calorzinho bom. Sentimos próxima Ítaca, mas não queremos apressar a viagem.

domingo, 20 de maio de 2018

CONCERTO: "Trilogia", de Fausto Bordalo Dias



CONCERTO: “Trilogia”,
de Fausto Bordalo Dias
Centro das Artes e do Espectáculo de Sever do Vouga
19 Mai 2018 | sab | 21:30


Com a publicação, em 2011, de “Em Busca das Montanhas Azuis”, composto por canções em torno da exploração de África pelos portugueses, Fausto Bordalo Dias concluiu uma das obras fundamentais da música popular portuguesa. O álbum duplo foi o terceiro e final capítulo da intitulada trilogia “Lusitana Diáspora” – depois de “Por Este Rio Acima” (1982, a partir da “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto) e “Crónicas da Terra Ardente” (1994, debruçado sobre as viagens marítimas dos navegadores portugueses). Baseando-se nestes trabalhos, foi para rever e reviver a vida dum povo que, afinal, somos nós, que o músico e a sua banda subiram ontem ao palco do Centro das Artes e do Espectáculo de Sever do Vouga para uma noite absolutamente memorável.

Com as guitarras de “É o Mar Que Nos Chama” em fundo, Fausto foi recebido pelo público que esgotava o espaço com uma ovação estrondosa e que se perpetuou ao longo dum concerto que foi de festa e celebração. “Por Este Rio Acima”, considerado por muitos como o melhor álbum conceptual de música portuguesa de sempre, está a soprar 36 velas e foi ele quem primeiro saiu à liça. “O Barco Vai de Saída”, “A Voar por Cima das Águas”, “A Guerra é a Guerra”, “Porque não me Vês” e “Lembra-me um Sonho Lindo” fizeram gritar as gargantas do público e resultaram em momentos únicos, a revisitação destes temas a provar a sua força e actualidade. Saltou-se para as “Crónicas da Terra Ardente”, mas a batida manteve-se... e o entusiasmo também. Os ritmados “Ao Som do Mar e do Vento” e “A Deriva Porto Rico” e o intimista “Todo Este Céu” deram o mote para “Na Ponta do Cabo”, os oito músicos à frente do palco, só bombos e paus e vozes, um dos momentos mais altos do concerto.

Ao último álbum da trilogia, “Em Busca das Montanhas Azuis”, foi Fausto Bordalo Dias buscar cinco temas para fechar o alinhamento do concerto... ou quase. “Velas e Navios Sobre as Águas”, “E Viemos Nascidos do Mar”, “Fascínio e Sedução”, “Bárbaras Iguarias” e “Por Altas Serras de Montanhas” foram interpretados com a mesma garra e determinação dos anteriores, colocando em evidencia a extraordinário uniformidade do trabalho do cantautor. Tempo ainda para “Lusitana”, do Álbum “Para Além das Cordilheiras”, um tema perfeitamente integrado nestas histórias, crónicas e acontecimentos na vida de um povo que foi alvo do fenómeno da diáspora. E, já no “encore”, recordou-se “Foi Por Ela”, do mesmo álbum, colocando da melhor forma um ponto final num concerto único.

Alguns dirão que ficaram por cantar “Por Este Rio Acima”, “Navegar, Navegar” ou “Olha o Fado”; outros lembrarão “Diluídos Numa Luz” ou “Ao Longo dum Claro Rio de Água Doce”; outros, ainda, mais revivalistas, não desdenhariam ter escutado “Uns vão Bem e Outros Mal”, “Atrás dos Tempos Vêm Tempos” ou “Se tu Fores Ver o Mar (Rosalinda)”. E isto só prova a qualidade e a vastidão da obra de Fausto Bordalo Dias, uma obra que não cabe num concerto. Nem em dois... nem em três (só os três álbuns da trilogia contemplam, no seu conjunto, 59 temas). Ontem foi-nos dado a ouvir um pedacinho do seu magnífico trabalho. E foi um privilégio poder ter lá estado para o viver e sentir!