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domingo, 24 de março de 2019

CONCERTO: Raquel Tavares



CONCERTO: Raquel Tavares
Cine-Teatro de Estarreja
23 Mar 2019 | sab | 21:30


“ - Avó, eu vou dedicar este concerto ao avô.
- Minha filha, ele vai estar lá na fila da frente a gritar 'Ah, fadista!' ”


Não é comum que um concerto possa conter um momento de intimidade tão sincero e emotivo, tão intenso, a dor partilhada com o público, as palavras vivas dum longo desabafo a cederem lugar às lágrimas grossas da saudade por alguém que partiu. Mas foi precisamente isso que aconteceu na noite de ontem, no Cine-Teatro de Estarreja, já Raquel Tavares conduzira metade do concerto entre fados e modas, palmas a compasso, muitos aplausos e os habituais “fadista” ou “és linda”. Caladas as guitarras, eis que o coração se abre - “vocês fazem parte da minha vida, eu não existia se vocês não existissem e é convosco que eu quero desabafar”. São ternas as memórias do avô Luis partilhadas com um público suspenso da emoção na voz de Raquel Tavares, o “cheirinho de avô”, a família toda reunida ao domingo, os pequenos-almoços de sumo de melancia e pão na chapa com ovo, o pratinho de arroz, feijão e farofa depois de mais uma noite de samba no Salgueiro, a forma maravilhosa como ele cantava “Nem Às Paredes Confesso”... Um avô Luis que partiu aos 80 anos, a fadista a dar lugar à dor e a cantá-la, tornando este “concerto íntimo” quiçá no mais íntimo de todos quantos o palco do CTE recebeu até hoje.

Na sua estreia nesta sala, Raquel Tavares abriu o concerto com dois “clássicos” - “Eu Já Não Sei” e “Sombras da Madrugada” -, para se focar de seguida em dois temas mais “leves”, com assinatura de Tiago Bettencourt e António Zambujo, respectivamente “Gostar de Quem Gosta de Nós” e “Não Me Esperes de Volta”. Seguiu-se “Limão”, o primeiro grande momento do concerto, o público chamado a participar, o entusiasmo a tomar conta da sala e a ir ao rubro quando Raquel Tavares, empunhando as baquetas, “arma” um solo de bateria com tanto de intenso como de inesperado. Ainda antes do instrumental que deixou o palco por conta de André Dias na guitarra portuguesa, Bernardo Viana na viola de fado, Daniel Pinto na viola baixo e Fred Pinto Ferreira na bateria, a fadista, com a propriedade que lhe assiste para falar de fado, homenageou os fadistas antigos e interpretou “Meu Corpo”, com música de Fernando Tordo e letra de José Carlos Ary dos Santos, dedicando-o este fado a Beatriz da Conceição.

Veio então o episódio narrado dois parágrafos acima, veio um tema de Rui Veloso, “Regras da Sensatez”, e veio o abraço do público, cantando em uníssono “Amar Pelos Dois”, dos manos Sobral. Veio ainda a confissão de Raquel Tavares: “Eu precisava disto hoje!” Mas era preciso animar o ambiente, porque a vida segue, e... fomos ao baile. Popularizado por Amália Rodrigues, “Fui ao Baile” recuperou a boa disposição, dois espectadores – o senhor João e o senhor Luís - a “degladiarem-se” na plateia pelas boas graças da fadista. “Emoções”, tema maior do “Rei” Roberto Carlos, foi cantado em português do Brasil, em homenagem ao avô Luis, numa altura em que o concerto caminhava para o final. “Foi Deus” de Alberto Janes e “O Ardinita” de Linhares Barbosa precederam o momento mais aguardado da noite, “Meu Amor de Longe”, dedicado a uma jovem fã, sentada na fila da frente, de seu nome... Raquel. No encore, tempo ainda para escutar “Rapaz da Camisola Verde”, onde se misturaram toques de samba, de bossa nova e mesmo de música pop, “o mundo nos chama loucos”, Matias Damásio a entrar inadvertidamente em cena. Por último, na música do “Fado Bailado” de Alfredo Marceneiro, com versos de Amália Rodrigues, “Estranha Forma de Vida” foi o ponto final perfeito numa noite memorável. Pois que venham mais Concertos Íntimos!

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