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sexta-feira, 8 de junho de 2018

CINEMA: "Uma Mulher Doce"



CINEMA: “Uma Mulher Doce” / “Krotkaya
Realização | Sergei Loznitsa
Argumento | Sergei Loznitsa
Fotografia | Oleg Mutu
Montagem | Danielius Kokanauskis
Interpretação | Valeriu Andriutã, Liya Akhedzhakova, Vasilina Makovtseva, Boris Kamorzin, Sergey Kolesov, Rosa Khayrullina
Produção |Marianne Slot
França, Alemanha, Lituânia, Holanda | 2017 | Drama, Mistério | 143 minutos | M/16
Cinema Dolce Espaço, Ovar
08 Jun 2018 | sex | 16:00


Uma mulher desloca-se aos Correios a fim de levantar uma encomenda, mas rapidamente percebe que esta é a mesma enviada ao marido que se encontra preso e que acaba de ser devolvida sem qualquer explicação. Inconformada perante o silêncio instalado, faz-se ao caminho decidida a entregar a encomenda por mão própria. Começa, assim, uma verdadeira descida aos infernos, através de uma Rússia cujo carácter caricatural e excessivo contrasta com uma crescente dinâmica de humilhação e violência.

Misto de farsa e pesadelo, “Uma Mulher Doce” leva-nos do realismo mais radical ao barroco absoluto, num movimento desprovido de lógica aparente e ao longo do qual encontramos traços de Fellini, Tarkovsky ou Bela Tarr. O tema é amargo e absurdo. À medida que a personagem principal vai sendo dominada por uma realidade cujo funcionamento procura entender, o filme transforma-se num teste ao espectador, mergulhando-o no sofrimento físico e mental ao qual gostaria de escapar. O calvário chegará ao fim com a passagem dos créditos finais, mas fica a certeza de que se irá prolongar para a protagonista, personificação daquilo que constitui o pesadelo de muitos.

Sergei Loznitsa mostra-se brilhante na forma como reforça a determinação desta mulher que procura compreender a lógica de um sistema que se complexifica inexoravelmente diante dos seus olhos – e dos nossos (!) -, evoluindo para a extravagância mais selvagem. Um absurdo crescente e permanente ao qual os que a rodeiam parecem alheios, salvo a esta "mulher doce", testemunha e, fatalmente, vítima de uma farsa infame e aberrante. A galeria de personagens, tal como as situações – às quais a protagonista não procura escapar -, deixam-nos ainda mais perplexos perante o estoicismo desta mulher que, caminhando para a sua perdição de forma impassível, sem um esgar ou um sorriso, se revela paradoxalmente “doce”. Metáfora do ser humano preso no labirinto duma sociedade doente, “Uma Mulher Doce” alerta para a cegueira face à realidade que sustenta os novos tempos, caricaturando-a de forma brutal. Um filme duro, bem contrastante com a doçura que seria de inferir do título.

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