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sábado, 23 de junho de 2018

CONCERTO: "Conta-me Histórias com Simone de Oliveira"



CONCERTO: “Conta-me Histórias com Simone de Oliveira”
Cine Teatro de Estarreja
22 Jun 2018 | sex | 21:30


“Isto é um espectáculo ou isto é o quê?” Foi com toda a naturalidade que Simone de Oliveira levantou a questão, já o “Conta-me Histórias” ia avançado. Conversa ou concerto (ou as duas coisas ao mesmo tempo), o espectáculo que preencheu o serão do Cine Teatro de Estarreja em dia de aniversário foi, sobretudo, o pretexto para Simone de Oliveira falar da sua vida pessoal e profissional, desvendar pormenores pouco conhecidos, cantar musicas muito conhecidas, revelar-se, confessar-se, emocionar-se e, sem papas na língua, ser ela própria. Mulher de coisas e de causas, mulher coragem, mulher-mãe, mulher de corpo inteiro!

Entrou em palco a coxear - “fiz uma prótese do joelho; coxeiem mas nunca façam uma prótese”, aconselhou –, mas a conversa correu ligeira como o vento. E foi com “Auto-Retrato”, poema e música de António Sala, que tudo começou, a cantora a expor-se através da canção, “Mudei o cantar e a forma de amar aqui onde estou / Mudei os destinos, virei os meus hinos, mas sei onde vou”. E mostrou que sabia e sabe (sempre soube) onde vai. Contou que foi vítima de violência doméstica aos 19 anos, que saiu de casa e entrou numa depressão profunda, dela se libertando graças à música. “Eu não escolhi a vida, foi a vida que me escolheu a mim”, conta, acrescentando: “Eu nunca quis cantar, nunca quis ser actriz. Eu só queria que aquilo que me aconteceu não tivesse acontecido.” Mas levantou a cabeça e hoje diz, com emoção, “tenho obrigação de ser uma mulher feliz porque a vida deu-me coisas espantosas.”

“Esta Palavra Saudade” foi o segundo momento musical da noite e trouxe-nos a beleza do poema de José Carlos Ary dos Santos - “Ai! palavra amarga e doce / estrangulada na garganta / palavra como se fosse / o silêncio que se canta”. Mas, de novo, as certezas de Simone de Oliveira: “A minha saudade é uma saudade muito lavada. Que bom ter vivido o que vivi!”. E falou então da vida a dois com Henrique Mendes, “o homem que mais mulheres teve em Portugal”, referindo um episódio de 1969, no Festival RTP da Canção, Mendes na terceira fila de mão dada com outra mulher e ela a “ter um ataque de tudo”, a cantar de raiva, com uma certeza na alma: “É hoje que ganho esta merda!”. E ganhou, com o maior exito da sua carreira, “Desfolhada Portuguesa” - Eira de milho / luar de Agosto / quem faz um filho / fá-lo por gosto” -, musica de Nuno Nazareth Fernandes e letra de Ary dos Santos. Uma canção que, no Festival Eurovisão da Canção, em Madrid, “foi duramente castigada por compadrios, habilidades de bastidores e interesses comerciais, levando a que o próprio ministro da Informação e Turismo espanhol me viesse pedir desculpas e a Portugal”, lembra.

As conversas são como as cerejas e Simone de Oliveira revela-se uma conversadora nata. Fala da sua vitória no Festival RTP da Canção em 1965 com “Sol de Inverno”, de Nóbrega e Sousa e Jerónimo Bragança e de como Carlos do Carmo a ajudou a regressar à música, em 1973, “depois de três anos sem cantar, por ter ficado sem voz”. Em palco, Simone lembrou “Sol de Inverno” - “Dei tudo na vida / Bandeira vencida / Rasgada no chão” - e a extraordinária habilidade dos letristas portugueses para enganar a censura. Cantou também “De Degrau em Degrau”, com letra de Jerónimo Bragança, “Que mais te posso dar? / Que mais queres tu de mim?” e o assombroso “No Teu Poema”, com música e letra de José Luis Tinoco, “(...) um rio / A sina de quem nasce fraco ou forte / O risco, a raiva e a luta de quem cai / Ou que resiste / Que vence ou adormece antes da morte”.

A conversa (o concerto) chegava ao fim com “Desfolhada Portuguesa”, muita coisa dita e muita mais por dizer. Da passagem pelo jornalismo, com a página “Sombras da Ribalta” na revista “R&T”, à quantidade de amantes que lhe arranjaram e “onde só faltavam os toureiros a pé e a cavalo”, passando pela sua relação difícil com a Igreja Católica, de tudo se falou um pouco. No “encore” viria a cantar um intimista “Foi Assim” - “uma canção do meu último álbum que ninguém conhece, as rádios não passam, vá-se lá saber porquê” -, com letra sua e que diz esta coisa espantosa: “A 29 de agosto de 2000 e o que entenderes / talvez possamos olhar-nos como da primeira vez / contar a história de novo / mudar-lhe só o final / se não poderes nessa data pode ser noutra, que tal...”. Pois que seja, nessa ou noutra data. Até já, Simone!

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