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domingo, 24 de março de 2019

LIVRO: "Homens de Pó"



LIVRO: “Homens de Pó”,
de António Tavares
Edição | Maria do Rosário Pedreira
Ed. Publicações D. Quixote, Janeiro de 2019


“Que castigo é este?
Insistia comigo uma mulher negra com duas crianças pela mão e exibindo um aspecto muito sujo.
Que castigo é, senhor?”


Portugal, 1975. O Império cai com estrondo. De Angola, a ponte aérea “descarrega” três milhares de pessoas por dia numa Lisboa manifestamente impreparada para o êxodo africano. O próprio País está a ferro e fogo e a prenunciar uma guerra civil. É difícil levar tudo a sério, como a visita da astronauta russa Valentina Terechkova a Grândola, os constantes anúncios de roubos de armas e a fuga, em bando, de quase uma centena de pides da cadeia de Alcoentre. Nas ruas, os ardinas gritam: “A Merda! Olha A Merda! Compre A Merda!” Nas filas para trocar dinheiro, pessoas arrastam malas cheias de notas sem valor, tesouros perdidos, trabalhos de uma vida reduzidos a lixo. É neste ambiente de caos político e social que iremos acompanhar, no meio do pó levantado pelos arranjos de ligação de um troço de auto-estrada perto do Porto, o quotidiano de um africano fugido à guerra.

“Homens de Pó” surpreende-nos com um retrato vivo dum momento muito particular da nossa História recente. Narrado na primeira pessoa, o livro leva-nos nessa viagem entre dois infernos, de súbito caídos em “Estaleigrado”, lado a lado com o Bombazine, o Homem-Ciência, o Bruce Lee, o Pivô ou o FBP, vivendo um dia-a-dia feito de comissões, pró-comissões, proto-comissões e ligas várias, o discurso preenchendo tudo, o espírito sempre atento às manobras sediciosas dos divisionistas. E enquanto a auto-estrada avança, avança o País aos solavancos, o pó teimando em não assentar, golpes e contra-golpes revolucionários a marcarem um Verão particularmente quente.

Simples e extraordinariamente apelativa, a escrita de António Tavares abraça o leitor da primeira à última página. À descrição dos factos com notável rigor histórico, acrescenta o autor um toque de humor subtil, vincando as contrariedades de um país que tardava em desbravar o seu próprio caminho, dividido entre a euforia revolucionária e o peso de oito séculos de passividade. Fá-lo com a força de quem lança mão das próprias memórias e recorda uma deriva dolorosa, mas que nunca abandonou o sonho de lutar por um futuro melhor. Simultaneamente cáustico e terno, duro e quase pueril, “Homens do Pó” é um livro que nos faz navegar no curso da história e, sem julgamentos ou moralismos, nos convida a olhar o passado nos olhos e a compreender as nossas próprias contradições.

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