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quinta-feira, 11 de setembro de 2025

LUGARES: Museu Judaico de Belmonte



LUGARES: Museu Judaico de Belmonte
Rua da Portela, 4 - Belmonte
Horários | De terça-feira a domingo, das 09h30 às 13h00 e das 14h30 às 18h00 (de 01 de Junho a 15 de Setembro) e das 09h00 às 12h30 e das 14h00 às 17h30 (de 16 de Setembro a 31 de Maio)
Ingressos | Bilhete normal € 4,00


A presença de comunidades judaicas no interior de Portugal remonta à Idade Média, tendo desempenhado um papel crucial na vida económica, cultural e social de várias localidades. Durante séculos, judeus viveram em pequenas vilas e cidades do interior, onde se dedicaram a atividades como o comércio, a medicina, a ciência e as finanças. A partir do século XV, com a expulsão dos judeus de Espanha e, mais tarde, com a imposição da conversão forçada em Portugal (1496), muitas dessas comunidades foram obrigadas a praticar a sua fé em segredo, dando origem aos chamados “cristãos-novos” ou “judeus marranos”. Em locais mais isolados, como Belmonte, na Beira Interior, essas comunidades conseguiram manter tradições e práticas religiosas ao longo de séculos, preservando a identidade judaica num contexto de clandestinidade que se prolongou até ao chamado “resgate”, já em pleno século XX, graças aos esforços de um engenheiro de minas polaco radicado no nosso país, Samuel Schwartz, que viria a ser o grande investigador e divulgador da história dos judeus em Portugal.

Inaugurado em 17 de Abril de 2005 pelo então Ministro dos Assuntos Parlamentares, Augusto Santos Silva, o Museu Judaico de Belmonte constitui um marco simbólico e cultural de enorme importância na preservação da memória judaica em Portugal. Situado na vila onde a comunidade judaica conseguiu sobreviver à perseguição inquisitorial mantendo-se praticamente invisível durante mais de 500 anos, o museu é um tributo à resiliência e à identidade cultural deste grupo, mas também à coabitação e à tolerância dos habitantes de Belmonte ao longo dos tempos. O espaço museológico oferece um percurso temático que aborda a história do judaísmo em termos globais, mas também a presença dos judeus em Portugal, com especial enfoque na comunidade de Belmonte, desde a sua origem até aos dias de hoje. No espólio encontramos documentos históricos, objectos religiosos, vestuário tradicional, utensílios do quotidiano e explicações sobre rituais e festividades judaicas. Além de ser um espaço de exposição, o museu é também um ponto de encontro e reconhecimento para os descendentes dos criptojudeus e para todos os que procuram compreender esta faceta da história portuguesa muitas vezes esquecida.

Integrado na Rota das Judiarias de Portugal, o Museu Judaico de Belmonte é um dos principais polos de atracção do turismo religioso e cultural na região. A Rota das Judiarias visa mapear e valorizar o património judeu em diversas localidades do país, promovendo a recuperação de centros históricos, sinagogas, cemitérios e arquivos documentais, ao mesmo tempo que estimula o turismo sustentável e o diálogo inter-religioso. Neste contexto, Belmonte destaca-se como um caso único de continuidade judaica em Portugal, porquanto foi aqui que veio a descobrir-se que se mantinham vivas as tradições, a organização e a estrutura religiosa dos últimos judeus secretos de Portugal. Belmonte é, no limiar do século XXI, a última comunidade peninsular de origem Cripto-Judaica a sobreviver enquanto tal, atraindo visitantes nacionais e internacionais, em especial da diáspora sefardita, que procuram reencontrar as suas raízes. A importância deste tipo de turismo reside não só no seu valor económico para regiões do interior, frequentemente despovoadas, mas também na sua capacidade de promover o conhecimento, o respeito pela diversidade cultural e a valorização do património imaterial português.

sábado, 6 de setembro de 2025

LUGARES: Torre Centum Cellas



LUGARES: Torre Centum Cellas
Monte de Santo Antão - Colmeal da Torre
Horários | De segunda a sexta, das 09h00 à 17h00
Ingressos | Bilhete normal € 2,00


Situada nas proximidades de Belmonte, a Torre de Centum Cellas é um dos vestígios mais enigmáticos e emblemáticos da presença romana no interior da Península Ibérica. Construída no século I d.C., presume-se que integrava um complexo agro-industrial pertencente a uma villa romana, provavelmente de propriedade de um cidadão abastado de nome Lucius Caecillius Viator, como atesta uma inscrição epigráfica descoberta nas imediações. A sua monumentalidade e a qualidade da construção revelam não apenas o nível de romanização da região, mas também a existência de elites locais integradas nos modelos económicos, sociais e culturais do Império Romano. A localização estratégica da torre, entre os rios Zêzere e Côa e junto à importante via de comunicação que ligava Emérita Augusta (Mérida) a Bracara Augusta (Braga), aponta para a importância deste território como ponto de articulação entre o litoral e o interior romano.

Antigamente também chamada de Torre de São Cornélio, a Torre Centum Cellas é de planta rectangular e construída em silhar de granito cuidadosamente talhado. Destaca-se pela sua robustez e simetria, evidenciando técnicas construtivas romanas sofisticadas. Ainda que o seu uso exacto continue a ser motivo de controvérsia entre os investigadores — entre interpretações que a apontam como torre de armazenamento, prisão, posto militar, atalaia ou, mais consensualmente, como parte central de uma villa —, o edifício fornece dados valiosos sobre a arquitetura rural romana e sobre a adaptação dos modelos italianos às realidades provinciais. A designação tradicional de “Centum Cellas” (cem celas), provavelmente de origem medieval, sugere uma memória colectiva de grande compartimentação interna, o que reforça a teoria da sua função residencial e administrativa dentro de uma propriedade agrícola de grandes dimensões, dedicada possivelmente à produção de vinho, azeite e cereais ou à exploração dos aluviões metalíferos na confluência da Ribeira de Gaia com o Rio Zêzere.

Composta por dois pisos, a Torre reveste-se de uma evidente centralidade e imponência arquitectónica, em redor da qual se desenvolveu um conjunto habitacional que as escavações realizadas pelo IPPAR, entre 1993 e 1998, viria a revelar. Datando a sua construção inicial do século I d. C., o edifício foi parcialmente incendiado e destruído em finais do século III, altura em que foi alvo de algumas alterações, designadamente ao nível da disposição dos vários elementos que o compunham na origem. De entre este conjunto de remodelações, realçamos a presença de uma sala com abside e larário, para cuja edificação foram reaproveitados materiais pertencentes às estruturas preexistentes. Entretanto, datará da Alta Idade Média a construção de uma capela dedicada a São Cornélio sobre as ruínas da própria villa, reempregando, para o efeito, e uma vez mais, parte dos seus materiais constitutivos. Esta capela viria, no entanto, a desaparecer já em pleno século XVIII.

Do ponto de vista arqueológico e histórico, a Torre de Centum Cellas é fundamental para compreender os modos de ocupação romana no território interior da Lusitânia. Contrariando a visão de que o interior peninsular foi marginal na dinâmica imperial, este monumento demonstra que havia investimento em infra-estruturas duradouras, organização económica baseada em grandes explorações e articulação com redes regionais e imperiais. A torre insere-se assim num conjunto de vestígios que permitem mapear uma presença romana estruturada, e não meramente militar ou episódica, revelando uma paisagem profundamente transformada pela acção romana. Neste sentido, Centum Cellas é não só uma peça arquitectónica notável, mas também um documento histórico de primeira ordem para a leitura da romanização do interior ibérico.