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quarta-feira, 17 de junho de 2026

CINEMA: “Dois Procuradores” | Sergei Loznitsa



CINEMA: “Dois Procuradores” / “Zwei Staatsanwälte”
Realização | Sergei Loznitsa
Argumento | Georgy Demidov, Sergei Loznitsa
Fotografia | Oleg Mutu
Montagem | Danielius Kokanauskis
Interpretação | Alexander Kuznetsov, Ivgeny Terletsky, Timur Ibragimov, Gatis Rubins, Uldis Valteris, Ihor Cherniak, Andris Keiss, Vytautas Kaniusonis, Vygandas Vadeiša, Orest Pasko, Andrejs Zeiliss, Arturs Saldnieks, Aleksandr Filippenko, Laimonis Grincevics
Produção | Kevin Chneiweiss
França, Alemanha, Países Baixos, Letónia, Roménia, Lituânia, Ucrânia | 2025 | Drama, História, Thriller, Crime | 118 Minutos | Maiores de 12 Anos
UCI Arrábida - Sala 8
14 Jun 2025 | dom | 19:05


Sergei Loznitsa regressa à ficção com “Dois Promotores”, adaptação de um romance de Georgy Demidov, físico soviético e sobrevivente do Gulag, para revisitar um dos períodos mais sombrios da história soviética: a Grande Purga de 1937, também conhecido como “Grande Terror”. A premissa não poderia ser mais simples. Alexander Kornev, jovem procurador recém-nomeado e movido por um idealismo quase ingénuo, entra na posse de uma carta escrita com sangue por um prisioneiro político que denuncia torturas e uma condenação forjada. O encontro com o velho bolchevique Stepniak desencadeia uma investigação que rapidamente se transforma numa viagem ao coração de um sistema concebido não para produzir justiça, mas para impedir que ela aconteça. Sergei Loznitsa afasta-se deliberadamente dos mecanismos convencionais do “thriller” político e constrói uma anatomia da opressão burocrática, onde cada corredor, cada gabinete e cada procedimento funcionam como instrumentos de uma violência psicológica indizível. O realizador interessa-se menos pelos excessos espectaculares do terror estalinista do que pela sua normalização administrativa, pela forma como o mal se instala na rotina e se esconde atrás de carimbos, regulamentos e esperas intermináveis.

A extraordinária força do filme reside na recusa do dramatismo fácil. Construído através de uma sucessão de conversas longas, filmadas com rigor geométrico e uma contenção quase ascética, “Dois Promotores” cria uma atmosfera de inquietação permanente. A composição dos enquadramentos, o formato quase quadrado da imagem (num rácio de 1,37:1), a paleta de cinzentos desbotados e o ritmo deliberadamente lento contribuem para uma sensação de clausura que se vive e sente. Kornev atravessa repartições, salas de espera e corredores como se percorresse um labirinto kafkiano onde cada porta aberta conduz a um novo impasse. Numa das sequências mais memoráveis, o protagonista permanece horas à espera de uma audiência enquanto o espaço à sua volta se esvazia lentamente, num exemplo perfeito da forma como Loznitsa transforma a passagem do tempo numa arma de desgaste. O realizador demonstra uma enorme confiança no poder da observação, preferindo sugerir a brutalidade em vez de a exibir. Mesmo os relatos de tortura ou as intimidações silenciosas dos guardas prisionais adquirem maior força precisamente porque nunca são explorados como espectáculo.

Mais do que uma reconstituição histórica, “Dois Promotores” impõe-se como uma reflexão perturbadora sobre os mecanismos universais do autoritarismo. A trajectória de Kornev é a de um homem que acredita nas instituições e que descobre, demasiado tarde, que estas foram capturadas por uma lógica de poder impermeável à verdade. A sua fé no Partido, na legalidade e na possibilidade de corrigir injustiças através dos canais oficiais revela-se uma ilusão cuidadosamente alimentada pelo próprio sistema. Loznitsa filma esse desmoronamento moral com uma precisão glacial, recusando qualquer sentimentalismo e mantendo o espectador preso à mesma impotência que aprisiona a personagem. Se por vezes o rigor formal ameaça transformar-se em monotonia, essa opção parece inseparável do projecto do filme: fazer sentir o peso esmagador de uma máquina estatal cuja eficácia depende precisamente da repetição, da exaustão e da resignação. O resultado é uma obra austera, exigente e profundamente inquietante, que recorda não apenas os horrores do passado soviético, mas também a facilidade com que qualquer sociedade pode aprender a conviver com a injustiça quando esta se apresenta sob a aparência da normalidade.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

CINEMA: "Uma Mulher Doce"



CINEMA: “Uma Mulher Doce” / “Krotkaya”
Realização | Sergei Loznitsa
Argumento | Sergei Loznitsa
Fotografia | Oleg Mutu
Montagem | Danielius Kokanauskis
Interpretação | Valeriu Andriutã, Liya Akhedzhakova, Vasilina Makovtseva, Boris Kamorzin, Sergey Kolesov, Rosa Khayrullina
Produção |Marianne Slot
França, Alemanha, Lituânia, Holanda | 2017 | Drama, Mistério | 143 minutos | M/16
Cinema Dolce Espaço, Ovar
08 Jun 2018 | sex | 16:00


Uma mulher desloca-se aos Correios a fim de levantar uma encomenda, mas rapidamente percebe que esta é a mesma enviada ao marido que se encontra preso e que acaba de ser devolvida sem qualquer explicação. Inconformada perante o silêncio instalado, faz-se ao caminho decidida a entregar a encomenda por mão própria. Começa, assim, uma verdadeira descida aos infernos, através de uma Rússia cujo carácter caricatural e excessivo contrasta com uma crescente dinâmica de humilhação e violência.

Misto de farsa e pesadelo, “Uma Mulher Doce” leva-nos do realismo mais radical ao barroco absoluto, num movimento desprovido de lógica aparente e ao longo do qual encontramos traços de Fellini, Tarkovsky ou Bela Tarr. O tema é amargo e absurdo. À medida que a personagem principal vai sendo dominada por uma realidade cujo funcionamento procura entender, o filme transforma-se num teste ao espectador, mergulhando-o no sofrimento físico e mental ao qual gostaria de escapar. O calvário chegará ao fim com a passagem dos créditos finais, mas fica a certeza de que se irá prolongar para a protagonista, personificação daquilo que constitui o pesadelo de muitos.

Sergei Loznitsa mostra-se brilhante na forma como reforça a determinação desta mulher que procura compreender a lógica de um sistema que se complexifica inexoravelmente diante dos seus olhos – e dos nossos (!) -, evoluindo para a extravagância mais selvagem. Um absurdo crescente e permanente ao qual os que a rodeiam parecem alheios, salvo a esta "mulher doce", testemunha e, fatalmente, vítima de uma farsa infame e aberrante. A galeria de personagens, tal como as situações – às quais a protagonista não procura escapar -, deixam-nos ainda mais perplexos perante o estoicismo desta mulher que, caminhando para a sua perdição de forma impassível, sem um esgar ou um sorriso, se revela paradoxalmente “doce”. Metáfora do ser humano preso no labirinto duma sociedade doente, “Uma Mulher Doce” alerta para a cegueira face à realidade que sustenta os novos tempos, caricaturando-a de forma brutal. Um filme duro, bem contrastante com a doçura que seria de inferir do título.