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domingo, 28 de julho de 2024

CONCERTO: "Amália Hoje"



CONCERTO: “Amália Hoje”
Com | Sónia Tavares, Nuno Gonçalves, Fernando Ribeiro, Paulo Praça
Sol da Torreira 2024
Largo da Varina
27 Jul 2024 | sab | 22:00


São dez da noite no Largo da Varina. Para uns é o culminar de um dia de praia excelente, tornado mais excelente ainda pela possibilidade de desfrutar de um magnífico pôr-do-sol numa esplanada, com um peixinho grelhado e um branquinho gelado à frente, a fazer horas para um concerto que está prestes a começar. Servindo de anteparo mútuo ao vento fresco que teima em não desmobilizar, é muito o público que se vai acumulando em frente ao palco montado junto ao icónico Assembleia Theatro da Torreira. E eis que os primeiros acordes se fazem ouvir, logo seguidos das vozes de Sónia Tavares, Nuno Gonçalves, Fernando Ribeiro e Paulo Praça. São eles que põem em palco o projecto “Amália Hoje”, prestando um sentido e sincero tributo a Amália Rodrigues no 25º aniversário do seu desaparecimento. Com Mário Barreiros na bateria, Israel Costa Pereira na guitarra, Carl Minneman no baixo e um coro de sete elementos, o concerto começa da melhor forma ao trazer para primeiro plano“Com Que Voz” e a poesia de Camões, no ano em que se comemoram os quinhentos anos do nascimento do poeta e autor de “Os Lusíadas”.

Falando um pouco deste projecto, “Amália Hoje” materializou-se num trabalho discográfico em 27 de Abril de 2009, na sequência de um convite da Valentim de Carvalho a Nuno Gonçalves para que reinterpretasse algumas canções do vasto catálogo da “Diva do Fado”, numa altura em que se cumpria uma década do seu falecimento. Tendo plena liberdade de escolha das composições, dos seus colaboradores, dos arranjos e de toda a direção musical, o mentor do projecto quis deixar de fora a guitarra portuguesa, substituindo-a por uma panóplia de instrumentos onde se juntam a guitarra elétrica e a bateria, os sintetizadores, as programações, um naipe orquestral e um coro. Respigado o conjunto da obra de Amália, fez-se “uma escolha pessoal dos fados, mas ao mesmo tempo uma escolha que não é óbvia”, levando o projecto ao encontro de “composições que tivessem espaço para crescer e que tivessem uma sensibilidade pop inata”. Assim nasceram nove fados imortalizados por Amália Rodrigues e vestidos com uma roupagem pop contemporânea, na certeza de que “Amália foi muito mais do que Fado”. O projecto acabaria por fazer o seu caminho e, após uma longa pausa, regressa agora aos palcos com algum material novo e a energia e emoção de sempre.

Pois se era de tributo o concerto, que todos se unissem no abraço a Amália e isso incluía, naturalmente, o público. Um público que soube dizer “presente”, que “fez do silêncio um grito” e mostrou “que perfeito coração” é aquele que, perfeito, cabe na sua mão. Paulo Praça trouxe-nos “Nome de Rua”, Fernando Ribeiro sambou a “Formiga Bossa Nova” e Sónia Tavares interpretou “Medo”. Embalados pelo público, os músicos seguiram em frente com um alinhamento que mereceu, sempre, um forte aplauso, apesar de haver arranjos melhores do que outros. Cabe aqui um parêntesis para o fado “Abandono”, por muitos conhecido como “Fado Peniche”, que trunca uma parte do poema de David Mourão Ferreira e lhe rouba a emoção ao transformar o refrão naquilo que mais parece um “trava-línguas”. Até ao final ainda pudemos escutar fados tão intensos como “Rasga o Passado”, “Fado Amália”, “Fado Português”, “Foi Deus” e até um inesperado “L’Important C’est La Rose”, um tema de Gilbert Bécaud cantado por Paulo Praça “num francês das Caxinas”. O encore trouxe com ele a surpresa de um pequeno filme, uma conversa de Amália Rodrigues com Alain Oulman em torno do ensaio de “Soledad”, um tema inédito de Amália sobre um poema de Cecília Meireles. E foi com “Soledad” que chegou ao fim “Amália Hoje”, momento nostálgico, repleto de música e poesia, que a todos encantou.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

CONCERTO: "The Gift Coral"



CONCERTO: The Gift Coral
Teatro Aveirense
21 Jan 2023 | sab | 21:30


Tudo o que possa ser dito sobre “The Gift Coral”, o concerto que a banda de Alcobaça trouxe ao palco do Aveirense, corre o risco de soar redundante. Digo isto a pensar não apenas nos fãs incondicionais, aqueles que seguem fielmente um trabalho de quase três décadas, mas em todos os que, como eu, numa fria noite de sábado, sem saberem muito bem ao que iam, viveram o concerto de forma completamente rendida ao momento, à voz, à música, à performance. Assente num magnífico coro de vinte vozes, o trabalho em torno deste “Coral” vive da qualidade indesmentível do tridente “voz-poema-melodia”, resultando numa experiência sensorial ímpar, emocionante, arrepiante, a elevar a música a patamares de grandeza superior. Com Jóhann Jóhannsson e os Sétima Legião, Fausto e Björk em pano de fundo, foi num turbilhão de emoções que me vi metido, apanhado de surpresa e completamente subjugado por uma experiência do domínio do sublime. De repente, foi como se toda a música que há no universo se condensasse num lugar único e mágico, ali mesmo à minha frente. E eu, entre a vertigem e o assombro, mais não tive que abrir o coração e aceitar a dádiva.

Como num requiem, o som angelical projecta-se em uníssono das gargantas e penetra-nos no corpo até ao seu mais fundo. Do clamor uma voz emerge, poderosa: “Sigo um instinto não me arrependo / Só quis viver sem mal no frio fatal / ser normal.” “Noir”, o tema que abriu este concerto dos The Gift, aponta caminhos contrastantes, nessa combinação feliz entre “o veludo da parte humana” e o “áspero da electrónica”. Isto torna-se mais evidente no tema seguinte, “Dissonante”, e atinge o auge com “Única”, as vozes como armas que se entrechocam num duelo de morte. Mas, entretanto, “7 Vezes” fez-se ouvir e o céu abriu-se mais ainda. Da melodia desprende-se a magia de um Danny Elfman de braço dado com a energia dos Galandum Galundaina, num tema que se nos cola ao corpo e nos diz: “Mão em mão sigo-te a sina / Sete vezes mal amada / E há tanto tempo que vinha pela raiz acorrentada”. “O Regresso” carrega nas palavras, tal como “Adágio”, o único tema que não é dos The Gift, antes foi escrito por José Carlos Ary dos Santos e, nos anos 70, surgiu na voz de Teresa Silva Carvalho. Albinoni faz-se ouvir, o lado clássico mistura-se com a portugalidade que se desprende do poema e a maravilhosa voz de Sónia Tavares encarrega-se do resto.

Entre o planalto mirandês, a planície alentejana, os escarpados beirões e o basalto das ilhas, o concerto prossegue e o espanto é cada vez maior. Bernat Vivancos, compositor catalão com uma obra coral vasta e riquíssima, assina o arranjo do tema seguinte e “Um Lamento” ergue-se em força e beleza, suportado pelo extraordinário trabalho do coro. O intervalo entre as músicas é preenchido por Sónia Tavares e Nuno Gonçalves com uma infinidade de pormenores pitorescos, de um casal de Madrid que perdeu a boleia a um CD-R para assinar “com fotocópia da capa e tudo”, de uma carta armadilha com Antrax a uma corrida de carrinhos de choque. “The Girl Next Door” surge numa altura em que o coração começa a acusar tanta emoção e constitui um momento, vá, mais relaxado. O concerto aproxima-se do final mas há tempo ainda para escutar “Passa-se o Tempo”, um momento de intensidade máxima com um final asfixiante, e “Infinita”, espécie de homenagem às influências dos anos 80, com um lado saudoso particularmente vincado. “Cancun” preencheu o encore e a festa prolongou-se para fora do palco, com uma fila interminável de fãs para cumprimentarem a banda e assinarem o disco. E continua ainda, muitas dias depois, com a promessa de que está para durar.