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domingo, 11 de agosto de 2019

CONCERTO: "Pour Le Tombeau de Claude Debussy"



CONCERTO: “Pour Le Tombeau de Claude Debussy”,
de Judith Jáuregui
Porto Pianofest 2019
Palácio da Bolsa – Salão Árabe
09 Ago 2019 | sex | 21:00


O Salão Árabe do Palácio da Bolsa foi o palco escolhido para o encerramento da quarta edição do Porto Pianofest, certame que, ao longo de nove dias, espalhou a grande música pela cidade, com uma série de concertos, recitais, conferências e masterclasses em vários locais históricos e criteriosamente seleccionados. Numa das mais emblemáticas salas da Invicta, coube à pianista espanhola Judith Jáuregui encerrar tão vasto e ambicioso programa, oferecendo ao público que esgotou completamente o espaço um recital intitulado “Pour Le Tombeau de Claude Debussy”, homenageando o compositor francês com obras suas e de artistas com ele relacionados.

Peça de abertura do concerto, “Pour Le Tombeau de Claude Debussy” foi escrita originalmente para guitarra por Manuel de Falla e revelou-se uma escolha feliz da pianista, evocando uma calma e luminosa “siesta” em Granada, com recurso a fragmentos de “La Soirée dans Grenade” e “La Puerta del Vino” a vincar a forte ligação entre os dois compositores. Seguiu-se “Balada nº 2 em Si menor”, de Franz Liszt, uma das suas mais conhecidas e interpretadas obras, trazendo para um nível superior o virtuosismo de Judith Jáuregui, irrepreensível no domínio dos vários planos da peça e na forma como soube evidenciar o dramatismo de muitas das suas passagens. Antes ainda de um breve intervalo, a música do próprio Debussy fez-se ouvir no Salão, primeiro com “Estampes” e os seus três movimentos - “Pagodes”, “La Soirée dans Grenade” e “Jardins sous la Pluie” - a proporem uma viagem entre o extremo oriente, a muito árabe cidade de Granada e a chuvosa Orbec, na Normandia, e depois com “L'Isle Joyeuse”, peça inspirada numa pintura de Watteau e que sugere, também ela, uma viagem através duma paisagem carregada de nostalgia, com tanto de real como de imaginário.

Intensa e muito bela, a peça “Valses Nobles et Sentimentales”, de Maurice Ravel, abriu de forma radiosa a segunda parte do concerto, oferecendo um “blend” eclético de música impressionista e modernista que deixou o público completamente rendido. “Andante Spianato et Grande Polonaise Brillante op. 22”, uma das mais luminosas e chamativas obras do início de carreira de Fréderic Chopin, foi como que “a cereja no topo do bolo”, um momento inesquecível, sensível e delicado. Já no “encore”, Judith Jáuregui ofereceu mais um belo trecho musical, “Jeunes Filles aux Jardins”, de Federico Mompou, encerrando uma noite de sonho. De um concerto desta natureza sai-se “de alma cheia”. Mais do que um recital de grande nível, este foi um momento muito pessoal de reconciliação com o piano, numa altura em que só o desempenho técnico parece contar. Judith Jáuregui mostrou que a música é sobretudo um apelo aos sentidos e que o virtuosismo pode igualmente ser medido numa escala de emoções. Memorável!

[Foto: facebook.com/portopianofest/]

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