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domingo, 2 de junho de 2019

TEATRO: "Don Juan Esfaqueado na Avenida da Liberdade"



TEATRO: “Don Juan Esfaqueado na Avenida da Liberdade”
Texto e direcção artística | Pedro Gil
Cenografia e adereços | Pedro Silva
Figurinos | Catarina Graça
Interpretação | Filipa Matta, Miguel Loureiro, Pedro Gil, Raquel Castro, Rita Calçada Bastos, Tónan Quito
Direcção de produção | Raquel Castro
Co-produção | Barba Azul, São Luiz Teatro Municipal, Teatro Municipal do Porto, Centro Cultural Vila Flor
135 minutos (com intervalo) | Maiores de 16 anos
FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica
Teatro do Campo Alegre
24 Mai 2019 | sex | 19:00


Do cinema à pintura, da música ao teatro, são inúmeras as criações artísticas que beberam a inspiração no mito de Don Juan. Exemplo maior do imaginário comum, a lenda fala-nos de um intrépido sedutor que assassina um Comendador após conquistar o coração da sua jovem filha. Quando, algum tempo mais tarde, encontra num cemitério a estátua do homem que matou, jocosamente convida-a para jantar, ao que esta prontamente acede. Procurando não se mostrar intimidado com a reacção de tão invulgar interlocutor, Don Juan prossegue com as suas fanfarronices e, ao apertar a mão à estátua para selar o acordo, vê-se por ela arrastado para o Inferno.

Pegando em matéria tão rica de significados, o colectivo Barba Azul decidiu dar um novo sentido à história e criar a sua própria versão, fazendo subir ao palco este “Don Juan Esfaqueado na Avenida da Liberdade”. Preenchendo parte do programa do último fim de semana do FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, a peça mostra-nos um Don Juan que, depois daquele inesperado encontro, se esquiva ao aperto de mão da estátua e que, consequentemente, se vê perseguido, para onde quer que vá, pelo fantasma do Comendador. A solução passa por fugir no tempo, após uma “ida à bruxa” e a confirmação de que a maldição é irrevogável no tempo presente. Por artes mágicas, Don Juan acaba por “aterrar” no século XXI, em plena Lisboa, onde maldições de outra ordem o esperam.

Dividida em duas partes distintas, separadas entre si por um “conveniente” intervalo, a peça está recheada de momentos de humor e de bom teatro, embora isto seja sobretudo válido para a primeira metade. Os momentos em que Tónan Quito, no papel de Don Juan, se confronta ao mesmo tempo com as quatro amantes ou em que Rita Calçada Bastos, deixando a aldeia natal, se encontra com o seu amor e lhe explica que está grávida, são absolutamente geniais. Tudo decai sobremaneira na segunda parte, a pouca originalidade a ceder espaço ao lugar comum e a um certo mau gosto, salvando-se, apenas, o quadro do “nenúfar”. Com a peça a chegar ao fim, a previsibilidade adensa-se e o riso torna-se amarelo. Às mãos de delinquentes, madrugada alta, Don Juan morre sem glória e, com ele, uma peça que tanto prometia.

[Foto: Miguel Loureiro | facebook.com/miguelinho.loureiro]

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