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sábado, 18 de julho de 2020

LIVRO: "O Torcicologologista, Excelência"



LIVRO: “O Torcicologologista, Excelência”,
de Gonçalo M. Tavares
Ed. Editorial Caminho, Setembro de 2015


“ – As costas devem fixar o inimigo, o mais perigoso dos inimigos. E depois devemos correr muito, o mais possível. Em frente.

– Bravo! Parece-me bem... A questão é como é que as costas fixam o inimigo. Num duelo, o habitual é olhos fixarem olhos. E assim sucessivamente: pés, pés, barriga, barriga. As costas fixarem os olhos do inimigo já me parece da ordem do espiritual...
– Aí está. Nada de espiritual, pelo contrário. No limite, o herói leva um espelho, como um automóvel. E consegue, assim, esse acto mágico de olhar para a frente e ver o que está atrás.”

Porventura sabia que as costas são o que de mais admirável há no verdadeiro herói do século XXI? Ou que aquilo a que muitos chamam cobardia talvez seja apenas falta de orientação no espaço? Ou ainda que a cozinha do Mal cheira maravilhosamente? Estas e tantas outras verdades, não propriamente evidentes à primeira vista, são os assuntos de reflexão de “O Torcicologologista, Excelência”, um objecto que devo classificar, no mínimo, de desconcertante. Dividido em dois capítulos – “Diálogos” e “Cidade” – que, mais do que o complemento um do outro, são a sua razão e suporte, o livro assenta no diálogo verborreico e delirante entre dois cavalheiros que mutuamente se tratam por “excelência” e que, ruminando sobre o que de mais simples pode haver à sua volta, conseguem a proeza de elevar o banal à categoria de “case study”. Por seu lado, “Cidade”, pequeno capítulo que resume a acção, vem mostrar-nos que “excelências” somos todos nós.

Ancorado no absurdo e no “non sense”, “O Torcicologologista, Excelência” relata uma sequência de eventos e comportamentos incoerentes e sem sentido, que violam de forma deliberada o raciocínio causal. É um livro onde o humor se faz presença constante, sobretudo pela forma como os diálogos subvertem as expectativas do leitor e a imprevisibilidade toma conta da acção. Apesar de ridículas e improváveis, porém, as ideias subjacentes à narrativa obedecem a uma lógica que tende a aproximar-nos daquilo que verdadeiramente somos, aliviando amarras algures entre o ego e o super-ego e dando ao leitor a possibilidade de tomar consciência da sua inconsciência. É, pois, um livro revelador a vários títulos, de uma grande ousadia e assente numa imaginação prodigiosa.

Tendo a ver não tanto com o livro mas especificamente com o seu título, guardo uma história curiosa que não resisto em partilhar. Lembro-me de ter ouvido a “biblioterapeuta” Sandra Barão Nobre falar dele pela primeira vez há um bom par de anos e, desde esse momento, fiquei com vontade de ler o “torcicologista”. Quando a oportunidade surgiu, comprei o “torcicologista” e, chegado o momento certo, comecei a ler o “torcicologista”. Caminhava a leitura para o final quando dou conta da dificuldade da minha mulher em pronunciar o título do livro. Fiquei curioso e, com olhos de ver, acabei por descobrir que não era – nunca fora – “torcicologista” a palavra gravada na capa, antes “torcicologologista”. Isto levou-me a perceber o dislético visual que há em mim e a interrogar-me sobre o porquê deste título. “Excelências” à parte, há uma clara intencionalidade na opção de Gonçalo M. Tavares por sujeito tão pouco claro. Mas isso terá de ser o leitor a descobrir.

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