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quarta-feira, 8 de março de 2023

LIVRO: "O Acontecimento"



LIVRO: “O Acontecimento”,
de Annie Ernaux
Título original | “L’Événement” (Éditions Gallimard, Paris, 2000)
Tradução | Maria Etelvina Santos
Ed. Livros do Brasil, Setembro de 2022 (reimpresso em Novembro de 2022)


“Milhares de raparigas subiram uma escada, bateram a uma porta atrás da qual estava uma mulher acerca de quem nada sabiam, a quem iriam entregar o seu sexo e o seu ventre. E aquela mulher, a única pessoa, então, capaz de acabar com a infelicidade, abria a porta, de avental e pantufas às pintas, com um trapo na mão: ‘Diga lá, menina!’. ”

Leio “O Acontecimento” no Dia Internacional da Mulher. Trata-se de uma casualidade, mas parece-me que faz todo o sentido associar este livro a um dia em que celebramos a coragem e determinação das mulheres que ajudaram e continuam a ajudar a redefinir a história. Em “O Acontecimento”, Annie Ernaux revisita um momento particularmente difícil da sua vida, desce de novo ao fundo de cada imagem, volta a escutar palavras ou frases “cujo sentido deveria ser à época tão insustentável ou, ao invés, tão consolador, que pensar hoje nelas me submerge ora em desgosto ora em doçura.” Numa abordagem retrospectiva, “O Acontecimento” é um testemunho pungente de uma vivência comum a tantas mulheres, mostrando o absurdo de uma lei que deixava morrer as mulheres, ao mesmo tempo que estabelece uma relação entre gravidez e fracasso social e assume a mancha de vergonha perante a reprovação dos outros.

No seu constante rodopiar, a vida nem sempre soma às mesmas causas os mesmos efeitos. É isto que Annie Ernaux começa por nos dizer, afastando-se de um veredicto no Hospital Lariboisière de Paris e aproximando-se de outro, de sentido contrário, em Rouen, quase quatro décadas antes. “Entre o método Ogino e os preservativos a um franco nas máquinas de venda”, é no episódio mais antigo que a autora concentra a sua atenção, recuando a 1963 e ao tempo em que descobre que está grávida. Um “acontecimento” milagrosamente adiado ao longo de quase dez anos mas que, agora, “aconteceu”. “Há anos que giro à volta deste acontecimento da minha vida”, escreve a autora a dada altura, deixando perceber o quão marcantes foram os momentos que envolveram a gravidez e o desmanchar do filho, o quanto os seus efeitos podem perdurar no tempo.

Escrito entre Fevereiro e Outubro de 1999, “O Acontecimento” responde a uma necessidade interior. Um beco esconso, uma mulher de avental e pantufas às pintas com um trapo na mão, um quarto escuro com cortinas nas janelas, uma bacia esmaltada onde flutua uma sonda vermelha, são apenas algumas das peças fortemente inscritas na memória da autora. O acontecimento é vivido “como o irromper de um obus ou de uma granada, a rolha de uma pipa que se solta”. Ao pôr em palavras uma experiência total de vida e morte, desgosto e lágrimas, Ernaux coloca-se por inteiro neste exercício de partilha, mostrando a realidade das mulheres e, por consequência, rejeitando colocar-se do lado da dominação masculina do mundo. Os pensamentos que se abrigam entre parêntesis, as datas como fronteiras entre a vida e a morte, o médico “clandestino” e a mulher “fazedora de anjos”, a agulha de tricô e o feto preso ao cordão, são sucessivos murros no estômago. Resta uma enorme admiração pela coragem, generosidade e coerência desta mulher, capaz de expor em texto o seu corpo e de nos lembrar que a luta continua!

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

LIVRO: "O Acontecimento"



LIVRO: “O Acontecimento”,
de Afonso Valente Batista
Ed. Glaciar, Novembro de 2014


De esperança, essa “paciência inquieta” como a define Bloch, mas também de saudade, fatalismo, desolação, ocultas figuras, opressores e oprimidos, estirpes e linhagens, premonições, malvadez, abandono e sangachos de atum, nos fala “O Acontecimento”, livro de Afonso Valente Batista surgido em finais de 2014 e que venho de visitar. Nele reencontro essa escrita viva que tanto apreciei no seu predecessor “O Muro” e, mais recentemente, em “Rebelião”, uma escrita de combate, frontal, que não se fica pela metade, antes gosta de “tratar os bois pelos nomes” e dizer as verdades tal como devem ser ditas.

Escrito no auge do magistério passista, o jugo da “troika” bem ferrado no cachaço das gentes, “O Acontecimento” é um olhar lúcido e desencantado sobre o Portugal que fomos e que somos, recuperando, com humor e uma profunda ironia, uma significativa parte da nossa História recente. Generais sem medo, jornadas de África, quedas de cadeira, claras madrugadas ou “primaveras” que são invernos, surgem ante o nosso olhar como inevitáveis acidentes de percurso, que só por momentos agitam as águas. Pelo meio, esse convívio com um quotidiano feito de banalidades, elevadas, por obra e graça de interesses obscuros, inscritos a letra miúda em torpes agendas políticas, ao patamar de “acontecimentos” que arrastam multidões e onde a populaça, cantando e rindo, lá segue embarcada.

“É preciso que algo mude para que as coisas fiquem na mesma”. Neste seu afã de recuperar memórias, é disto que “O Acontecimento” nos fala, lembrando-nos que, hoje como há cem anos, guardamos ciosamente os estigmas do provincianismo, do servilismo e da cobardia. Hoje, como há cem anos, de um lado temos políticos “ocos, vazios, pesporrentes” e, do outro, o Zé Povinho, esse saloio patético que se desdobra em manguitos nas costas do patrão, porque, à sua frente, se mostra incapaz de dizer o que pensa. Hoje, como há cem anos, assistimos aos mesmos arremedos de conveniências, controladas tolerâncias, desprezos encapotados, pequenas vinganças e ódios mesquinhos. E hoje, como há cem anos, continuamos à espera!


[Uma breve chamada de atenção para as páginas 181-182 e para esse pedacinho precioso de prosa que narra a história de Ana Sofia, “bonita, com asas de borboleta que lhe diziam que alcançaria o lado bom da vida”. Um grande momento de literatura.]