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sábado, 26 de outubro de 2024

EXPOSIÇÃO: “Os Frutos da Liberdade - Obra Gráfica de Vieira da Silva nos 50 anos do 25 de Abril de 1974”



EXPOSIÇÃO: “Os Frutos da Liberdade - Obra Gráfica de Vieira da Silva nos 50 anos do 25 de Abril de 1974”,
de Vieira da Silva
Biblioteca Pública Municipal de Vila Nova de Gaia
13 Set > 03 Nov 2024


Depois de ter passado pela Casa das Memórias, em Nisa, mas também pelo Centro de Artes das Caldas da Rainha e pelo Museu de Artes Decorativas de Viana do Castelo, a exposição itinerante “Os Frutos da Liberdade - Obra Gráfica de Vieira da Silva nos 50 anos do 25 de Abril de 1974” pode ser visitada por estes dias na Biblioteca Pública Municipal de Vila Nova de Gaia. Trata-se de uma mostra criada com o intuito de transmitir, através da criação plástica, os valores do Pluralismo, Diversidade e Iniciativa, característicos de uma sociedade livre e de um estado democrático. Inserida nas celebrações nacionais dos 50 anos da Democracia em Portugal, a exposição “Os Frutos da Liberdade”, pelas suas características, representa um importante contributo no sentido de promover o conhecimento de uma das maiores artistas plásticas portuguesas. Os valores da Liberdade são nesta mostra representados por quem viveu tempos onde esta não existia ou era limitada, algo impensável para as novas gerações.

A Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva tem no seu espólio uma significativa colecção de gravura e serigrafia de Maria Helena Vieira da Silva. Deste conjunto de trezentas e setenta e cinco obras foram selecionadas trinta e duas pela sua representatividade técnica - buril, ponta-seca, água-tinta, litografia e serigrafia; pela sua data de produção, que vai de 1961 a 1990, e pela temática: evocar a Liberdade, os seus valores e quem os defende - como a livre expressão e circulação. Este conjunto procura trazer ao público a personalidade discreta, assertiva e coerente da pintora Vieira da Silva, que viveu em exílio durante o período da Segunda Grande Guerra. Vieira da Silva dedica-se à aprendizagem da gravura no Atelier 17, em Paris, nos anos 30, sob a orientação de Stanley William Hayter. A artista explora as possibilidades das técnicas de impressão, sem nunca se desvincular dos interesses que pautavam o seu percurso na pintura. Ao contrário do que acontecia na tela, a gravura exigia um ritmo de trabalho distinto, pois não permitia ser “alimentada” aos poucos, como Vieira gostava de fazer na pintura regressando repetidas vezes ao mesmo quadro. Apesar disso, a pintora vai executar um significativo conjunto de litografias, serigrafias, águas-tinta e gravuras a buril que revelam uma importante faceta da sua criação.

Nestas obras descobre-se a mesma temática, as paisagens urbanas, as vistas aéreas, os ambíguos interiores de casas ou de bibliotecas, onde o espaço se desdobra criando intersecções, rompendo os limites do visível, gerando ritmos e tempos de leitura distintos. Através do uso sistemático do quadrado como módulo de composição, da grelha como estrutura amplificadora do seu efeito e da linha que progressivamente se distancia da função de mero contorno para assumir uma presença autónoma, a obra gravada de Vieira da Silva fundamenta-se, tal como na pintura, na constante tensão desencadeada pelos jogos dicotómicos entre equilíbrio / instabilidade, transparência / opacidade, preenchimento / vazio, ordem / caos, singularidade / repetição. A Amizade com os Poetas”, “Um Mundo de Gente”, “Espaços Fechados, Bibliotecas, Salas, Jogos”, “Causas e Direitos Humanos” e “Os Frutos da Liberdade” são temas de uma exposição que nos traz a poesia de Sophia e de René Char, a Marcha das Mulheres a Versalhes, o metro de Paris ou os jardins floridos como ideias de Liberdade. Uma exposição imperdível, só até 03 de Novembro.

segunda-feira, 25 de julho de 2022

LUGARES: Espaço Armanda Passos | Museu do Douro


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

LUGARES: Espaço Armanda Passos
Museu do Douro
Rua Marquês de Pombal, Peso da Régua
Horário | De Março a Outubro, das 10h00 às 18h00; de Novembro a Fevereiro, das 1h:00 às 17h30. Aberto diariamente
Ingressos | Bilhete individual 6,00 €


“Estes peixes que respiram ar, estes golfinhos sorridentes, estes lagartos sem veneno, estes dragões sem fogo nas goelas, em suma, este bestiário que não teria podido sobreviver num mundo violento e alucinado de Bosch veio encontrar no planeta de Armanda Passos uma nova idade de ouro.”
(José Saramago, 2004)

Após um largo período de encerramento por imposição de mais uma vaga da pandemia de COVID-19, o Museu do Douro reabriu as suas portas ao público em Maio do ano passado, trazendo a grande novidade de uma nova ala expositiva permanente, o Espaço Armanda Passos. Dedicado à artista plástica nascida em Peso da Régua e falecida no Porto, em Outubro de 2021, este espaço amplia o circuito de visita do Museu do Douro, dando a possibilidade ao visitante de fazer um percurso pela diversidade de obras e diferentes técnicas usadas pela artista e ficar a conhecer melhor a sua arte. Composta por oitenta e três obras que a Armanda Passos doou ao Museu da sua terra, entre desenhos a tinta-da-china, guaches, óleos, gravuras e serigrafias, a exposição tem a mulher configurada como eixo principal, culminando todo um trajecto de celebração da Mulher duriense ao longo de quase meio século de carreira artística.

Caracterizada como Neo-Figurativa, a obra da artista vive em torno de personagens que se apresentam planas, definidas por um traço bem delineado e vestidas de cores fortes que as impõem ante o nosso olhar. Povoados por figuras humanas e animais que parecem coabitar harmoniosamente, os universos abordados representam, de forma simbiótica, a dureza do quotidiano e a vontade de sonhar. Bidimensionais, os trabalhos rejeitam qualquer noção de escala ou proporção e as cores, sejam elas em mancha ou nos padrões, são aplicadas de forma rigorosa, trazendo uma espécie de organização conjunta às obras. O uso do dourado é comum em todas elas, seja em pequenos detalhes ou em elementos de destaque – há um viajar até civilizações antigas, até às obras de Gustav Klimt, mas também uma certa ideia de um futuro imagético.

Aparentemente simples, as obras pedem que nelas repousemos demoradamente o olhar, deixando-nos pacificar ou inquietar com as narrativas que cada uma tem o poder de suscitar. As várias figuras fazem-nos pensar em tempos longínquos, como que mitológicos, ao mesmo tempo que parecem anunciar um futuro. A ausência de títulos nas obras concorre para que nos deixemos levar por um mundo de possibilidades, sem nunca nos forçar uma narrativa ou detalhes específicos do que estamos a ver. O mundo de cada desenho apresentado é um só, embora haja um fio condutor a relacioná-lo com o da obra anterior e com o da seguinte. É como se as personagens se repetissem, ainda que valendo por si só, abrindo espaço à construção de uma história global. Visitar o Espaço Armanda Passos é penetrar num mundo de inquietação e fascínio, que em sobressalto percorremos e em cujo âmago nos apaziguamos. Uma visita indispensável.