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quarta-feira, 8 de dezembro de 2021

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: "Manoel de Oliveira Fotógrafo"


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EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Manoel de Oliveira Fotógrafo” 
Curadoria | António Preto 
Átrio da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian
29 Out 2021 > 17 Jan 2022


As mais de cem fotografias que compõem a exposição “Manoel de Oliveira Fotógrafo”, e que podem ser vista no átrio da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, são uma das grandes surpresas que o arquivo pessoal do realizador, integralmente depositado em Serralves, reservava. Produzidas entre finais de 1930 e meados dos anos 1950, estas imagens, guardadas durante várias décadas e na sua maioria inéditas, revelam uma faceta desconhecida de Oliveira e abrem novas perspectivas sobre a evolução da sua obra.

A passagem do cineasta pela imagem estática é uma etapa determinante do seu percurso. Em diálogo tanto com o pictorialismo como com o construtivismo e com as influências da Bauhaus, as suas fotografias estão a meio caminho entre a exploração dos valores clássicos da composição e o espírito modernista que animou toda a primeira fase da sua produção cinematográfica. Documentais ou encenadas, simples olhares sobre as gentes e a paisagem ou complexos exercícios de experimentação de luz e sombra sobre naturezas mortas, as imagens de Manoel de Oliveira têm a marca do génio do seu autor e são o reflexo da paixão pela fotografia enquanto arte de congelar o momento.

As imagens agora expostas, com curadoria de António Preto, adicionam, certamente, um novo capítulo à história da fotografia portuguesa dos anos 40. Mas elas constituem, também, um precioso instrumento para enquadrar o modo como Manoel de Oliveira passa a assegurar, durante um período de dez anos, a direcção de fotografia dos seus próprios filmes, bem como para contextualizar, numa perspectiva mais ampla, o rigor de composição que caracteriza o seu cinema. Olhando para estas imagens, não interessará muito saber onde começa o fotógrafo e onde acaba o cineasta. Importará, sim, questionar o modo como esta convivência entre dois dos de ver e de pensar se corporiza na obra de Manoel de Oliveira. Todas as fotografias expostas pertencem ao Acervo de Manoel de Oliveira, Casa do Cinema Manoel de Oliveira - Fundação de Serralves, Porto, e podem ser vistas até ao próximo dia 17 de Janeiro.

quinta-feira, 15 de julho de 2021

LIVRO: "A Morte não É Prioritária - Biografia de Manoel de Oliveira"



LIVRO: “A Morte não É Prioritária - Biografia de Manoel de Oliveira”,
de Paulo José Miranda
Edição | Rui Couceiro
Ed. Contraponto Editores, Setembro de 2019


“Luis Miguel Cintra diz-nos: ‘A maior dificuldade que encontramos para fazer uma biografia de Manoel de Oliveira é que a obra e a vida estão muito interligadas. É preciso conhecer a obra a fundo. E esta vai mudando ao longo dos anos pelas reflexões sobre o cinema e sobre a vida.’ Se é verdade que isto acontece com a maioria dos cineastas, com Oliveira muito mais, porque a sua obra é quase toda realizada entre os seus 70 e 106 anos. E os filmes vão integrando em si, cada vez mais, em crescendo, factos, reflexões da vida e memórias.”

“Não, não olho para o que fiz. Olho para o que vou fazer. Esta é a minha ocupação. Quando me perguntam sempre ‘qual é o filme que gosta mais’, respondo: é o que vou fazer agora.” É este Manoel de Oliveira, tenaz e decidido, que encontramos no trabalho biográfico desenvolvido por Paulo José Miranda onde se dá conta da vida e obra do realizador com a mais longa carreira da História do Cinema. Nascido a 11 de dezembro de 1908, no Porto, cidade onde viria a falecer com 106 anos de idade, em 02 de Abril de 2015, Manoel Cândido Pinto de Oliveira fez mais de meia centena de filmes ao longo de 84 anos, passando do cinema mudo ao cinema sonoro, do preto e branco à cor e da película de nitrato ao suporte digital. Daí que esta biografia seja, desde logo, um acto de coragem - como corajosa foi a vida do biografado -, respondendo a “comos” e “porquês”, embora consciente de que há coisas que não se explicam porque, pura e simplesmente, não têm explicação.

Não há como não ler “A Morte não É Prioritária – Biografia de Manoel de Oliveira” como se de uma longa-metragem se tratasse. Desde logo por que ela se debruça sobre uma vida longa e riquíssima de uma figura absolutamente singular da cultura portuguesa, um homem cuja vida quase se pode resumir na frase “pensar em cinema, imaginar cinema, escrever cinema, filmar e viajar por causa do cinema”. Mergulhando no universo pessoal de Manoel de Oliveira, Paulo José Miranda tece habilmente um guião que respeita a cronologia dos acontecimentos, empenhando-se em relacioná-los entre si. É um trabalho minucioso em busca dos fios de uma meada complexa, unidos com sabedoria e paixão para formar a peça de uma vida. Uma peça tornada mais bela ainda graças aos conhecimentos que o biógrafo demonstra sobre o cinema em geral e sobre os filmes de Oliveira em particular, permitindo-lhe mostrar que, mais do que a obra em si, está o homem e o seu pensamento, os conceitos ontológicos que defendia, as correntes artísticas como forma de expressão e, sobretudo, as convicções mais íntimas das quais nunca abdicou.

“Uma biografia é uma narrativa. E nesta, assim como na existência, há que decidir”, diz Paulo José Miranda num “antes de mais”, espécie de preâmbulo a este livro. Esta reflexão acabará por impor a sua verdade ao longo da obra da forma que mais interessa ao leitor, as decisões tomadas - “tomamos este caminho e não outro, esta decisão e não outra” - a revelarem-se acertadas, de tal forma vamos sentindo o livro em crescendo, empolgados com a presença e a jovialidade de um homem que, sempre a filmar, vence a barreira dos cem anos e segue em frente. Para os amantes da sétima arte - mesmo para aqueles que não têm a obra do realizador português na melhor das contas -, este é um livro precioso, cruzando a filmografia pessoal com o cinema de autor que foi sendo feito um pouco por todo o mundo, oferecendo apontamentos deliciosos sobre a vida de um e do outro lado da câmera, revisitando as reacções à exibição de cada um dos filmes e escutando aqueles que souberam elogiar o realizador ou, pelo contrário, o enxovalharam. No final o sentimento é de admiração, tanto pelo biografado como pelo biógrafo (para além da vontade de ver ou rever com urgência a obra completa de Manoel de Oliveira). Um livro essencial.