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domingo, 10 de junho de 2018

TEATRO: "Montanha-Russa"



TEATRO: “Montanha-Russa”,
de Inês Barahona e Miguel Fragata
Encenação | Miguel Fragata
Dramaturgia | Inês Barahona
Texto e letras | Miguel Fragata
Música original | Hélder Gonçalves
Interpretação | Anabela Almeida, Bernardo Lobo Faria, Carla Galvão, Miguel Fragata, Hélder Gonçalves, Manuela Azevedo, Miguel Ferreira, Nuno Rafael
Produção | Formiga Atómica
Teatro Nacional de S. João
09 Jun 2018 | sab | 19:00


Ter 15 anos e querer fugir de casa para dar um beijo no rapaz da feira. Ter 16 anos e perder a voz de menino e passar a ter uma voz de cana rachada. Ter 13 anos e, de um dia para o outro, ser uma menina crescida e não se sentir nada confortável naquele corpo que é seu. Ter 18 anos e uma vontade louca de conhecer o mundo e não ficar parado. A adolescência é aquele período da vida em que deixamos de ser crianças e ainda não somos adultos. Em que os pais não nos compreendem e só queremos estar com os nossos amigos. Ou então ficar fechados no quarto a ouvir aquela música muitas vezes. Em que precisamos desabafar com alguém a angústia de não sabermos bem quem somos e de nos enrolarmos na intimidade de escrever um diário.

Ser adolescente é viver numa permanente montanha-russa. É esta a imagem que atravessa o espetáculo criado por Inês Barahona e Miguel Fragata, um musical destinado a todos os públicos onde se impõem temas como a amizade, a descoberta, os ajustes de contas, a agressividade e a passividade em relação à família, uma relação muito forte com os amigos ou a pertença a um grupo. As quatro histórias estão unidas por uma montanha-russa, a Ciclone, a maior alguma vez construída, com 26 metros de altura. Nesta fase da vida, em que se vai “do topo do mundo ao lugar mais profundo”, como diz uma das canções, as vivências e as angústias que os quatro jovens experimentam em palco não destoam das que os adolescentes vivem na realidade. Ali se fala do primeiro cigarro (e de todas as primeiras vezes), da vontade de morrer, das loucuras, do medo de crescer, de muito mais.

Mergulhando vertiginosamente na adolescência, retirando-a do lugar dos lugares-comuns e procurando aproximá-la da dimensão da intimidade, “Montanha-Russa” retrata a vivência e as preocupações, os picos de euforia e de depressão da adolescência, viajando “do topo do mundo ao lugar mais profundo”, como diz a “Canção da Primeira Vez”, interpretada por Manuela Azevedo. Abrindo um parêntesis, importa dizer que, se os músicos em palco são “meio espectáculo”, Manuela Azevedo é um espectáculo por completo, de tal forma a peça gira em torno de si, da sua capacidade musical mas, sobretudo, teatral. Tal como na vida dos adolescentes, a música (composta por Hélder Gonçalves) tem em “Montanha Russa” um papel importantíssimo, podendo ser superdepressiva ou mostrar-se “a abrir”, ajudando a acompanhar o crescimento destes adolescentes e levando o público “para outras zonas, mais densas”. Crescer é como andar numa montanha-russa: queremos que aquilo acabe depressa mas, depois, quando acaba, gostaríamos de poder continuar. “A viagem vai continuar? Será que isto não vai parar?”

[Foto: Filipe Ferreira]

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