O Auditório de Espinho recebeu, na noite do passado sábado, o Immanuel Wilkins Quartet, formação que reúne quatro músicos de extraordinários recursos técnicos e invulgar sensibilidade artística. Liderado pelo saxofonista norte-americano Immanuel Wilkins, com Micah Thomas, no piano, Ryoma Takenaga, no contrabaixo, e Kweku Sumbry, na bateria, o quarteto proporcionou uma demonstração de maturidade musical e entendimento colectivo, assente numa cumplicidade que se revelou determinante ao longo de todo o concerto. A excelência instrumental de cada um rejeitou sempre a ideia de quaisquer protagonismos concorrentes, resultando numa sofisticada permuta de ideias, sonoridades, tonalidades e ritmos, em que cada intervenção foi capaz de acrescentar novas camadas de riqueza ao discurso musical. Neste equilíbrio, Wilkins revelou uma faceta particularmente meritória da sua personalidade artística: a de um líder que, apesar da sua inegável mestria interpretativa, sabe colocar-se na sombra, literalmente, abrindo espaço aos companheiros, preparando as suas entradas e criando as condições para que cada um possa emergir no momento certo. E essas entradas foram, invariavelmente, triunfais.
A primeira metade do serão foi preenchida por “Waiting”, extensa suite concebida em 2020 para uma colaboração com a companhia Sidra Bell Dance New York, da coreógrafa Sidra Bell. Mais do que uma composição de grande fôlego, a obra constituiu um exercício de exploração das possibilidades expressivas do quarteto, deixando transparecer a influência de uma abordagem interdisciplinar à criação musical. A experiência da dança, com a sua lógica própria de movimento, tensão e construção narrativa, fez com que o horizonte composicional de Immanuel Wilkins se expandisse, oferecendo-lhe outras formas de pensar e organizar o som. O resultado foi uma viagem musical de assinalável amplitude, em que o jazz funcionou como território agregador de diferentes linguagens, cruzando pulsações rítmicas, ambientes, texturas e motivos melódicos numa sucessão de cambiantes que reforçou a unidade do conjunto. A aparente liberdade das interpretações escondia uma notável arquitectura colectiva, sustentada pela escuta permanente e pela capacidade de os quatro músicos se anteciparem, desafiarem e complementarem. Uma demonstração eloquente da versatilidade de uma formação que encontra na experimentação não um fim em si mesmo, mas uma forma de aprofundar o diálogo musical.
Depois do carácter mais expansivo e exigente de “Waiting”, a segunda parte do concerto trouxe uma sucessão de temas respigados de momentos recentes do percurso discográfico do quarteto, num registo tendencialmente mais melódico, sem que isso significasse qualquer cedência ao nível da exigência instrumental ou da complexidade interpretativa. Pelo contrário, foi precisamente nessa maior abertura melódica que os músicos encontraram novas oportunidades para explorar as respectivas capacidades, oferecendo ao público solos de uma riqueza, inventividade e beleza avassaladoras. Micah Thomas revelou a amplitude do seu vocabulário pianístico, Takenaga confirmou a solidez e a expressividade do seu trabalho no contrabaixo, enquanto Sumbry voltou a demonstrar uma notável inteligência rítmica, sabendo quando impulsionar o discurso e quando lhe conferir espaço para respirar. Wilkins, por seu turno, alternou entre momentos de fulgurante intensidade e intervenções de subtil contenção, reafirmando a singularidade de um saxofonista que compreende a liderança como um exercício de partilha. No final, ficou a impressão de termos assistido não apenas a um concerto de quatro músicos excepcionais, mas a um verdadeiro organismo colectivo, capaz de transformar a excelência individual numa experiência colectiva de rara consistência artística.
Sem comentários:
Enviar um comentário