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segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

CONCERTO: Carminho | "Maria"



CONCERTO: Carminho | “Maria”
Cine Teatro de Estarreja
18 Jan 2020 | sab | 21:30


Maria é nome de gente e é nome de disco. É por aqui que gostaria de começar, por esse que é o último trabalho de Carminho, editado em Novembro de 2018 e que, por essa altura, acrescentei à minha colecção. Ao longo do ano que findou, “Maria” foi presença assídua nos pontos de escuta habituais: o leitor de audio lá de casa ou o do carro. Ouvi-o vezes sem conta e aprendi a amá-lo como a nenhum outro antes dele, sorvendo a beleza dos seus poemas na voz cada vez mais pura de Carminho, aquele ondear sedutor no colo da guitarra, a cumplicidade única com Luís Guerreiro a revelar-se por inteiro. Quando passava uma música na rádio, cantava-a em voz alta, na esperança que mais e mais gente a pudesse ouvir. Faltava escutar “Maria” ao vivo. Em boa hora o CTE elegeu a fadista para abrir a mais nova série de “Concertos Íntimos”, inscrevendo-se como o segundo dos catorze palcos que, até Abril, a recebem em digressão nacional. O meu ingresso ajudou a esgotar a sala em três tempos. As expectativas não podiam ser mais elevadas. O espectáculo podia começar.

“Principio a cantar para quem tenha / Fome de ouvir a música do vento... / Porém, sabeis que fiz, da mágoa, lenha / E que das suas brasas me sustento?”. É sempre uma emoção incrível, difícil de explicar, o arranque de um concerto de Carminho (ainda hoje vivo amarrado ao “baque” de a ouvir a cantar sem qualquer suporte instrumental, no começo do memorável “Alma”, no Centro de Artes de Ovar). Com este “O Começo” (Fado Bizarro), letra de Pedro Homem de Mello e música de Acácio Gomes, assim foi uma vez mais. Depois o foco dilui-se, já conseguimos abarcar o palco por inteiro e perceber em Luís Guerreiro, Flávio César Cardoso, Pedro Geraldes e Tiago Maia um suporte de eleição, sólido pulmão que sustenta a respiração da cantora. Mas enquanto aquele primeiro momento vive, o que se vive é único, os sentidos concentrados num ponto apenas, nesse inesgotável gerador de energia e de emoções que é o coração de Carminho.

Nunca Carminho terá sido tão verdadeira em palco. Desde logo porque, na letra ou na música (ou em ambas), encontramos o seu “sangue, suor e lágrimas”, a sua assinatura. Escuta-se “A Mulher Vento” em êxtase, tal como se escuta “Estrela” ou esse texto sublime que é “Poeta”, o talento da Carminho-escritora-de-poemas a aproximar-nos aqui do grande António Aleixo. O mesmo poderia dizer de “Desengano” ou “Se Vieres”, os seus poemas sobre a música do Fado Latino, de Jaime Santos, e do Fado Santa Luzia, de Armando Machado, respectivamente. Ou de “O Menino e a Cidade” e “As Rosas”, ambos os temas com letra e música de Joana Espadinha mas transcendentes na voz de Carminho. Depois há todo um conjunto de detalhes que aproximam cantora e público, uma espécie de intimidade que se percebe no gesto de acariciar o pequenino ser que cresce na sua (já respeitável) barriguinha, na forma como lembra que “Maria é um bocadinho de nós”, como sussurra a uma criança para lhe dizer que sim ou como pede para cantar “bom dia, amor”. Intimista, especial e absolutamente único, assim foi o concerto desta que é, do fado, a sua melhor voz, a sua maior alma.

[Foto: Ángel Medina G. / EPA | observador.pt]

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