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domingo, 17 de novembro de 2019

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Grays the Mountain Sends"


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Grays the Mountain Sends”,
de Bryan Schutmaat
Encontros da Imagem de Braga 2019
Museu da Imagem
14 Set > 27 Out 2019


É um belo dia de sol. Há flores que brotam nos jardins e crianças sorridentes a caminho da escola: em suma, um dia normal num mundo perfeito. Mas a tranquilidade inviolável deste mundo está prestes a ser abalada. Uma mangueira torcida vê o seu fluxo de água interrompido, ao mesmo tempo que um velho, regando o jardim, sofre um colapso cardíaco. Penetrando através do verdejante relvado, a câmera leva-nos ao encontro de um novo e feio mundo, povoado de criaturas monstruosas. Na verdade, o interior de um formigueiro. As passagens acima descrevem as imagens de abertura de “Veludo Azul”, filme no qual o cineasta David Lynch – conhecido pelo seu olhar crítico sobre o “american way of life” – sugere metaforicamente o quanto de sujidade se acumula sob um tapete aparentemente limpo. No caso, o tapete é justamente a sociedade norte-americana.

Ao apreciar o extraordinário conjunto de imagens belíssimas que Bryam Schutmaat trouxe à 29ª edição dos Encontros da Imagem, não consegui deixar de pensar em “Blue Velvet” e no quanto a tranquilidade dos rostos e das paisagens deste “Grays the Mountain Sends” pode ocultar. Combinando retratos, paisagens e natureza morta numa série de fotos que exploram a vida de pessoas que trabalham em pequenas cidades de montanha e de comunidades de exploração de minas no Mid West americano, este corpo de trabalho revela-nos o olhar meditativo do fotógrafo sobre a vida da pequena cidade, da paisagem sobre a qual se ergue e, mais importante, das paisagens interiores dos homens comuns.

Equipado com uma câmera de grande formato e inspirado na poesia de Richard Hugo, Brian Schutmaat explora uma multitude de narrativas possíveis nestes verdadeiros microcosmos sociais, procurando transmitir as experiências de estranhos, reunidos em cenários, que servem de estímulo, primordialmente, às suas próprias emoções. Mais do que um conjunto de imagens, o que perpassa para o espectador é muito mais um poema. Há uma batida e um ritmo no trabalho de Schutmaat que nos embala nos acordes da musica country enquanto passamos o olhar pelas suas fotografias. Mas desenganemo-nos: Nestas comunidades paradas no tempo, há projectos e sonhos abafados que destilam raiva e frustração sob o aparentemente calmo manto do quotidiano. Até quando?

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