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domingo, 1 de novembro de 2026

CONCERTO: “Finding Solace” | Ezekiel



CONCERTO: “Finding Solace”,
de Ezekiel
Convidada especial | Irene Brigitte (voz, guitarra e adufe)
Ovar Expande 2026
Escola de Artes e Ofícios
17 Out 2026 | sab | 22:30


No último dia da sétima edição do Ovar Expande, a Sala Galeria abriu as portas a uma dessas viagens que dispensam GPS, ainda que se façam de estradas e caminhos longamente percorridos. Em palco, com a sua Lap Steel Weissenborn apoiada sobre as pernas, Ezekiel veio apresentar “Finding Solace”, o seu primeiro registo discográfico, fruto de uma maturação paciente, de anos em que as canções foram crescendo ao ritmo das inquietações, em busca da forma exacta, da nota que pudesse dizer aquilo que as palavras, tantas vezes, se mostram incapazes. “Mapless Roads”, tema de abertura do concerto, desenhou diante do público um caminho sem destino anunciado, entregue à delicadeza de uma guitarra que respira, suspende o tempo e deixa as melodias avançarem como poeira levantada pelo vento. Mas sentia-se, naquela noite, algo que transcendia a própria música. Repleta de amigos, a plateia era muito muito mais do que um mero conjunto de espectadores: era um lugar de abrigo, uma pequena comunidade disposta a amparar o músico na sua ansiedade e nervosismo mais que justificados. Visivelmente feliz, Ezekiel não escondeu o significado daquele momento. A humildade com que se apresentou, a gratidão dirigida aos que o acompanharam e a vontade de oferecer o melhor de si, conferiram ao concerto uma verdade rara, dessas que não se ensaiam nem se constroem. Ali, cada canção trouxe consigo a memória de um caminho longo, finalmente desembocado no instante luminoso da partilha e da dádiva.

Há guitarras que contam histórias sem precisarem de lhes dar nome. Nas mãos de Ezekiel, a Weissenborn pareceu encontrar uma linguagem própria, feita de ressonâncias fundas, notas demoradas e silêncios onde cabe um mundo inteiro. Em “Hill Chain”, as cordas ergueram elevações imaginárias, como se a música procurasse passagem entre montanhas cobertas de neblina; “Sun Chaser” perseguiu uma claridade fugidia, ora próxima, ora distante, sempre longe do alcance da mão. E houve, em “Feather’s Weight”, essa aparente leveza que só se alcança depois de muito porfiar: a capacidade de sustentar uma melodia sem a prender, de lhe permitir flutuar sem perder o chão. A guitarra revelou-se, não um mero instrumento de acompanhamento, mas o centro de gravidade de uma paisagem sonora que oscilou entre a vastidão e a intimidade, entre a solidão dos horizontes abertos e o calor de uma voz que nos chama para casa. “Family” pareceu condensar essa procura, trazendo para o palco a dimensão afectiva que atravessou toda a actuação. Nada ali forçou o virtuosismo pelo virtuosismo, nem o efeito fácil de impressionar. Cada gesto denunciou antes a vontade de chegar um pouco mais perto da perfeição, na certeza de que a beleza exige tempo, atenção e entrega. A emoção brotou, justamente, dessa contenção, da música que não precisou de levantar a voz para se fazer ouvir, nem de correr para nos levar bem longe.

Na segunda parte do concerto, a viagem abriu-se a outras geografias. A cantautora e multi-instrumentista italiana Irene Brigitte juntou-se a Ezekiel, trazendo consigo a guitarra, a voz e o adufe, e com eles um sopro da tradição musical de Trieste, sua terra natal. A sua presença não interrompeu a intimidade construída até então; acrescentou-lhe antes uma nova cor, como se duas margens, até ali separadas, descobrissem uma passagem entre si. Em “In Riva” e “Menta”, essa aproximação pareceu ganhar corpo na delicadeza do encontro, na escuta mútua e na generosidade de quem sabe que acompanhar também é uma forma de criar. Depois, “A Gente Vai Continuar” trouxe ao concerto uma homenagem sincera e sentida a Jorge Palma, esse mestre de canções que soube guardar a vida sem lhe esconder as feridas. Por momentos, a Sala Galeria pareceu suspender-se num território onde a música deixa de pertencer a quem a compôs e passa a ser de todos os que nela reconhecem algo de si. Quando chegou “Intuitive”, já se sabia que a noite não se media pela dimensão do espectáculo, mas pela proximidade entre quem tocava e quem escutava. E “The Last Wave”, a encerrar, deixou-nos com a sensação de uma última onda a recolher-se devagar, levando consigo o ruído do mundo e devolvendo-nos ao silêncio. Ezekiel despediu-se sem precisar de grandes gestos. Restou o carinho de uma sala cheia, a felicidade de um trabalho finalmente entregue aos outros, e a certeza de que, por vezes, basta uma guitarra, algumas músicas e a coragem de nos mostrarmos como somos para que uma noite seja para sempre lembrada.

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