terça-feira, 4 de setembro de 2018

LIVRO: "Ecologia"



LIVRO: “Ecologia”,
de Joana Bértholo
Editorial Caminho, Maio de 2018


“O propósito de uma armadilha de peixes é apanhar peixes e,
Uma vez o peixe apanhado, a armadilha é esquecida.

O propósito da armadilha de coelhos é apanhar coelhos.
Uma vez o coelho caçado, a armadilha é esquecida.

O propósito das palavras é transmitir ideias. Uma vez as ideias
transmitidas, as palavras podem ser esquecidas.

Onde encontro um homem que tenha esquecido as palavras?
É com ele que eu quero conversar.”

Chuang Tzu, século IV a.C.


É de palavras que nos fala “Ecologia”, o último romance de Joana Bértholo, no prelo desde o passado mês de Maio. Habitando um futuro não muito distante do nosso, o livro descreve aquilo em que o mundo se tornou graças a tecnologias cada vez mais complexas, dando lugar a uma nova ordem social a qual, condensando uma nova forma de monocracia, dispensa o Estado. Cruzar as leis da oferta e da procura com o poder e sedução das manobras de marketing foi o caminho, o medo e o populismo as alavancas. Resultado: Um regime assente num refinamento do capitalismo, onde tudo se paga, até as palavras!

A leitura de “Ecologia”, de Joana Bértholo, força-nos a recuar no tempo, ao encontro do incontornável “1984”, de George Orwell. O livro, recorde-se, descrevia de forma realista o vastíssimo sistema de fiscalização em que passaram a assentar as sociedades capitalistas, a electrónica a sustentar um sofisticado sistema repressivo, o “big brother” a converter-se numa presença real e quotidiana. Sendo o virtual uma realidade demasiado distante, incompreensível mesmo para a generalidade dos leitores à época, é natural que George Orwell fosse inscrito na lista dos visionários e o livro passasse a figurar na secção de Ficção Científica. Com “Ecologia”, porém, a realidade é outra e bem diferente. O conhecimento que hoje temos do mundo e a percepção do que se passa à nossa volta torna o livro assustadoramente actual, um breve passo de distância entre a nossa realidade e a realidade ficcionada (muito mais breve do que se possa imaginar). Para tal, Joana Bértholo desenvolve a narrativa a partir dum conjunto de personagens com as quais facilmente nos identificamos - porque vivendo os mesmos dramas e convivendo com as mesmas dúvidas que nós -, alicerçando-a em acontecimentos próximos ou mesmo coincidentes com aqueles que marcam a actualidade.

Clarividente, segura no exercício de somar dois mais dois, a autora rejeita o tom profético para nos dar uma imagem daquilo que está em marcha. Privatizar a palavra como forma de controlar as massas pode parecer chocante mas não é nada que não tivesse acontecido já (veja-se o caso do franquismo e a forma como se silenciou o catalão, o galego e o basco); privatizar o pensamento, isso sim, é diabólico, mas sabemos também o quanto tem de correspondência com a ambição dos ricos e poderosos. Divertido, mordaz, cáustico, amargo, contundente, sarcástico, irónico, incisivo, corrosivo, provocante, estimulante, mobilizador e, sobretudo, extraordinariamente inteligente, “Ecologia” é um romance que encerra um conjunto de mensagens sólidas e avisos severos. Há que atentar nele e elevar a guarda. A terceira vaga está a chegar!

NOTA: Brilhante a forma como Joana Bértholo deslinda a questão do título deste seu livro. Uma solução notável, como notável é todo o trabalho em torno deste “Ecologia”.