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quinta-feira, 16 de abril de 2026

CINEMA: "Caso 137" | Dominik Moll



CINEMA: “Caso 137” / “Dossier 137”
Realização | Dominik Moll
Argumento | Gilles Marchand, Dominik Moll
Fotografia | Patrick Ghiringhelli
Montagem | Laurent Rouan
Interpretação | Léa Drucker, Jonathan Turnbull, Mathilde Roehrich, Pascal Sangla, Claire Bodson, Julien Lilti, Florence Viala, Hélène Alexandridis, Stanislas Merhar, Antonia Buresi, Geneviève Mnich, Christian Sinniger, Sandra Colombo, Côme Péronnet, Alicia Mady
Produção | Caroline Benjo, Barbara Letellier, Carole Scotta
França | 2025 | Crime, Drama | 115 Minutos | Maiores de 12 Anos
UCI Arrábida 20 – Sala 18
13 Abr 2026 | seg | 16:10


Depois do impactante “A Noite do Dia 12”, Dominik Moll regressa a um território que tão bem domina: o da investigação como instrumento de dissecação moral e social. Inspirado na crise dos “coletes amarelos” de 2018, o filme acompanha Stéphanie Bertrand, agente da IGPN – mais conhecida como a “polícia das polícias” - incumbida de apurar responsabilidades num caso de violência policial que deixou um jovem manifestante gravemente ferido. Aquilo que à partida parece um procedimento rotineiro depressa se transforma num labirinto de versões contraditórias, silêncios cúmplices e resistências internas. Moll constrói o filme como um puzzle burocrático, fazendo de cada depoimento, de cada imagem de videovigilância, de cada relatório, uma peça que se acrescenta a uma verdade sempre incompleta. Escritórios anónimos, interrogatórios filmados em tempo quase real e um ritmo deliberadamente lento mostram o quanto a realização privilegia a sobriedade, a tensão a emergir não da acção, mas do confronto psicológico e da persistência.

Assinado por Dominik Moll e Gilles Marchand, o argumento revela um rigor quase cirúrgico na forma como acompanha todas as etapas da investigação, recusando atalhos dramáticos ou simplificações morais. “Caso 137” evita tanto a absolvição fácil como a condenação sumária, preferindo expor as zonas cinzentas de um sistema corporativista, empenhado em proteger-se a si próprio. Neste contexto, a interpretação de Léa Drucker impõe-se pela contenção e pela densidade: a personagem Stéphanie é metódica, resiliente, mas também progressivamente fragilizada por um trabalho que a isola e a coloca sob suspeita, tanto entre colegas como perante a opinião pública. Subtilmente sugerida em momentos de solidão ou em gestos aparentemente marginais, a dimensão íntima reforça o retrato de uma mulher refém da ética profissional e da pressão de um meio hostil. Ao mesmo tempo, personagens secundárias, como a testemunha relutante oriunda das periferias, introduzem uma dimensão social mais ampla, onde a desconfiança nas instituições se cruza com as desigualdades estruturais.

Mais do que um simples policial, “Caso 137” afirma-se como um espelho incómodo de uma sociedade fracturada, no seio da qual a verdade se dilui entre narrativas concorrentes e interesses institucionais. A inclusão de imagens de arquivo e registos captados por telemóveis reforça a sensação de realidade e sublinha a violência latente de um contexto marcado pela tensão entre o Estado e os cidadãos. Dominik Moll não procura respostas definitivas; pelo contrário, insiste na ambiguidade e na frustração de um processo que raramente conduz a uma justiça plena. A pergunta que ecoa no final - sobre a utilidade de um trabalho feito com rigor mas sem consequências palpáveis - sintetiza o desencanto que atravessa todo o filme. Ainda assim, é precisamente nessa recusa de simplificação que reside a sua força: um cinema que incomoda, que interpela e que lembra que a verdade, antes de ser proclamada, exige um esforço solitário e muitas vezes inglório.

sábado, 25 de novembro de 2023

CINEMA: "A Noite do Dia 12"



CINEMA: “A Noite do Dia 12” / “La Nuit du 12”
Realização | Dominik Moll
Argumento | Gilles Marchand, Dominik Moll
Fotografia | Patrick Ghiringhelli
Montagem | Laurent Rouan
Interpretação | Bastien Bouillon, Bouli Lanners, Théo Cholbi, Johann Dionnet, Thibaust Evrard, Julien Frison, Paul Jeanson,Mouna Soualem, Pauline Serieys, Lula Cotton-Frapier, Charline Paul, Matthieu Rozé, Baptiste Perais, Jules Porier, Nathanaël Beausivoir
Produção | Caroline Benjo, Barbara Letellier, Carole Scotta
França | 2022 | Crime, Drama, Mistério | 115 Minutos | Maiores de 12 anos
Vida Ovar 
25 Nov 2023 | sab | 13:00


A Polícia Judiciária francesa tem, anualmente, oitocentos homicídios para resolver, dos quais cerca de 20% acabam por ser arquivados sem que os seus autores sejam encontrados. É com a partilha destes dados que o filme começa, acrescentando que a história que estamos prestes a assistir pesa no lado da balança reservado aos insucessos. Ao mergulharmos no filme, vamos percebendo que, independentemente da falta de meios materiais e humanos que constituem um entrave à resolução de cada caso, bem como à possível inépcia geral da polícia francesa no seu todo, o que parece irrefutável é o facto de haver um número significativo de criminosos que escapam literalmente impunes. É o caso do assassino da jovem Clara Royer que, na noite do dia 12 de outubro de 2016, na cidade alpina de Grenoble, a intercepta num jardim a meio da noite, quando ela acaba de sair de casa de uma amiga e se dirige para casa. O corpo será descoberto horas mais tarde, horrivelmente queimado.

O capitão Yohan Vivès (Bastien Bouillon) acaba de assumir o comando do departamento de homicídios da esquadra local e uma das suas primeiras incumbências será a de informar os pais, tarefa que virá a revelar-se particularmente dolorosa. Ele e a sua equipa têm então de se concentrar no trabalho que têm em mãos: descobrir o assassino. Mas sem nenhum assassino óbvio entre os suspeitos que se vão prefigurando, cedo se percebe que este será um caso que não será facilmente resolvido. Embora não se trate de um caso real, o filme de Moll baseia-se num conjunto de factos que, infelizmente, ocorreram. “A Noite do Dia 12” não é essencialmente sobre o assassínio, indo muito mais longe nas suas premissas: É um filme que analisa os detectives no meio do processo e a forma como lidam com o dia a dia de uma investigação. E se o princípio dos trabalhos é marcado pelo optimismo, os momentos seguintes serão de fracasso e frustração, com um impacto negativo a todos os níveis, nomeadamente na saúde mental de alguns membros da equipa.

Estreado na edição de 2022 do Festival de Cannes e grande vencedor da última edição dos prémios Cesars, onde alcançou seis galardões, “A Noite do Dia 12” aceita correr o risco de desvendar o final à partida, sem com isso abdicar da sua dimensão de “thriller”. Dominik Moll faz questão de instilar um modelo padrão para o género, oferecendo uma série de suspeitos e respectivos interrogatórios que servem de alimento à curiosidade do espectador. Mas à medida que vão sendo apresentados, mais vai crescendo a sensação de que todos e cada um deles poderá ser o verdadeiro assassino. Pode não ser aquele género de thriller policial, sombrio e corajoso, que resulta em longas sequências de perseguição e algumas cenas gráficas de violência, mas realça o pesado fardo que advém do facto de se ter a responsabilidade de resolver os crimes mais graves que vão preenchendo a agenda mediática de uma parte importante da comunicação social e marcam, de forma indelével, o nosso quotidiano.