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sábado, 15 de maio de 2021

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Lo Que No Ves"


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Lo Que No Ves”,
de Sonia Señoráns
iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes 2021
Casa da Cultura Francisco Marques Rodrigues Junior, Avintes
01 > 30 Mai 2021


Desalento, prostração, desolação, desânimo, desistência. De “Cinco palavras, cinco pedras” nos fala o poema de Ruy Belo, amarga herança de um tempo em que os deuses deixaram de ser grandes como outrora. O poema ocorre-me ao percorrer com o olhar “Lo Que No Ves”, exposição de cariz autobiográfico da artista galega Sonia Señoráns, uma das duas dezenas de mostras da oitava edição do iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes e que pode ser vista na Casa da Cultura Francisco Marques Rodrigues Junior até ao próximo dia 30. Este é o resultado de um projecto fotográfico desenvolvido entre 2014 e 2020 e centrado em duas afecções de que padece a artista: Colite Ulcerosa e Febre Mediterrânea Familiar, “patologias que convivem comigo há anos e que são completamente invisíveis para quem delas não padece”.

A sociedade pouco ou nada sabe acerca do sofrimento destes doentes quando, de forma recorrente, têm de lidar com a fase activa das doenças. O alargado conjunto de sintomas impede que a pessoa leve uma vida normal, afectando o seu estado físico e psicológico, as relações familiares, as actividades do quotidiano e a vida profissional. É bem certo que aquilo que não vemos não existe e, por isso, Sonia Señoráns empenhou-se em tornar visíveis as cinco pedrinhas de que nos fala o poeta, cinco seixos afiados que, ora cabem na palma da mão e se afundam num nos bolsos do casaco, ora ganham vida própria, crescem e agigantam-se, tornando-se impossíveis de carregar, forçando a suspensão da caminhada.

Travando com a doença um longo e esgotante braço de ferro, sofrendo a severidade dos seus sintomas e sendo obrigada, ainda, a lidar com as consequências de tratamentos agressivos que, por vezes, ao invés de alívio, acarretam novos e maiores problemas, Sonia Señoráns soube encontrar a força e a arte de tornar visíveis as suas afecções. Na sua demanda, foi em busca de uma maior compreensão social, de mais investimento em investigação e de aceitação. “Para que aqueles que sofremos de doenças crónicas e raras possamos ser reconhecidos como parte da sociedade. Existimos. Somos.” Profundamente intimistas, de uma verdade espessa e crua, as imagens da fotógrafa são retratos que nos falam de dor e sofrimento, mas também de persistência e coragem. Retratos que são gritos, que nos sugam para o seu interior e que nos dizem que, juntos, podemos tornar mais leves cada uma destas cinco pedras.

domingo, 4 de outubro de 2020

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Estado do Tempo"


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Estado do Tempo”
Vários autores
Curadoria | Rui Prata, Manuel Miranda
Encontros da Imagem de Braga
Casa da Cultura Francisco Marques Rodrigues Júnior, Avintes
03 Out > 31 Out 2020


Para falarmos de “Estado do Tempo”, importa recuar a Maio de 1999 e à 13ª edição dos Encontros da Imagem de Braga, altura em que esta exposição foi inaugurada. Com um total de 248 imagens, a mostra tomou conta do espaço da Fábrica Confiança, na Cidade dos Arcebispos, condensando o trabalho de dez meses de Rui Prata, um dos dois directores dos Encontros, e Manuel Miranda, um dos fundadores dos Encontros de Coimbra. Em conjunto, seleccionaram em alguns arquivos fotográficos as imagens que pudessem sumariar o curso da história portuguesa ao longo de três quartos de século, período a que corresponde o início e a generalização da imagem fotográfica publicada na imprensa de massas. Fugiram “à pura ilustração dos grandes eventos, à imagem institucionalizada dos regimes políticos e da sua entronização cerimonial”, trocando a cronologia dos acontecimentos e das figuras oficiais por imagens que concedessem “a máxima visibilidade aos modelos comportamentais, aos sentimentos e emoções, aos valores e estados de ânimo colectivos, captados pela fotografia”, como refere Manuel Miranda na introdução ao catálogo da exposição.

É justamente este itinerário ao longo das “épocas vorazes” (1900-1933), do “poder das sombras” (1933-1961) e do “compasso de espera” (1961-1974), que serve de base à exposição ontem inaugurada em Avintes, numa muito saudada parceria entre os Encontros da Imagem de Braga e o iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes. No átrio da Casa da Cultura Francisco Marques Rodrigues Júnior podemos encontrar não a exposição original, mas uma pequena parte dessas imagens, num total de trinta, criteriosamente selecionadas no sentido de transmitirem a ideia original dos curadores em pôr o acento tónico na originalidade do olhar ou na sensibilidade do fotógrafo, alguém que soube acrescentar à banalização dos testemunhos mecanicamente registados a eventual curiosidade por um tema invulgar ou a diferença da densidade significante que é assegurada por um ponto de vista e uma composição particulares.

Explorando os vastos arquivos do “Diário de Notícias” e de “O Século”, mas também do Arquivo de Fotografia de Lisboa, do Arquivo Abel Resende e do Arquivo “Formidável”, alcunha de Fernando Marques, cauteleiro e fotógrafo, cujo espólio está preservado na Imagoteca Municipal de Coimbra, Rui Prata e Manuel Miranda cruzaram-se com nomes como os de Joshua Benoliel e C. Garcês, mas também, certamente, com os de Deniz Salgado, Salazar Dinis, Júlio Marques da Costa, Firmino Marques da Costa, António Novaes, José Lobo e até Augusto Cabrita e Eduardo Gageiro, já nos anos 60. O resultado é uma gritante chamada de atenção para a enorme riqueza desconhecida que se deposita nos pouco explorados arquivos fotográficos nacionais e um potente manifesto acerca da arte fotográfica, mostrando como o respectivo universo é igualmente o das imagens funcionais, anónimas e vernaculares, realizadas com fins práticos (no caso, a Imprensa) por artesãos dedicados que não tiveram por primeiro objectivo fazer arte ou declararem-se artistas. A não perder, até ao próximo dia 31 de Outubro!

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Paisagens Impossíveis"


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Paisagens Impossíveis”,
de Ana Carvalho
iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes
04 Set > 30 Set 2020


“Por isso amo as paisagens impossíveis, as grandes áreas desertas dos planos onde nunca estarei. As épocas históricas passadas são de pura maravilha, pois desde logo não posso supor que se realizarão comigo. Durmo quando sonho o que não há: vou despertar quando sonho o que pode haver.”
Fernando Pessoa, “Livro do Desassossego”

No âmbito do iNstantes – Festival Internacional de Fotografia de Avintes, a decorrer até ao final deste mês, Ana Carvalho, fotógrafa portuguesa radicada na Holanda, regressa ao nosso país com uma magnífica exposição à qual decidiu chamar “Paisagens Impossíveis”. Ocupando um dos espaços da Casa da Cultura Francisco Marques Rodrigues Júnior, em Avintes, esta mostra é composta por cerca de vinte imagens, todas elas “paisagens impossíveis”, nascidas de um processo de reflexão e análise sobre um conjunto de registos, dir-se-ía, casuais, nos quais a artista percebeu um género de paisagens, sobretudo porque “possuíam características formais suficientes para sê-lo”.

Cada imagem é um convite à interpretação, de acordo com a sensibilidade e o sentido do gosto do visitante, sobre tudo aquilo que se abre ao seu olhar. Um convite a que perceba onde termina a realidade representada e tem início um fascinante mergulho na abstracção. Que, em sobressalto, faça o exercício de rodar a fotografia para a esquerda ou para a direita, à espera de se surpreender, procedendo, enfim, ao recorte que dará à imagem a sua forma final. Que aceite jogar o jogo da manipulação visual, consciente de que nele reside o paradoxo de estar a ser enganado sem o ser, na verdade. E se quiser ver na tinta estalada de um portão um horizonte de ameaçadoras nuvens ou descortinar numa cordilheira nevada o ponto de encontro dos degraus com uma parede, tanto melhor.

Mais do que convocar o nosso olhar mediante o sentido estético que se derrama das formas, das cores ou das texturas que se adivinham em cada plano fotografado, Ana Carvalho questiona-nos, provoca-nos e, enfim, desassossega-nos. O desafio, se assim o for entendido, é dirigido aos sentidos como um todo, através do estabelecimento de narrativas que, em si mesmas, nos fazem levitar sobre mares e montanhas, ao encontro de nós mesmos. São paisagens impossíveis, de pinceladas vigorosas feitas, carregadas de sol e de sal, de fogo e do pó da terra, tornadas possíveis graças ao génio artístico de Ana Carvalho. Para quem a fotografia é, “muito mais do que a representação, a ilustração da realidade”.