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quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

LIVRO: "Como Saciar um Ditador"



LIVRO: “Como Saciar um Ditador”,
de Witold Szabłowski
Título original | “Jak nakarmić dyktatora” (© Witold Szabłowski 2019)
Tradução | Violetta Gawor
Ed. Livros Zigurate, Outubro de 2024


“Se eu tinha o jantar pronto? Claro que tinha. O golpe anterior ensinou-me que o trabalho dos generais são os golpes. O trabalho do cozinheiro é ter as mãos lavadas e o avental limpo. E cozinhar. Nada te serve de desculpa para não trabalhares, porque quando eles já tiverem consumado o golpe, hão-de estar de estômago vazio, e desde que tenhas alguma coisa boa para lhes servires, há uma boa hipótese de não te matarem.”

Qual seria o pequeno-almoço preferido de Jorge Rafael Videla, responsável por semear o terror na Argentina e levar ao desaparecimento de mais de trinta mil opositores? Terá Muammar Kadhafi apreciado a sua habitual taça de leite de dromedário no dia em que ordenou o atentado ao avião da Pan Am que matou 270 pessoas? O que é que Benjamin Netanyahu terá jantado depois de saber que o ataque aéreo a duas casas no campo de refugiados de Maghazi, no centro de Gaza, tinha ceifado a vida a onze membros da mesma família? Como eram os almoços do Papa Doc, responsável pelo assassinato e desaparecimento de 150.000 haitianos? Em momentos-chave da História, são muitas as figuras que se notabilizaram pela sua sede de poder e de vingança, vertida numa crueldade inominável e na perpetração de verdadeiros crimes contra a humanidade. Figuras que, apesar do clima de brutalidade e de terror que as rodeava, mantinham hábitos de vida “normais”, rodeados da família, dando os seus passeios, repousando, lendo ou ouvindo música, recuperando de uma constipação, fazendo as suas refeições.

Foi pelas refeições de torcionários e ditadores que Witold Szabłowski pegou neste seu livro, ao encontro dessas figuras sinistras, graças aos testemunhos daqueles que para elas cozinharam. Dos que enfrentaram desafios inomináveis para agradar àqueles que tinham o poder de, com um gesto, as fazer desaparecer para sempre. Que conheciam as particularidades de cada um deles em matéria de paladar e eram capazes de replicar um prato quando faltavam os ingredientes essenciais. Que sabiam, por experiência própria, que um ditador saciado era um ditador mais tolerante. Que intuíam que a sua arte de bem cozinhar era capaz de mudar o rumo da História. Numa longa viagem pelo mundo, da Albânia ao Iraque, de Cuba ao Camboja e ao Uganda, o escritor parte ao encontro dos cozinheiros que serviram ditadores como Enver Hoxha, Saddam Hussein, Fidel Castro, Pol Pot e Idi Amin Dada, ouvindo as suas histórias pessoais enquanto bebia um rum ou ajudava a preparar uma sopa agridoce, um pilaf com carne de cabra, um peixe com molho de manga, um sheqerpare ou uma salada de papaia.

Aparentemente simples nos seus pressupostos, “Como Saciar um Ditador” revela-se de uma complexidade insuspeitada ao dizer-nos algo tão elementar quanto isto: A responsabilidade de alimentar uma personalidade volúvel, ciente da sua força e poder, é algo de particularmente sensível e, no limite, um acto político. Sabendo que tudo pode depender dos caprichos de uma pessoa, o cozinheiro tem nas mãos não apenas a sua sobrevivência, mas a de muitos. A par das histórias à volta dos pratos favoritos, das refeições familiares ou dos sustos causados por uma ou outra indigestão, o livro aborda a grande História, convidando o leitor a espreitar a cozinha e a sala de jantar de palácios ou de simples tendas, espaços familiares onde a megalomania, a monstruosidade e a crueldade se cruzam com o aroma do alecrim, da corcuma ou do gengibre. Misturando testemunhos com breves apontamentos históricos destinados a contextualizar cada ditadura, Witold Szabłowski evoca inteligentemente os ditadores e o seu lugar na História, lembrando que os monstros também são produto da Humanidade.

quinta-feira, 11 de julho de 2024

LIVRO: "Um Dia na Vida de Abed Salama: Anatomia de uma Tragédia em Jerusalém"




LIVRO: “Um Dia na Vida de Abed Salama: Anatomia de uma Tragédia em Jerusalém”,
de Nathan Thrall
Título Original | "A Day in the Life of Abed Salama: Anatomy of a Jerusalem Tragedy" (©2023 Nathan Thrall)
Tradução | Sara Veiga
Ed. Livros Zigurate, Outubro de 2023


“O juiz das FDI gritou-lhe para que se calasse e se sentasse. Huda recusou, exigindo que Hadi levantasse a camisa e baixasse as calças para que o tribunal pudesse ver que a sua confissão fora obtida sob tortura. O juiz permitiu-o. O corpo de Hadi estava coberto de nódoas negras, como se tivesse sido espancado com bastões. Huda gritou que os soldados que o torturaram deviam ser julgados. Quando o juiz suspendeu a audiência, Huda correu para o filho, ignorando os gritos dos guardas, e deu a Hadi o abraço que reprimira na noite da detenção. Imaginou-se a acalentá-lo com o seu abraço antes da estadia na fria cela da prisão. O juiz bradou: aquela seria a última vez que ela tocaria no filho até ele ser libertado.”

Um acidente com um autocarro que transportava crianças de uma escola abala a manhã chuvosa e fria junto ao posto de controlo de Jaba, num dos muitos enclaves da Cisjordânia. O número de mortos e feridos é elevado e entre eles está Milad Salama, de 5 anos, filho de Abed Salama. Este é o ponto de partida de uma angustiante jornada contra o tempo, ao longo da qual o progenitor corre em busca do pequeno Milad. Entre hospitais, centros médicos e bases militares, de um e outro lado da fronteira com Israel, o leitor vai tomando conta dos constrangimentos que advém da situação política no Médio Oriente e do tratamento arbitrário e desumano a que os habitantes árabes da Cisjordânia se veem sujeitos no dia-a-dia. Sem respeitar uma linha cronológica, o livro aborda também os aspectos mais íntimos da vida de Abed Salama: um amor de infância rompido por intrigas familiares, um casamento falhado e um divórcio movido pela necessidade de garantir os documentos necessários para passar pelos postos de controlo israelitas.

“Um Dia na Vida de Abed Salama” começou por ser um texto lançado em 2021 no New York Review of Books, publicação com a qual o jornalista Nathan Thrall mantém uma colaboração regular. Profundo conhecedor das causas e consequências do conflito israelo-árabe, Thrall decidiu expandir a peça inicial, colocando uma maior atenção na figura de Abed Salama e daqueles que o rodeiam, contornando assim as questões meramente políticas e abrindo-se à cultura e à vida em sociedade do povo palestiniano. Com uma clareza cortante, este judeu americano a residir em Jerusalém olha o eterno conflito entre Israel e a Palestina a partir da dor de uma família. A sensação de sobressalto faz-se presença constante ao longo da leitura do livro, tornando-se chocante a tomada de consciência da política de ingerência de Israel nos enclaves palestinianos e do impacto que isso produz. O velho autocarro, as estradas esburacadas e a inconsciência de um condutor, funcionam como metáforas de uma “viagem” trágica a qual, com melhores actores e pequenos ajustes na história, teria certamente outro desfecho.

Num momento em que a guerra entre Israel e o Hamas, desencadeada na sequência dos ataques de 7 de Outubro, não cessa de escalar, e em que os factos se tornaram armas num conflito sem fim à vista, um livro como “Um Dia Na Vida de Abed Salama” adquire uma força inusitada e pede que seja lido. Sem ser exaustivo, Nathan Thrall tem o cuidado de abordar o diferendo de um ponto de vista histórico, tornando um pouco menos incompreensível aquilo que tão difícil é de entender. Ao falar de forma autêntica sobre vidas comuns presas nas garras da história, o autor aponta caminhos de compaixão e compreensão tão necessários no actual contexto. Nos áridos enclaves da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, o medo e a indignação são aceites com um encolher de ombros resignado e o horror é inerente ao simples facto de se estar vivo. A tragédia com o autocarro está lá, como estão os momentos imediatamente seguintes, a ferir as nossas consciências e a trazer a dor e a revolta às nossas próprias vidas.