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quinta-feira, 5 de julho de 2018

LIVRO: "Na Memória dos Rouxinóis"



LIVRO: “Na Memória dos Rouxinóis”,
de Filipa Martins
Ed. Quetzal Editores, Fevereiro de 2018


“La memoria es individual.
Nosotros estamos hechos,
En buena parte, de nuestra memoria.
Esta memoria está hecha,
En buena parte, de olvido”.
J. L. Borges (1979), El tiempo

“Não estaria Deus melhor se pudesse esquecer em vez de perdoar? Ou aquele tipo palestiniano do Jornal da Noite que perdeu a família num raide aéreo israelita? Ou eu, que me pergunto tantas vezes como é que chegámos a esta merda, Camilo?” Esta breve passagem do mais recente romance de Filipa Martins, “Na memória dos Rouxinóis”, revela-se particularmente importante na definição duma possível linha de leitura, não apenas pela abordagem a uma das questões existenciais da Humanidade mas, sobretudo, pela forma como conduz o leitor ao encontro daquilo que é definido como “esquecimento correctivo”, que o mesmo é dizer “esquecer pode ser a melhor solução para tomar decisões”.

Das certezas da matemática - esta é uma curiosa história em torno de um matemático e da relação com o seu biógrafo - às dúvidas do pensamento condicionado pela memória, Filipa Martins faz assentar a narrativa nos conceitos de memória e esquecimento, fundindo-os nessa moeda valiosa chamada tempo. Ao longo do livro, vamos percebendo que a memória é o único mecanismo capaz de trazer o passado para o presente, passado esse capaz de ser anulado ou modificado pelo esquecimento. Por outro lado, o esquecimento, ao mesmo tempo que é uma manifestação da degradação que é o tempo, permite anular o que a memória não consegue suportar dentro de si, ainda que as consequências possam ser imprevisíveis, como se dará a perceber.

Distribuindo a narrativa por três momentos temporais distintos, Filipa Martins oferece-nos uma história muito simples mas muito bela, onde sobressai uma superior eficácia na descrição dos espaços e uma enorme coerência na caracterização das personagens e na forma como articulam entre si. Adoptando uma linguagem crua e sem concessões, o livro desdobra-se entre razão e coração, sem esquecer o estômago, “vazamento de todos os foda-ses, perfurado porque não há pior úlcera do que a úlcera do tipo foda-se”. Não sendo um livro fácil (mas quem é que disse que os escritores existem para facilitar a vida aos leitores?), é no entanto um livro ao qual se adere incondicionalmente desde aqueles “olhos cinzento-espelho” que inundam os primeiros parágrafos. Este é, pois, um excelente romance, de cuja leitura se retira o maior prazer!

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