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sábado, 15 de junho de 2019

CONCERTO: Tó Trips & João Doce



CONCERTO: Tó Trips & João Doce
WOOL – Festival de Arte Urbana da Covilhã
Escadinhas do Castelo, Covilhã
09 Jun 2019 | dom | 22:30


Foi em casa do tio Francisco, ali mesmo, na Covilhã, que Tó Trips terá tido um primeiro contacto com a guitarra, “quando era puto e vinha aqui passar as férias grandes”. Se isto é verdade ou não e que importância poderá ter tido no seu percurso musical, não o sabemos. Sabemos, isso sim, que o domínio que hoje tem do instrumento, a sua capacidade de lhe arrancar sonoridades únicas e distintas, é absolutamente ímpar. O que faz dele um músico muito especial na cena musical portuguesa, desde os tempos convulsivos dos “Amen Sacristi”, ainda no Liceu Pedro V, e dos “Santa Maria Gasolina em Teu Ventre!”, até ao recente “Dead Combo”, com Pedro Gonçalves, passando pelos “Lulu Blind”, nos anos 90, e por uma série de projectos a solo.

Na Covilhã, Tó Trips apresentou-se em palco ao lado do percussionista João Doce, músico angolano que reside actualmente em Esmoriz e que é sobejamente conhecido por integrar projectos como os Wray Gunn ou Legendary Tigerman. Do entendimento, cumplicidade e profunda amizade entre os dois músicos – que vem desde um primeiro encontro, durante uma tour dos Wray Gunn, em 2004 – nasceu e cresceu este espectáculo entusiasmante, oferecido ao público em noite de festa, “à boleia” do WOOL – Festival de Arte Urbana da Covilhã. Assente nos trabalhos “Guitarra Makaka – Danças A Um Deus Desconhecido”, que Tó Trips gravou a solo em 2015, e “Sumba”, registo de 2016 em parceria com João Doce, o concerto propôs uma viagem exploratória pelos recantos desta imensa ilha que habitamos, ao encontro das suas peculiaridades sonoras, da sua musicalidade intrínseca, dos segredos e enigmas que esconde e que só a música permite desvendar.

Tocadas em sequência, “Danças a Um Deus Desconhecido”, “Baía das Negras”, “Cuca”, “Makumba das Foncas”, “Pedra Lume” e “Migratória”, músicas extraídas de “Guitarra Makaka”, levaram o público a viajar por Bolonha e pelo intenso repicar dos seus sinos num quente final de tarde, a ser “heróis do mar” a caminho do Oriente, a assistir à vingança do forasteiro de “Era Uma Vez no Oeste” sobre um renegado Frank, a viúva Jill McBain à espreita, a dançar em êxtase no terreiro da macumba ou a contemplar do alto Lisboa com as suas sete colinas. “Primitiva” e “Suva Blues”, do recente trabalho da dupla, encerraram o concerto e reforçaram o fascínio da viagem, uma viagem profundamente interior e imaginária, tornada real pelas memórias convocadas e pela certeza da melodia e dos ritmos que abraçam os cinco continentes. Genial!

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