Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Clube Fenianos Portuenses. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Clube Fenianos Portuenses. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 9 de maio de 2024

EXPOSIÇÃO: "Cartoons 2023"



EXPOSIÇÃO: “Cartoons 2023”,
de Cristina Sampaio
Mostra de Fotografia & Autores
Clube Fenianos Portuenses
23 Mar > 11 Mai 2024


Com a Mostra de Fotografia & Autores a chegar ao fim no Clube Fenianos Portuenses, tempo hoje para olharmos uma exposição que, não tendo a ver directamente com a fotografia, se integra de forma natural numa mostra onde os olhares sobre o quotidiano se revelam de forma tão directa e objectiva. Trata-se de “Cartoons 2023”, de Cristina Sampaio, espécie de “revista do ano” que reúne alguns dos acontecimentos mais relevantes da actualidade portuguesa e mundial sob a forma de cartoons. Um humor mordaz que se abriga na simplicidade do traço, uma linha clara que disseca a bisturi as fracturas do nosso tempo, o desenho vectorial como arma de denúncia das turbulências do quotidiano, são imagens de marca desta admiradora de Hergé que, “sem medos, desenha a direito com linhas tortas”, como sintetiza Rita Pimenta num trabalho sobre a artista para o Jornal Público. Junte-se a tudo isto a inspiração do olhar, a clarividência de apontar o errado no que parece certo, a inteligência de sugerir para além do que é mostrado, o talento de carregar num desenho um legado de mil palavras, e eis o porquê de ser incontornável uma visita a esta exposição.

Um primeiro painel lembra-nos que não vale a pena disfarçar, nem fazer conferências sobre o clima de seis em seis meses em países que fazem jorrar petróleo como se houvesse sempre amanhã. A verdade é que estamos num impasse sobre o modelo de acção para inverter a marcha rumo ao abismo ambiental e climático e, como já se percebeu, são muito diferentes as velocidades a que andam as nações quando lhes toca assumir compromissos sobre o futuro do planeta. Um outro painel fala do nosso país ao lembrar-nos que os problemas não existem para serem resolvidos aqui, mas para continuarem a existir como problemas; e dá como exemplo o cómico e trágico de um SNS a gritar SOS há anos, dos aviões que continuam a aterrar na Portela desde 1969, quando foi criado o Gabinete do Novo Aeroporto de Lisboa, que os alunos continuam a olhar para o boneco horas a fio à espera de professores. Outro painel, ainda, mostra o quão divertido pode ser um partido político como o PPD-PSD, sempre irrequieto, sempre em modo de desestabilização interna, sempre em redefinição ideológica e/ou reajustamento no espectro político a cada novo líder.

A política nacional volta à ribalta dos cartoons com “Facadinhas”, olhando para aquilo que foi a convivência entre o Presidente da República e o ex-Primeiro Ministro, um namoro sempre a pisar um verniz fino, uma dança de recados indirectos, alguma intriga e abundante cinismo. A Europa e aquilo a que Cristina Sampaio chama o “Clube do Bolinha” prende a nossa atenção num outro painel, mostrando que as palavras “migrante” ou “refugiado” passaram a ser armas de arremesso capazes de ganhar eleições e que, em vez de um escrito na entrada a avisar “menina não entra”, a cada crise de refugiados se inventam mais fronteiras, mais arame farpado e mais países disponíveis para albergar quem não queremos a viver ao nosso lado. “Na brasa” fala-nos do constante atear de fogueiras dentro do maior camião de lenha do planeta que é o Brasil, “Amor de constrição”diz-nos que Pequim já não pensa em limites quando se trata de pôr em marcha planos de expansão ou praticar espionagem avulsa, e “O Medo” leva-nos ao encontro do verdadeiro político, aquele que, estando dentro de um barco com outros, inventa uma tempestade e convence toda a gente de que é o único capaz de salvar a embarcação. A não perder!

segunda-feira, 6 de maio de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Ponto de Chegada"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Ponto de Chegada”,
de André Rodrigues
Mostra de Fotografia & Autores
Clube Fenianos Portuenses
23 Mar > 11 Mai 2024


Odemira, o maior concelho do país em território, lida há anos com o aumento do número de residentes estrangeiros. Em 2020, representavam já quase 40% da população. Vivem em casas sobrelotadas e trabalham horas a fio, no calor das estufas para receberem um salário de miséria, só “suavizado” graças ao enorme volume de horas extraordinárias que se obrigam a fazer. A pandemia de COVID-19 veio escancarar a ferida e foi com estupefacção que o País tomou conhecimento da falta de condições em que viviam milhares de trabalhadores imigrantes no sudoeste alentejano, apesar de a situação não ser nova para quem vive na região. Casas, armazéns e anexos estavam repletos de gente, a viver sem as mínimas condições de higiene, sobretudo devido à falta de habitação condigna. O Governo interveio, criou legislação para acelerar a legalização das habitações temporárias instaladas pelos produtores de frutos vermelhos nas explorações e para a criação de alojamento temporário e amovível que pudesse dar resposta às necessidades, mas o tempo vai passando e, pelo menos em matéria de habitação, o problema persiste.

É das profundas transformações territoriais, demográficas e culturais que o litoral alentejano tem sofrido nos últimos anos que nos fala “Ponto de Chegada”, reportagem fotográfica de André Rodrigues, patente até 11 de Maio no Clube dos Fenianos Portuenses, ao abrigo da extraordinária Mostra de Fotografia & Autores. As imagens contam a história de planícies de seara a perder de vista, praias e refúgios naturais impolutos a serem engolidos por mares de plástico, em pleno Parque Natural do Sudoeste Alentejano. Ao êxodo da população nativa, em busca de melhores condições de vida e de emprego em zonas mais desenvolvidas do pais ou no estrangeiro, soma-se a modificação da estrutura de gestão fundiária. Há pouco mais de uma década, os colossos multinacionais de frutos vermelhos descobriram uma soalheira Califórnia europeia, mas com solos arenosos e água abundante, de baixo custo e com poucos entraves a modelos de produção intensiva. Salários baixos, intensa carga física, bem como um enraizado desprestígio social associado ao trabalho agrícola, contribuem cumulativamente para o afastamento da já exígua potencial mão de obra local, criando um fluxo torrencial de trabalhadores sazonais à região.

Estas vagas migratórias laborais, inicialmente, dos países de Leste, mais recentemente, provenientes da Ásia, estão a alterar profundamente a demografia do litoral alentejano. Sem surpresa, à velocidade da chegada destes trabalhadores, sucedeu-se a expansão desenfreada da precariedade e miséria. Mas também uma explosão de novas mundividências, tradições e celebrações. Quem são, afinal, estas pessoas que atravessam o mundo dispostas a fazer o trabalho que os portugueses recusam, ou para o qual não existe mão de obra suficiente? Até quando ficarão? Numa inversão radical do fenómeno da década de 60, o território alentejano converteu-se em plataforma de acolhimento. Qual será o impacto que este fenómeno terá culturalmente na região? O aparente paradoxo desta dicotomia sócio-cultural e económica torna-a única pela sua dimensão e a realidade da chegada de milhares de jovens estrangeiros todos os anos à região mais envelhecida do país merece uma profunda reflexão. “Ponto de Chegada” mergulha no problema e convida a reflectir na busca de soluções.

sexta-feira, 3 de maio de 2024

EXPOSIÇÃO: "Aurélio da Paz dos Reis, Uma Vida"



EXPOSIÇÃO: “Aurélio da Paz dos Reis, Uma Vida”
MFA - Mostra de Fotografia & Autores
Clube Fenianos Portuenses
23 Mar > 11 Mai 2024


Aurélio da Paz dos Reis viveu plenamente os tempos da mudança, do progresso e da inovação que dinamizavam o Porto, afirmando-se como um homem actuante na vida económica, política, social, cultural e artística da sua cidade. Nascido no Porto em 1862, foi um hábil comerciante e floricultor, com a sua loja “Flora Portuense” na Praça de D. Pedro (hoje, Praça da Liberdade) e horto, jardins e estufas no palacete que habitava em Nova Cintra, ganhando vários prémios nas Exposições no Palácio de Cristal. Aurélio recebeu influências do avô, que foi miguelista e por isso deu ao filho o nome de Miguel da Paz dos Reis. Porém a inclinação política de Aurélio era o liberalismo, confirmando-se com a sua participação na Revolta do Porto, de 31 de Janeiro de 1891, que pretendia derrubar a Monarquia. Através dos seus ideais conseguiu uma progressão rápida nos graus da Maçonaria do Vale do Porto, e aderiu ao Partido Republicano. Esta sua opção política originou dois encarceramentos na Cadeia da Relação do Porto.

De certa forma irónico é o facto de ser precisamente na Cadeia da Relação, onde está instalado o Centro Português de Fotografia, que se encontra o espólio fotográfico do artista, doado pelo neto, Hugo Paz dos Reis. Constituído por 9260 negativos e 2464 positivos, este fundo reflecte a produção fotográfica relativa a reportagens políticas, principalmente comícios republicanos, eventos sociais e fotografias de carácter familiar e de viagens. Existe ainda outro tipo de documentação tais como documentos de identificação da família, da Flora Portuense, da Maçonaria, do “Grupo dos Zecas”, correspondência com os filhos e outros, programas de teatro, recortes de jornais, artigos fotográficos, artigos sobre cinema, livros, revistas, jornais relacionados com a fotografia, a plantação de sementes e flores, a agricultura ou a maçonaria. Este fundo possui também objectos tridimensionais pessoais, envelopes de papel fotográfico, caixas de negativos de vidro não expostas, produtos químicos, postais, indumentária da maçonaria, medalhas ou alfinetes.

No verão de 1896, Aurélio da Paz dos Reis pensou em comprar um cinematógrafo aos irmãos Lumière, e desloca-se a Paris, mas estes não lho venderam, acabando, por comprar aos irmãos Werner (juntamente com o seu cunhado Francisco Magalhães Bastos Júnior, comerciante e fundador da Photo Universal), um aparelho cronofotográfico, uma variante do cinematógrafo, com um funcionamento mecânico diferente mas que cumpria o propósito a que se destinava: filmar. Com este equipamento Aurélio da Paz dos Reis filma a fábrica do amigo, António da Silva Cunha, a Camisaria Confiança, na Rua de Santa Catarina, n.º 181. Este filme é a primeira obra de referência do cinema português. É uma parte deste espólio que é mostrado ao público pela primeira vez, numa justíssima homenagem do Clube Fenianos Portuenses àquele que foi um dos seus mais notáveis sócios e que a Mostra Fotografia & Autores tão bem soube recuperar, integrando a exposição nesse evento maior, de visita obrigatória.

quinta-feira, 2 de maio de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Na Terra"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Na Terra”,
de Ana Brígida
MFA - Mostra de Fotografia & Autores
Clube Fenianos Portuenses
23 Mar > 11 Mai 2024


Cruzei-me com a fotografia de Ana Brígida no Centro Português de Fotografia, em dois anos consecutivos, à boleia do Prémio Estação Imagem Coimbra. Em 2020 com a série “Touros”, a fotógrafa venceu o prémio na categoria Arte e Espectáculos, e no ano seguinte arrebatou o prémio na categoria Assuntos Contemporâneos com a série “Super-Heróis”. Em ambos os casos, é marcante o cuidado e a subtileza na forma de contar uma história, a par da qualidade da sua fotografia que lhe é intrínseca. Esta ligação ao Prémio, porém, obriga a recuar a 2019, ano em que lhe foi atribuída a Bolsa Estação Imagem Coimbra, com a proposta de trabalho sobre as comunidades e eco-aldeias de estrangeiros e portugueses que repovoam o interior desertificado da região de Coimbra. Na Serra do Açor, estima-se que vivam já mais de mil novos habitantes nos concelhos da região. A maior parte são estrangeiros, mas contam-se também alguns portugueses que voltam a dar vida às terras. Reunidas sob o título “Na Terra”, as imagens de Ana Brígida podem ser apreciadas no Clube Fenianos Portuenses, à boleia da extraordinária Mostra de Fotografia & Autores que ali estará patente até 11 de Maio.

“Na Terra” é uma história de amor entre o homem, a natureza e os animais. Desde há muito que o interior se despovoa, seja pela falta de interesse na continuação do trabalho no campo, seja pela utopia das cidades de uma vida mais cheia e rica. O êxodo para as metrópoles deixou aldeias ao abandono, casas em ruínas, terras tomadas pela natureza e à mercê dos incêndios. Mas a vivência desligada da terra, a massificação urbana e uma sociedade virada para o consumo e para a tecnologia trouxeram também o interesse de muitos em voltar para a calma do interior. Procuram a vida perdida de gerações anteriores e dão-lhe uma nova energia e significado. Vêm com o sonho de viver mais perto da natureza, tratar dela. Viver de uma forma mais sustentável e onde o círculo de utilização é completo. Usar o que a terra dá, para comer, construir, curar e meditar. Juntos pelo interesse comum, das suas mãos nasceu uma nova economia, uma moeda própria – a estrela –, dois mercados de produtos artesanais, um projecto de aprendizagem comunitária, uma associação criativa e uma loja de roupa em segunda mão, entre muitas outras coisas.

A eles se deve a reconstrução de muitas casas devoradas pelas chamas em outubro de 2017 e ao reerguer da comunidade. Na zona da Benfeita, há agora 35 crianças que devolveram à aldeia a vida e energia que há muito dali andavam arredadas. É vê-las, juntamente com os pais, nessa luta a favor das espécies autóctones da floresta e contra o eucalipto e as monoculturas. Há quem tenha cabras e ovelhas. Todas têm nome. A maior parte dedica-se à permacultura e alguns recebem voluntários que se interessam por aprender. Muitos acabam até por comprar terreno e começam uma nova vida. Uma vivência onde há tempo para plantar, trabalhar, descansar e, principalmente, para as relações humanas. Aprendem os velhos costumes, as técnicas de xisto e dão-lhes uma nova vida. Misturam a arquitectura do passado com madeiras vindas dos fogos e juntam-lhe o que a natureza tem. A vida nem sempre é fácil, o trabalho na montanha é por vezes árduo, mas a vontade é maior do que a dificuldade. Unem-se para o bem comum e em torno da natureza. As imagens aí estão para ajudar a contar a sua história.

quarta-feira, 1 de maio de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Aqui Um Homem Matou Uma Mulher”



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Aqui Um Homem Matou Uma Mulher”,
de José Carlos Carvalho (fotografias), Teresa Campos (textos) e Álvaro Rosendo (infografia)
MFA - Mostra de Fotografia & Autores
Clube Fenianos Portuenses
23 Mar > 11 Mai 2024


Enquanto morrerem mulheres às mãos de quem as prometeu amar, haverá sempre atualidade neste trabalho. Disse-o a secretária de Estado da Igualdade, quando a exposição “Aqui Morreu Uma Mulher” iniciou a sua digressão pelo país; as palavras bem que podem ser repetidas, no momento em que se apresenta, no Clube Fenianos Portuenses, uma versão da mesma, revista e aumentada, que toma o nome de “Aqui Um Homem Matou Uma Mulher”. Como elemento integrante da Mostra de Fotografia & Autores, a mostra revisita o trabalho inicial que resultou de uma reportagem que nos levou José Carlos Carvalho, Teresa Campos e Álvaro Rosendo a percorrer o país, de norte a sul, em 2015. Passavam, então, 15 anos desde que o Parlamento aprovara a lei que tornava a violência doméstica um crime público. Ou seja, que qualquer pessoa pode denunciar. Além disso, partia de uma indignação perante o número hediondo de 43 mulheres que, no ano anterior, tinham sido mortas às mãos de quem as prometera amar, fazendo de 2014 uma espécie de annus horribilis para as mulheres.

Maria da Luz, Filomena, Laura, Gracinda, Maria José, Aidé, Marinha, Céu, Maria Beatriz, Maria de Lurdes, Ângela, Isabel de Jesus, Deolinda, Joana, Sílvia, Fátima, Maria Cândida, Maria Luísa, Vânia, Leonor, Maria Cremilda ou Judite são apenas alguns nomes de uma longa lista de mais de 500 mulheres assassinadas desde o ano em que a lei portuguesa nos passou a responsabilizar a todos pela denúncia de um crime desta natureza. Aquilo que podemos perceber é a transversalidade deste fenómeno a toda a sociedade portuguesa: a violência doméstica sobre as mulheres existe no litoral e no interior, no meio urbano e no meio rural, em todas as classes sociais, em todas as faixas etárias. Segundo o Portal da Violência Doméstica, disponível no sítio da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, em 2022 tinha sido ultrapassada a fasquia das 30 mil queixas-crime, o mesmo voltando a suceder em 2023. No último trimestre do ano passado, 659 mulheres e 615 menores estavam a ser apoiados pela Rede Nacional de Apoio às Vítimas de Violência Doméstica, em 35 casas-abrigo espalhadas pelo país.

Quando se cumpre praticamente uma década sobre esse momento, os números confirmam que não há alterações ao cenário da violência doméstica um pouco por todo o país. Ao longo de 2015,  José Carlos Carvalho, Teresa Campos e Álvaro Rosendo haveriam de retratar 28 casos de mulheres mortas em contexto de violência doméstica. Os números baixaram um bocadinho, no par de anos seguinte, mas, como já lembrava a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, no ano passado, rapidamente foi retomada a triste trajetória pré-pandemia. O relatório divulgado pela Procuradoria-Geral da República sobre os homicídios em ambiente de violência doméstica referente aos casos ocorridos em 2023 indica que 22 pessoas foram assassinadas, das quais 17 eram mulheres, três homens e duas meninas. Súmula fria de números, imagens como gritos desesperados, nomes que servem de alerta e nos implicam a todos num problema social de enorme magnitude, “Aqui Um Homem Matou Uma Mulher” é uma exposição incontornável em qualquer contexto e pode ser visitada nos Fenianos até ao dia 11 de Maio.

domingo, 28 de abril de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “365 Dias que Mudaram as Nossas Vidas”



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “365 Dias que Mudaram as Nossas Vidas”,
de Clara Azevedo
MFA - Mostra de Fotografia & Autores
Clube Fenianos Portuenses
23 Mar > 11 Mai 2024


“Quando nos despedimos de 2019 com abraços e sorrisos, e desejámos Feliz Ano Novo, nada faria supor que esse seria o ano mais improvável das nossas vidas. Estávamos a poucos dias da Primavera, quando o país entrou em modo “pausa”, consequência de um vírus que parecia tão distante.” As palavras são de Clara Azevedo, mas poderiam ser de qualquer um de nós. Perante a drástica alteração do contexto planetário, de um mundo tomado de assalto por um vírus capaz de, num repente, enterrar todos os planos do quotidiano, cada um de nós sentiu a necessidade de adoptar uma estratégia de defesa que nos ajudasse a sobreviver à crise pandémica, à omnipresença da máscara, ao distanciamento social, à frieza dos números, à ausência do toque como arquétipo do afecto. A fotógrafa conta que a sua estratégia passou, logo nos primeiros dias de confinamento, por fazer um diário que seria a sua ligação à nova realidade, partilhada no Instagram. “A terapia para os dias da pandemia era a fotografia, memória e documento.”

É essa “memória e documento” que regressa sob a forma de imagens às quais Clara Azevedo resolveu chamar “365 Dias que Mudaram as Nossas Vidas”. São imagens que espelham a incerteza de cada dia, na rua, em casa, no trabalho, quando tudo fechou, até mesmo o espaço aéreo. “Percorrer a Avenida da Liberdade, em Lisboa, sem ver um carro ou encontrar alguém, era quase impensável, mas real. A cidade estava adormecida, em silêncio absoluto. Ouvia o vento e os pássaros, que desconheciam esta paragem do tempo. Gestos simples eram ruído, cada disparo das minhas máquinas fotográficas era perturbador”, conta, ao mesmo tempo que pensa “como seria perfeito se as fotografias tivessem som… registassem o silêncio.” Em silêncio atravessamos o enorme salão dos Fenianos enquanto olhamos as imagens e tudo nos vem com a força de um sonho mau que queremos esquecer. Mas como esquecer os funerais feitos à pressa e sem gente, as pessoas sozinhas à janela ou nas varandas, um padre que celebra missa para uma igreja vazia, os “fatos de astronauta” dos profissionais de saúde, o rosto cerrado dos decisores nas suas reuniões com os peritos? Como esquecer?

Clara Azevedo passou pela primeira vez, a Páscoa sozinha. Fala das conversas virtuais a diluir a distância e o isolamento, do fato-de banho e da máscara como um novo “dress code” obrigatório nas idas à praia no Verão, das saudades ainda mais intensas dos abraços, de tocar, de estar perto da família e dos amigos, sem condicionamentos, por alturas do Natal. Entretanto, o tempo foi passando e o vírus acabou por desmobilizar após sucessivas vagas da pandemia. Alcançar a imunidade de grupo revelou-se fundamental para o “acalmar” da situação, algo que não teria acontecido se fossemos todos negacionistas e partidários do movimento anti-vacinas. Entretanto, Clara Azevedo pôs fim a um diário que guardou a memória dolorosa de doze meses de vida em suspenso. “As fotografias deste diário são o meu estado de alma, quer estivesse a fotografar o Primeiro-Ministro no seu dia-a-dia, ou a registar o que acontecia à minha volta”, diz. À pasta - “memória e documento” - deu o nome 365: “não [é] um código, mas sim um reminder de um tempo recente que mudou as nossas vidas… para sempre.” A MFA - Mostra de Fotografia & Autores recupera-a e apresenta-a no espaço dos Fenianos Portuenses. É obrigatório passar por lá.

quinta-feira, 25 de abril de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Golpe de Estado no Chile"



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Golpe de Estado no Chile”,
de Horacio Villalobos
MFA - Mostra de Fotografia & Autores
Clube Fenianos Portuenses
23 Mar > 11 Mai 2024


No dia em que celebramos 50 anos do 25 de Abril e prestamos a nossa homenagem ao movimento dos capitães e à forma como, pondo cobro a quase meio século de ditadura, nos abriram um futuro assente nos valores da liberdade, da justiça e da democracia, abrimos espaço a uma extraordinária reportagem de Horacio Villalobos, integrada na “Mostra de Fotografia & Autores”. Com o fotógrafo recuamos a 11 de setembro de 1973 e ao Golpe de Estado protagonizado por militares comandados pelo general Augusto Pinochet que derrubou o Governo socialista de Salvador Allende e levou à instauração de uma ditadura que se prolongou até 1990. É desse dia que nos falam as imagens de Villalobos, as ruas tomadas de assalto por carros de combate, as balas nas paredes das instalações da United Press International, um corpo tombado no meio da rua, o olhar vazio dos (poucos) transeuntes, o palácio de La Moneda em chamas após ter sido bombardeado.

O Golpe de Estado chileno de 1973 foi um derrube militar do governo da Unidade Popular, liderado pelo Presidente Salvador Allende. Allende, o primeiro socialista a ser eleito presidente numa democracia liberal latino-americana, enfrentou uma grande agitação social dos setores conservadores, tensões políticas com o Congresso, controlado pela oposição, e uma guerra económica ordenada pelo Presidente norte-americano Richard Nixon. Em 11 de setembro de 1973, as forças armadas, lideradas pelo General Augusto Pinochet, tomaram o poder através de um golpe, pondo fim ao regime civil e instalaram uma ditadura militar. Durante os ataques aéreos e terrestres ao Palácio de La Moneda, Allende proferiu o seu último discurso, manifestando a sua determinação em permanecer no palácio presidencial e rejeitando ofertas de salvo-conduto para o exílio, e suicidou-se após um combate desigual que faz lembrar a batalha das Termópilas.

A resistência obstinada de Salvador Allende e do pequeno grupo que o acompanhou na defesa de La Moneda contra o assalto, privou Pinochet do triunfo de ver um presidente deposto fugir para um exílio dourado, tão comum na região e na época, e poderia ser resumida pela frase exposta no desfiladeiro das Termópilas, na Grécia: “Viajante, vai dizer a Esparta que os que aqui jazem tombaram em defesa das suas leis”. Durante o período que mediou entre 1973 e 1990, foram incontáveis as violações dos direitos humanos, perseguições de opositores, repressão política e terrorismo de Estado, que haveriam de vir a ser considerados crimes contra a humanidade. Segundo a “Comissão da Verdade” e a “Comissão Nacional sobre Prisão Política e Tortura”, o número total de pessoas oficialmente reconhecidas como mortas ou desaparecidas no Chile é de 3.216 e o de sobreviventes de prisão política ou tortura ascende a quase quarenta mil. Durante este período, centenas de milhares de chilenos foram obrigados a exilar-se e a sua resistência continua a inspirar o resto do mundo democrático.

quarta-feira, 24 de abril de 2024

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “MFA – Mostra de Fotografia & Autores”



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “MFA – Mostra de Fotografia & Autores”
Vários artistas
Clube Fenianos Portuenses
23 Mar > 11 Mai 2024


A comemorar 120 anos de existência, o Clube Fenianos Portuenses assinala a efeméride com um conjunto de iniciativas de âmbito cultural, entre as quais se destaca a “Mostra de Fotografia & Autores” que, até 11 de Maio, ocupa dois pisos do edifício sede do emblemático clube da Invicta. Integrando dezanove exposições de fotografia, quatro delas coletivas, e uma exposição de ‘cartoons’, produzida em parceria com a Casa da Imprensa, a mostra ocupa espaços conhecidos e menos conhecidos do Clube, surpreendendo pela sua dimensão e qualidade das propostas, a pedir meças aos melhores Festivais do país. Organizado pela CC11 – associação cultural fundada em 2020 que produz e divulga projectos ligados ao jornalismo visual –, o evento propõe um olhar transversal e eclético sobre a sociedade contemporânea e traz com ele a promessa de abalar o pensamento social, através da lente de 126 fotógrafos de várias latitudes.

Passando um olhar pelos momentos que compões a “Mostra de Fotografia & Autores”, começaria por duas exposições que têm a ver, de forma íntima, com a casa que as acolhe. A primeira é “Aurélio Paz dos Reis, Uma Vida”, onde se expõe, pela primeira vez, uma parte do espólio de família deste portuense nascido em 1862, reconhecido como “fotógrafo exímio” e que foi um dos mais notáveis sócios do Clube Fenianos Portuenses. A outra apresenta-se sob a bandeira “Colectivo” e junta António Pedrosa, Lara Jacinto e Miguel Proença na sua visão fragmentária dos Fenianos. As restantes exposições colectivas são o projeto “Casa”, que junta vinte e sete fotógrafos, “Kioskzine”, de treze autores, e “Edição Limitada - Grande Formato”, o projeto maior da exposição, que reúne o contributo de sessenta e sete fotógrafos. Rompendo com a arte dominante, Cristina Sampaio apresenta os seus melhores cartoons de 2023, alguns dos quais lhe renderam importantes prémios internacionais.

No tocante às exposições individuais, a relevância de uma parte delas faz com que sejam merecedoras de destaque aqui no blogue ao longo dos próximos dias. Uma delas é “Corpo em Dança”, do conceituado fotojornalista Paula Pimenta, vista anteriormente no Teatro Municipal de Vila do Conde e cuja recensão crítica pode ser recuperada AQUI. “Fundação Lar do Emigrante Português no Mundo”, da autoria de Nélson Miranda, mostra o olhar sobre quem está fora e leva Portugal consigo. Horacio Villalobos traz-nos as imagens do “Golpe de Estado no Chile”, em 1973, ao passo que Elisa Freitas mostra “Na hora da verdade não sabia como lê-las”, projecto documental que mergulha na história de um casal que se conheceu na época da Guerra Colonial em Portugal, a partir de um anúncio no jornal. Em “Ponto de Chegada”, André Rodrigues fala-nos da descoberta do litoral alentejano como uma espécie de soalheira Califórnia europeia para os colossos multinacionais dos frutos vermelhos. Entre as demais propostas, há também essa extraordinária exposição de Clara Azevedo, “365 Dias que Mudaram as Nossas Vidas” e que fala de um vírus que virou o Mundo do avesso. Aconselho a que não percam esta exposição e que a vejam com o tempo que ela merece.