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domingo, 14 de abril de 2024

LIVRO: "Os Memoráveis"



LIVRO: “Os Memoráveis”,
de Lídia Jorge
Edição | Cecília Andrade
Ed. Publicações Dom Quixote, Março de 2014


“Não havia rumor, não havia estrondos, não havia sirenes, não havia polícia e nós pensámos. Teremos mesmo nós cem colocado a gravação no ar? Foi mesmo verdade, ou foi um sonho, que há meia-noite e vinte o som dos passos começou a rolar pelo país fora, e depois dos passos do coro veio a voz do Zeca? A canção do Zeca? O cante dele? A sua voz alternando com a voz dos companheiros? Meu Deus! Tanto silêncio, tamanha calma, pensámos, nós cem, quando parámos entre as duas igrejas. Possivelmente terá sido uma fantasia das nossas cabeças, nós cem não teremos colocado a fita no ar, a canção não terá passado, ninguém neste país a terá escutado, nenhum civil, nenhum militar em nenhum quartel, em nenhum regimento, e era por isso que nada iria acontecer. Pensámos nós, os cem.”

Quanto tempo será necessário para decifrarmos o que verdadeiramente se passou no 25 de Abril de 1974? Há que arrepiar caminho, já que o tempo começa a escassear, a memória vai pregando partidas e os grandes actores desses momentos vão desaparecendo do mundo dos vivos, levando consigo a verdade dos momentos que fizeram deles memoráveis. Lídia Jorge oferece, com este seu livro, um conjunto de pressupostos que são, se assim o quisermos entender, manobras de aproximação à realidade dos homens e mulheres de Abril, aqueles que, ao lado de El Campeador, no próprio dia da Revolução, se viraram para o general que fixava cada um deles através de uma lente de vidro e prometia prebendas a quem tinha feito o golpe de Estado: “Não queremos recompensa nenhuma. E tome cuidado connosco, general. Olhe que este dia ainda não terminou, a revolução ainda está na rua, os tanques ainda não regressaram aos quartéis, e os rapazes que têm as armas só vão precisar de dormir lá para o mês que vem.”

O poder da ficção é enorme, mostra-nos a autora neste seu livro. Partindo de um trabalho para uma série de uma cadeia de televisão norte-americana, uma jornalista portuguesa regressa a Portugal cinco anos depois de ter deixado o País. Nesta “viagem ao coração da fábula”, tem por missão documentar os momentos de uma revolução feita sem derramamento de sangue e entrevistar alguns dos seus principais protagonistas. Um jantar que se estendeu pela madrugada fora e uma fotografia que ilustra o encontro de “memoráveis” são o ponto de partida de uma viagem ao passado, onde a irreverência, a audácia, a coragem e a nobreza se cruzam com a hipocrisia, a falsidade e a traição. Onde se olha, uma e outra vez, para os portões com buracos feitos por balas, para os braços das mesmas árvores onde populares se empoleiraram para assistir à queda de um regime de meio século, para o mar de gente a descer a avenida com espigas de trigo nos chapéus e cravos na lapela, um povo outrora escravo a cantar a liberdade.

Hábil a trazer-nos a sua visão da História, Lídia Jorge faz de “Os Memoráveis” um exercício de recuperação da memória. São muitos os momentos eloquentes, desde logo a recusa do “Ministro” em atribuir a Salgueiro Maia uma pensão vitalícia “por serviços excepcionais e relevantes prestados ao país”, depois do pedido ter sido votado favoravelmente pelo Conselho Consultivo da Procuradoria Geral da República. A autora não refere o nome deste “Ministro”, da mesma forma que nunca menciona os nomes dos “memoráveis”, optando por uns enigmáticos Oficial de Bronze e Charlie 8, Tião Dolores e El Campeador, o Nunes e Ernesto Salamida, os poetas Ingrid e Francisco Pontais. Caberá ao leitor descobrir quem é quem nesta história, sendo certo que uma passagem pelos motores de busca mostra a quantidade de leitores e estudiosos que se vão debruçando sobre o assunto e partilhando as suas conclusões. Por tudo quanto nos traz e pela forma como está escrito, “Os Memoráveis” é um grande livro de Abril, um livro de hoje e de sempre.

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

LIVRO: "Misericórdia"



LIVRO: “Misericórdia”, 
de Lídia Jorge
Edição | Cecília Andrade
Ed. Publicações Dom Quixote, Outubro de 2022


“Por isso, se a noite quisesse, mesmo ganhando eu a batalha, ela poderia meter a mão na minha bolsa de pano, ler a mensagem do sargento e rasgá-la. Ela sabe como, pela primeira vez, sou infiel ao sedutor Edgar de Paula, o pai da minha filha, de quem ela herdou o carácter. A noite sabe e por isso vem de língua vermelha, pendida, de fora, a perguntar pela quinta vez - ‘Sabes tu o que é o amor? Então como queres partir desta vida em paz contigo mesma, se não és capaz de definir o que faz mover o vivente? Das plantas aos animais, e até dos mármores aos planetas? Diz lá…’ Regougou ela, a raposa, junto aos meus ouvidos. A sua saliva era pegajosa. E eu disse - ‘Não te aproximes demais. Não sei definir, mas sei contar.’ Então a noite, a perversa, desafiou-me, tomando por inteiro o meu corpo - ‘Conta lá.’ ”

Mais do que um livro, “Misericórdia”, é um acto de coragem. Uma dádiva de amor. E uma lição de vida. Emociona-nos pela verdade e bondade que dele emanam, pela sua visão clara e lúcida, pela espontaneidade e autenticidade do seu falar. Lê-lo é olharmo-nos nos olhos em frente ao espelho, despojados do fingimento e artificialismo com que nos mascaramos, certos das nossas limitações, fragilidades e indecisões, aceitando com naturalidade a nossa finitude. Pela universalidade dos seus fundamentos e pela riqueza dos valores humanos que convoca, “Misericórdia” prende o leitor desde as primeiras linhas, cola-se a ele, mistura-se, liquefaz-se no seu interior. Nessa tão grande proximidade, nessa intimidade mais funda, mostra-nos a vida no que tem de mais belo: os passos que lhe dão sentido, a riqueza dos seus ciclos, a sua enorme imponderabilidade.

Maria Alberta Nunes Amado é a protagonista desta história. No livro é Dona Alberti, assim a tratam no lar para onde se mudou por vontade própria quase há dois anos, o Hotel Paraíso, em Valmares, a linha do Atlântico lá ao fundo. É aí que vamos encontrá-la, sentada na sua charrete a caminho do Salão Rosa, no quarto escutando as cuidadoras ou os outros hóspedes, na cama à espera da noite que espreita no seu lugar de sombra, pronta para abrir o leque negro das suas asas e a provocá-la com a impertinência das suas questões. São dela as respostas mais assertivas, os conselhos mais sábios, os silêncios mais eloquentes, os segredos mais bem guardados. No toque de umas mãos há graça e delicadeza, o perfume que emana de um corpo inebria, uma música a quatro vozes é paz e concórdia, o fogo de artifício em noite de passagem de ano é festa e alegria. Só a filha, com os seus livros de final indigente, a catar as migalhas que caem da mesa da História e a fazer amor com o Universo, destoa num mundo que aspira ao harmonioso e ao belo.

Li “Misericórdia” num ápice. Tenso, inquieto, em sobressalto, vivi cada dia deste arco entre a Primavera e a chegada do Inverno como se dos meus próprios dias se tratasse. Os dias a seguir às noites a seguir aos dias. Levantar, lavar, vestir, comer, despir, deitar, levantar. As vozes sem rosto e os rostos sem voz. A violência numa televisão sem som como uma banda desenhada de mau gosto. A humildade de uns e a soberba de outros. O intenso rodopio dos que partem e dos que chegam. As intrigas e as pequenas confidências, a desconfiança e o enxovalho, a ameaça e as “vias de facto”. Um microcosmos onde “se albergam todo o tipo de pessoas, e como na vida lá fora, os malignos passam por cima dos outros”. Em crescente sobressalto, assim o li. Em estado de alerta e, contudo, impreparado para os “sete parágrafos em seu nome” que fecham o livro. Sete momentos arrancados ao génio, sete diamantes em forma de prosa, sete céus de um firmamento chamado literatura. “Misericórdia” não é um livro. É um milagre!

sábado, 13 de março de 2021

LIVRO: "Estuário"



LIVRO: “Estuário”,
de Lídia Jorge
Edição | Cecília Andrade
Ed. Publicações Dom Quixote, Maio de 2018


“Durante uma noite tinha preenchido quatro páginas de um caderno, e pela manhã encarara-se com uma fita de escrita muito abaixo do tom harmonioso com que havia sonhado. Já tinha percebido que não passava de um pobre aprendiz que declamava uma ode, e por isso se assimilara, na música e na cadência, a essa ode, mas não assegurava em si a sua continuação. Além disso, o seu oráculo jazia numa cama, ainda empurrava almofadas, mas já não lhe respondia.”

É em Dagahaley, um dos três campos de refugiados que formam o complexo de Dadaab, no nordeste do Quénia, que esta história começa. Edmundo Galeano, jovem português ao serviço da CARE, Organização Não Governamental parceira do ACNUR que presta apoio humanitário a cerca de 200.000 refugiados somalis, sofre um acidente, ficando privado de três dedos da mão direita. Com o indicador, o polegar e parte do metacarpo apenas, inicia um lento e doloroso processo de recuperação, fazendo da escrita o suporte da sua terapia. Distribuídas na superfície do papel com simetria invulgar, as letras juvenis vão-se alinhando moduladamente, à medida que no seu espírito cresce a necessidade imperiosa de escrever um livro, nele fundindo o passado, o presente e o futuro deste espaço a que chamamos Terra e de todos quantos nela habitam.

São múltiplas as leituras que “Estuário” oferece, a mais presente das quais será aquela que mergulha no nosso mais fundo e nos vem dizer que é justamente aí que começa este mundo dividido tal como o conhecemos. É certo que o livro aborda alguns dos grandes problemas que afligem a Humanidade, como a guerra, a fome, os deslocados e refugiados. Que está lá, também, a cidade com os seus ruídos, a vista sobre o rio, o chiar dos eléctricos nos carris, o correr anónimo das suas gentes. Ou, centrando o olhar mais na forma e menos no conteúdo, esse objecto dentro do objecto, essa forma de entretecer palavras e mostrar com que linhas se pode cozer um livro. Mas é na redução de um campo de refugiados a perder de vista ao espaço simples de uma casa, com os seus quartos e salas, os seus corredores e escadas a ligar os pisos entre si, as suas pessoas e as relações que entre elas se estabelecem, que a ficção se adensa para nos dar a nota de verdade do que de bom e de mau há em nós.

Com “Estuário”, Lídia Jorge volta a provar o quanto a literatura serve de base de reflexão sobre o espaço em volta, buscando sentido para um quotidiano feito de fragilidades e ameaças. “E se o perigo somos nós?”, parece perguntar a escritora, à medida que convoca os lugares da memória onde se abriga um mapa cujas linhas mostram as dobras do tempo. É nelas que coabitam, em precário equilíbrio, as forças e fraquezas do ser humano, as suas grandezas mas também os seus medos. No presente pandémico que enfrentamos, este livro resgata do silêncio os contornos mais sensíveis da realidade, oferecendo-nos um testemunho notável sobre a vulnerabilidade humana. “Ah, os piratas! os piratas! A ânsia do ilegal unido ao feroz, a ânsia das coisas absolutamente cruéis e abomináveis, que rói como um cio abstracto os nossos corpos franzinos, os nossos nervos femininos e delicados, e põe grandes febres loucas nos nossos olhares vazios!”