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terça-feira, 11 de junho de 2019

VISITA GUIADA: WOOL - Festival de Arte Urbana da Covilhã


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CERTAME: WOOL – Festival de Arte Urbana da Covilhã
Covilhã, vários locais
01 > 10 Jun 2019


Exemplo peculiar de uma “cidade de montanha”, rara no urbanismo português, a Covilhã é hoje um núcleo dos mais pulsantes de toda a região da Serra da Estrela. Historicamente, a cidade nunca deixou de apontar caminhos ao mundo. Foi berço de descobridores e exploradores, beneficiou da presença duma comunidade judaica forte no seu seio e, sob a acção do Marquês de Pombal, tornou-se no maior centro de produção de lanifícios de todo o país. Este ascendente manteve-se ao longo de mais de dois séculos, mas a crise dos têxteis, nos anos 90, ditou a falência de muitas fábricas e a deslocalização de muitas outras, daí resultando uma onda de desemprego que atingiu mais de oito milhares de trabalhadores, sobretudo mulheres. Perante este autêntico flagelo, a Covilhã foi obrigada a redesenhar-se, a ir em busca de novos caminhos, a reinventar-se. A Universidade da Beira Interior – que acolhe actualmente sete mil estudantes do mundo inteiro, distribuídos por cinco Faculdades – foi fundamental para uma certa dimensão cosmopolita que a cidade hoje detém. Mas depois há todo um conjunto de iniciativas – da reabilitação urbanística ao alojamento local, da oferta gastronómica aos eventos culturais -, muitas delas da esfera privada, que se têm revelado determinantes para que esta chama revivificante não esmoreça.

O WOOL – Festival de Arte Urbana da Covilhã é uma destas iniciativas. Fruto do dinamismo e desassombro dos irmãos Lara e Pedro Seixo Rodrigues e da espanhola Elisabet Carceller, o certame conheceu a sua primeira edição em Novembro de 2011 e, com uma ou outra vicissitude pelo meio, chega aos nossos dias pleno de vitalidade, continuando a somar ideias, a congregar interesses e a cativar novos adeptos para o fascinante mundo da Arte Urbana. Contando com os apoios do Município da Covilhã e da Águas da Covilhã, como principais financiadores do projecto, aos quais se somam um conjunto enorme de parceiros, a edição deste ano voltou a convidar quatro criadores - dois nacionais e dois estrangeiros - para enriquecerem o espólio de Arte Urbana que a cidade já possui. No intuito de dar a conhecer melhor todo este vasto espólio e, em particular, as novas peças, a Organização promoveu um conjunto de Visitas Guiadas, no decurso das quais foi possível perceber que, mais do que um Festival, o WOOL é um projecto artístico que tem mudado a face da cidade, trazendo um novo encanto ao seu centro histórico e, ao mesmo tempo, espalhando mensagens plenas de significado e às quais ninguém fica indiferente.

Ciceroneada por Lara Seixo Rodrigues, a visita começou por uma das quatro peças de grande formato que marcaram o arranque do WOOL, em 2011, num trabalho com assinatura da ARM Collective, de Miguel Caeiro e Gonçalo Ribeiro que joga nas dinâmicas criadas entre a bela fachada azulejada da Igreja de Santa Maria e um conjunto de murais que nos falam da agonia da indústria dos lanifícios e da deslocalização de muitas fábricas para o sudoeste asiático. Seguiu-se “Olhos de Coruja”, do hoje mundialmente famoso Bordalo II, mas que dava em 2014 os primeiros passos, alcançando com este trabalho – que foi considerado nesse ano um dos 25 melhores murais a nível mundial – uma enorme projecção. Regressando a 2011, foi possível apreciar, no Largo da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, o trabalho da espanhola BTOY que retrata um pastor da Serra da Estrela, enquanto no outro lado do largo, a fachada de um edifício oferece a visão do artista Mr. Dheo sobre a crise que tomou conta do país e atingiu o auge em 2014, ao representar uma jovem remendando a bandeira nacional.

O percurso prosseguiu com a apreciação do gigantesco mural criado pelo artista espanhol KRAM, em 2012, e que nos fala duma lenda sobre um terrível monstro, com os olhos na ponta do nariz, que aterrorizava as populações mal caía a noite. De seguida, tempo para ver “Covilhã Cidade Neve”, um belíssimo trabalho de “lettering” dos HalfStudio, de 2017, inspirado no fado com o mesmo nome de Amália Rodrigues e, a dois passos deste, o mural do espanhol Pastel, criado no ano passado e baseado na flora local. A caminho de outro espectacular mural, desta feita da autoria do português Frederico Draw, também do ano passado, e que representa o engenheiro, escritor, crítico, ensaísta e artista plástico Ernesto Manuel Geraldes de Melo e Castro, nascido na Covilhã em 1932, tempo para apreciar dois trabalhos de pequeno formato, um do holandês Pfff (2012) e outro do português Adres – considerado por muitos como o Banksy português – de 2011 e onde se pode ler “quando for grande quero ser feliz”. Felicidade foi o que todos sentiram ao ver “Arrebatamento”, um trabalho do argentino Bosoletti (2017) com um cunho marcadamente realista e evocativo da mulher trabalhadora, que se une às outras mulheres e juntas travam uma luta desigual contra aqueles que as exploram e oprimem.

No regresso à Igreja de Santa Maria, deu-se início à segunda metade da visita com a apreciação de uma peça bordada, executada em 2018, através da qual a portuguesa Aheneah quis homenagear a sua avó. Já na Rua das Portas do Sol, tempo para ver a homenagem de Samina a um dos símbolos vivos da cidade, o Sr. Viseu, operário desde criança na indústria dos lanifícios e emblemático jogador de futebol no Sporting da Covilhã. “Orfão Selvagem”, obra de 2014 da autoria de Tamara Alves e que mostra uma mulher a bordar o seu próprio vestido em rendas de bilros e “Fio Condutor”, do português Regg Salgado (2017), representando umas mãos a coser uma peça de tecido, ocupam estrategicamente o espaço junto ao miradouro das Portas do Sul e impressionam pela sua dimensão e beleza. Baixando através duma vereda íngreme e muito estreita, chega-se à Rua de S. Tiago, onde um coração tridimensional feito de maquinaria de tecelagem, da autoria do português Third (2017), convive com o mural Lata 65, um projecto que traz para a rua e para o universo da Arte Urbana criadores com 65 anos de idade ou mais.

A parte final da visita é dedicada às novas peças, mas pelo meio há ainda tempo para apreciar o notável mural do açoriano Pantónio, inspirado no voo dos andorinhões. Assim, a portuguesa Kruella d'Enfer dá-nos a sua visão da Covilhã a partir da janela manuelina que orna o espaço nas traseiras do edifício da Câmara Municipal, recorrendo aos elementos vegetalistas que lhe são característicos e não esquecendo as estrelas, que aqui têm um brilho certamente muito diferente daquele que têm em Lisboa. O espanhol Sebas Velasco traz-nos um pouco da noite da Covilhã, tanto no rosto duma jovem como nas luzes dum candeeiro que incidem sobre um automóvel antigo. Finalmente, na escadaria que envolve a Fonte das Três Bicas, o português Mário Belém fala-nos da água e da sua importância na perpetuação dos ciclos vitais, através de quatro intervenções de enorme beleza, como se de um conto ilustrado para crianças se tratasse.

Com tanto de intensa como de enriquecedora, a visita foi fantástica e permitiu ver a cidade com outros olhos. Peças houve que ficaram por ver e que acabaram por se constituir num motivo acrescido para ir mais além neste intento de descoberta da cidade. Foi desta forma que, por “conta própria”, visitei no edifício dos Bombeiros Voluntários da Covilhã o trabalho de Roc Blackblock (2018) de homenagem aos soldados da paz, apreciei as obras do belga Gijs Vanhee e do português +MaisMenos+, vi os pequenos-formato de Mário Belém e BTOY, deliciei-me com “Oddments”, trabalho de Add Fuel (2014) inspirado nos típicos padrões utilizados na produção dos tecidos locais e, por fim, observei “O Observador”, trabalho do brasileiro Douglas Pereira feito para a edição deste ano e que “olha” para a natureza do ponto de vista de quem a ama e preserva. Esta descrição não ficaria completa sem a “extensão” do WOOL à cidade vizinha do Fundão, onde tive oportunidade de apreciar belíssimos trabalhos de Pantónio, Milu Correch, Nespoon e Bordallo II. Um luxo!

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