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domingo, 2 de outubro de 2022

LIVRO: "Homens Livro"



LIVRO: “Homens Livro”,
de Bento Ramires, Carlos Marta e Rui Guedes
Coordenação | Patrícia Carreiro
Ed. Letras Lavadas Edições, Agosto de 2022


“Sei que gostas desta tua Biblioteca Itinerante, pois de outro modo não receberias das mãos do teu amigo mais velho, que sou eu, esta carta que contém um pedido que, estou certo, não deixarás de satisfazer. Queres saber o que te peço? Que mesmo na meia folha que sobra desta carta ou em qualquer outro pedaço de papel, me escrevas como a um teu amigo a quem falasses da biblioteca, dos livros que tens lido, daqueles de que mais tens gostado, do que tens aprendido com eles e de tudo o mais. E, se tiveres algumas perguntas a fazer, agradeço-te muito que faças, pois a todas elas eu procurarei responder da melhor maneira que me for possível.”

Escolhi este pequeno excerto a título de lançamento da recensão literária a “Homens Livro”, como poderia ter escolhido tantos outros, de tal forma eles se encontram carregados de afecto, dedicação, generosidade e altruísmo. É tocante a forma como o livro se abre às mais doces memórias, aquelas que conectam os conhecimentos e saberes adquiridos ao longo da vida com o breve contacto semanal ou mensal com o bibliotecário do serviço itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian. É desses momentos privilegiados da carrinha mágica como um prolongamento do largo da aldeia, das amizades feitas e consolidadas à roda dos livros, das brincadeiras e dos risos das crianças, que “Homens Livro” nos fala, quer através de magníficas fotografias e documentos provenientes, na sua maioria, das colecções particulares de António Carmelo, Bento Ramires e Carlos Marta, quer por intermédio de um conjunto de textos que incluem um conto muito belo de Rui Guedes, três entrevistas com ex-bibliotecários itinerantes e um verdadeiro documento, fruto da iniciativa de António Carmelo nos idos de 1964, que nos oferece uma panorâmica sobre a actividade destes equipamentos e seu impacto junto dos leitores.

“Apelo à memória individual e colectiva de um período marcante da última metade do século anterior”, este livro de Bento Ramires, Carlos Marta e Rui Guedes, com coordenação de Patrícia Carreiro, é uma extraordinária forma de celebrar o sexagésimo quinto aniversário da entrada em funcionamento das Bibliotecas Itinerantes Gulbenkian. Ligada à base estatutária da própria Fundação, empenhada em combater o analfabetismo e promover o saber e a educação, a criação deste serviço revelou-se um sucesso, suscitando uma entusiástica adesão por parte das populações. Em cerca de quarenta anos de actividade, os números falam por si: Foram adquiridos quase nove milhões de livros e outros documentos em diversos suportes, o numero de atendimentos aos leitores quedou-se próximo dos cinquenta e sete milhões e o número de obras requisitadas superou os cento e setenta e um milhões. De sublinhar, como refere Isabel Mota, Presidente do Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian, na introdução que faz a esta obra, “o papel indutor da leitura desempenhado pelos seus encarregados, em contacto permanente e directo com as populações, e a quem coube desde sempre a especial responsabilidade de uma ligação activa e fecunda entre o universo dos leitores e o dos livros. A eles se deve uma acção de valor incalculável no desenvolvimento do gosto pela leitura em Portugal.”

Ao ler “Homens Livro”, não posso deixar de recordar a minha própria experiência, menino ainda, quando acompanhava as minhas tias, nos anos da sua juventude, à carrinha da Gulbenkian para devolver os livros requisitados e escolher um conjunto de novos livros. Desses momentos na pequena aldeia de Cacia, sob os fumos acres da Fábrica de Celulose, guardo as memórias dos irmãos Eduardo Alexandre Seixas e Joaquim Seixas no papel de bibliotecários atenciosos e disponíveis, das filas de rapazes e de raparigas que se formavam à porta da carrinha, do mundo mágico que era aquele interior de prateleiras forradas de livros mas, sobretudo, da emoção com que, no regresso a casa, se anteviam as maiores aventuras e os mais venturosos romances de amor nos novos livros requisitados. Reviver este pequeno pedaço da minha história de menino através do magnífico conjunto de imagens que percorrem o livro de lés a lés e poder juntar-lhes os testemunhos de António Ferreira, Raimundo Figueira e Rosélio Reis é um verdadeiro privilégio. Das jovens cujos namorados as proibiam de requisitar livros, aos livros que tinham um lugar “reservado” na estante antes do 25 de Abril, dos padres que desaconselhavam a frequência daquele serviço às peripécias técnicas com as icónicas Citroën, “Homens Livro” carrega todo um manancial de histórias e memórias que nos dão a ver o país que fomos e somos. Um livro maior, repositório de páginas brilhantes da promoção do saber num país inculto, que importa reter.

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

EXPOSIÇÃO: "Bibliotecas Itinerantes - Lugares de Futuro"


[Clicar na imagem para ver mais fotos]

EXPOSIÇÃO: “Bibliotecas Itinerantes - Lugares de Futuro”
Curadoria | Rui Guedes, Carlos Marta, Bento Ramires
Festival Literário de Ovar 2021
Museu Escolar Oliveira Lopes, Válega
Inauguração 08 Set 2021


Depois da Sertã, onde esteve patente no âmbito da Maratona de Leitura daquele município, a exposição temática “Bibliotecas Itinerantes - Lugares de Futuro” fez-se à estrada, acabando por “estacionar” na Galeria de Exposições Temporárias do Museu Escolar Oliveira Lopes, em Válega. Com curadoria de Rui Guedes, Carlos Marta e Bento Ramires, a mostra tem para oferecer ao visitante duas dezenas de painéis que, congregando um breve mas significativo olhar sobre a quase totalidade das oitenta e uma bibliotecas itinerantes existentes actualmente no nosso País, mostram que há aqui um trabalho junto das populações que vai muito além da simples entrega e recolha de livros. As crianças em ordeira fila no interior da carrinha da Biblioteca de Vale de Cambra, a Tasca dos Livros que anuncia para a Ilha Terceira “livros fresquinhos, revistas saborosas, jornais intensos e outras novidades” ou a garrida Biblioteca sobre Rodas, um lustroso Renault 4 da Câmara Municipal de Vizela, são algumas das imagens que podem ser apreciadas e que carregam consigo esse cheirinho nostálgico das nossas próprias incursões junto das saudosas Citroën HY, obrigando-nos a recuar aos tempos do extinto Serviço de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian.

Perante uma reduzida plateia, os três curadores desta exposição tiveram a primazia de inaugurar as mesas da sétima edição do Festival Literário de Ovar, em conversa moderada por Carlos Nuno Granja. Partilhando as suas memórias e reflectindo sobre o presente e o futuro destes equipamentos, os convidados falaram da biblioteca itinerante como “um prolongamento do largo da aldeia”, das amizades que se fazem e consolidam à volta dos livros, das brincadeiras e dos risos das crianças fruto daquilo a que chamaram “a magia da carrinha”. O tacto necessário para dar a ler às crianças aquilo que elas realmente querem é algo que se aprende: “Se uma turma de miúdos gosta de bolas de berlim, não vamos pôr-lhes pastéis de nata lá no meio. Levamos-lhes bolas de berlim. Perceber isto dá muito trabalho mas dá também um enorme gozo”, disse Rui Guedes. A desertificação do interior e a forma como uma biblioteca itinerante pode quebrar o isolamento ficou bem vincada nas palavras de Bento Ramires: “Visitamos lares, berçários, chegamos a ir a casa dos leitores… Estamos hoje mais vezes com as pessoas do que os seus próprios familiares.”

Mas será que há futuro para as Bibliotecas Itinerantes? “Um imenso futuro”, afirmam de forma unânime. “Os territórios vão ficando mais pequenos, mas é maior a proximidade, a presença, a troca de informação com a sede do Concelho. E, depois, é cada vez mais fácil dotar uma carrinha de bons livros, de mecanismos de controlo informatizado, de programas de gestão de catálogos”, refere Carlos Marta. Esta visão é corroborada por Rui Guedes, fazendo notar que, “numa altura de pandemia em que o ‘take away’ se encontra tão solidamente implantado, nós levamos a leitura ao domicílio, algo que faz parte do ‘código genético’ de qualquer biblioteca itinerante”. Com a conversa a caminhar para o final, Guedes lembrou ainda que “não somos a carrinha do ‘Family Frost’, não precisamos de nos anunciar. Basta sabermos chegar ao local, abrirmos a porta, baixarmos o degrau da carrinha e sentarmo-nos a ler um livro. Toda a gente sabe imediatamente o que está ali”. A festa vem por acréscimo, digo eu, fazendo fé nas palavras dos três e no pequeno recital de canto e poesia que tinham preparado para o final.

O melhor, porém, estava ainda para vir. Foi quando Carlos Marta puxou dos seus apontamentos e, numa voz pausada, nos leu um texto que escreveu e intitulou “A Carrinha Número 18”, que o verdadeiro mundo das Bibliotecas Itinerantes se abriu por inteiro ante o nosso olhar e os nossos corações. Foi aí que assistimos ao seu nascimento “nos locais mais recônditos de um país forçado a ser inculto por um regime opressor” e que hoje, em democracia, continua “promovendo a leitura e combatendo medos”. As marcas dos leitores, as suas alegrias e tristezas, os seus medos e sonhos, podemos encontrá-las em cada recanto desta biblioteca sobre rodas. É lá que descobrimos a leitora assídua de tantos anos que, de repente, devolveu os livros porque “tinha casado e o marido proibiu-a de ler”. Também a idosa que “trazia os livros na taleiga do pão para que as vizinhas não lhe chamassem doida por vir à biblioteca”. Ou o cavador que, de enxada aos ombros, pediu para ler Platão, explicando num sorriso que “um dia o filho tinha esquecido um texto do filósofo em cima da mesa. Leu-o, gostou e queria conhecer mais sobre a sua obra”. E ainda o leitor com mais de noventa anos e tanto saber acumulado que dizia que se morresse, os livros não iriam desaparecer. Carlos Marta conclui: “E assim foi. Um dia alguém trouxe os livros dizendo que o Senhor Moura tinha falecido. Enganou-se. Ele viaja na Carrinha Número 18!”.