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sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

LIVRO: "As Falsas Memórias de Manoel Luz"



LIVRO: “As Falsas Memórias de Manoel Luz”,
de Marlene Ferraz
Ed. Minotauro, Outubro de 2017


Num camisolão alvacento ajustado na gola, o homem dividido acalcanhou o chão da sala ampliada e estirou o pesado corpo no cadeirão estofado. Acertou os óculos abreviados, o gesto muito aprumado no erguido livro e levou a vista às letras em alinhado correr. “Ainda o homem ingénuo se enraivece por desejar altas asas”. Pausa. Ajustou o pensamento aos ajuntamentos de vocábulos, mas a composição parecia-lhe empolada de emaranhamentos. De franzida testa, a inclinação das linhas orbitais a denunciar exercícios de raciocínio e inferências prováveis ainda por autenticar, levantou-se e começou a andar em reduzidos círculos. Sem apurada razão, cogitou que a prosa da mulher escrevente cairia num lugar do corpo falto de recebedores de luz e melhor faria em devolver presto o livro ao olvido. Ganharia tempo essencial e vital pacacidade. Ao revesso, a máquina cardial almejava leitura perseverante e firme. Tencionou o sossego por mentor. Amanhã consideraria melhor o que fazer. Rabiado, subiu a empinada escada para o quarto acanhado. Da rua, o som abafado de adivinhados cães dava-lhe as boas-noites.

Nesta peculiar abordagem a “As Falsas Memórias de Manoel Luz” – e estou certo que Marlene Ferraz me perdoará o atrevimento de tentar brincar com as palavras “ao seu jeito” -, há um duplo propósito. Desde logo, transmitir a ideia da dificuldade que tive em adaptar-me a uma narrativa exigente, pródiga na adjectivação, recheada de vocábulos em desuso, as pontas soltas da história distribuídas pela metade e a conta-gotas. Mas também, e não menos importante, procurar perceber que tipo de desafio se coloca a um autor que se ergue ao arrepio dos cânones e, ao longo de trezentas e cinquenta páginas, consegue a proeza de não se desviar um milímetro dos princípios norteadores da sua escrita. É obra. Daí que Marlene Ferraz mereça a minha maior admiração pela forma notável como conduz este seu romance, começando por se insinuar de mansinho nos gostos do leitor, até acabar por agarrá-lo com força pela via da razão e do coração.

Não vou adiantar muito sobre o livro, para não quebrar a emoção da descoberta, mas sempre poderei dizer que, ao falarmos deste Manoel Luz, falamos dos erros que cometemos, dos julgamentos que fazemos, de como nos envolvemos e das revelações que nos estão destinadas, como verdadeiras partidas do destino. Ao seu lado, caminhamos por entre os nossos fantasmas, cruzando-nos com pintores e poetas, santos e loucos, homens práticos ou sonhadores. Fernando Pessoa, “o homem multiplicado”,  também por aqui vagueia. Exímia na gestão dos tempos e na forma como marca o ritmo da acção, a autora convida-nos a refazer as histórias da História – do estertor do Estado Novo às auroras da liberdade e por aí adiante –, ao mesmo tempo seguindo nos passos de Manoel Luz, as marcas de uma educação “a duas mãos” a tolher-lhe os passos e a carregá-lo de incertezas. Ao leitor pede-se que acredite no livro, que invista nele e não desista. Este é um livro do tipo “primeiro estranha-se e depois entranha-se”, podendo garantir que não será necessário esperar muito tempo até perceber que tem em mãos uma jóia rara.

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