LIVRO: “A las Barricadas: Os Portugueses na Guerra Civil de Espanha”,
de Maria José Oliveira
Ed. Edições Tinta-da-china, Setembro de 2026
“A diplomacia portuguesa interveio em pelo menos doze casos de cidadãos nacionais condenados a penas de morte na Espanha nacionalista, sendo um deles voluntário da Legião Espanhola (ou Tércio de Extranjeros), sentenciado pelo crime de traição. Os pedidos foram feitos entre 1936 e 1941 por Teotónio Pereira junto das autoridades de Burgos, e depois da guerra passaram a ser encaminhados para o Ministério dos Assuntos Exteriores(MAE) ou para a Casa Militar do “Generalíssimo”. Verificou-se que Franco rejeitou os pedidos relativos a cinco portugueses (quatro residentes na Galiza e um que esteve em Madrid durante o conflito, mas que deve ter residido na Galiza); e acedeu noutros cinco casos, alterando as sentenças para trinta anos e quinze anos de reclusão. Existiu ainda um pedido para indultar António de Oliveira, condenado à morte em Granada, mas as autoridades militares responderam que a solicitação portuguesa tinha chegado já depois de este carpinteiro ter sido fuzilado.”
Há uma dimensão particularmente trágica na história dos portugueses que, procurando em Espanha o trabalho e as condições de vida que a sua própria pátria lhes negava, acabaram por se ver envolvidos numa guerra que não era originalmente a sua, mas que se tornou, para muitos, uma causa pela qual estavam dispostos a combater e a morrer. Eram, na sua maioria, homens pobres, trabalhadores indiferenciados, mineiros, jornaleiros, pedreiros e camponeses, frequentemente analfabetos, que haviam atravessado a fronteira movidos pela necessidade e não por qualquer projecto político previamente definido. Em Espanha encontraram trabalho, constituíram família, mudaram sucessivamente de ocupação e criaram raízes. Foi também ali que muitos deles adquiriram consciência política e começaram a reconhecer-se como parte de uma comunidade cujo destino já não lhes era indiferente. Quando, em Julho de 1936, eclodiu a Guerra Civil, muitos pegaram nas ferramentas, nas armas de caça e em tudo quanto pudesse servir de defesa contra o golpe militar. Homens que tinham partido para sobreviver acabavam, assim, por combater pela República de um país que, embora não fosse o seu de nascimento, se tornara o seu país de vida.
É aqui que a sua condição social adquire uma dimensão particularmente dramática. A pobreza e a incultura, entendida não como incapacidade intelectual, mas como privação do acesso à instrução, à informação e aos instrumentos necessários para compreender plenamente o mundo, tornaram-nos especialmente vulneráveis. A falta de documentos, o desconhecimento dos mecanismos políticos e jurídicos e a fragilidade das redes de protecção deixavam-nos expostos à arbitrariedade. Mas seria redutor olhar para estas vidas apenas através da condição de vítimas: muitos tinham já construído em Espanha uma identidade, uma família e um sentimento de pertença que ajudam a compreender a decisão de resistir. A inacção da diplomacia portuguesa e as reservas de Oliveira Salazar perante aqueles que pretendiam regressar à pátria aquando do conflito agravaram o abandono. Entre a permanência num território em guerra e o regresso a um país que os receberia sob a vigilância da polícia política, muitos descobriram demasiado tarde que não havia refúgio seguro. A escolha, tantas vezes imposta pelas circunstâncias, acabaria por ter consequências irreversíveis.
A ironia histórica revela-se particularmente cruel quando se acompanha o destino destes portugueses após a derrota da República. A investigação de Maria José Oliveira, desenvolvida ao longo de oito anos e assumindo uma dimensão transnacional pioneira, revela a extensão e a diversidade da repressão franquista: prisões, julgamentos pela justiça militar, condenações à morte, longas penas de reclusão, repatriamentos compulsivos, espoliação de bens e dinheiro, trabalhos forçados e exílio. A violência não se limitou, portanto, ao campo de batalha nem à execução sumária dos vencidos; prolongou-se num vasto aparelho de perseguição destinado a apagar quaisquer resistências. Sem documentos, sem protecção diplomática eficaz e frequentemente privados dos meios para reclamar os seus direitos, estes homens e mulheres ficaram à mercê de denúncias, ressentimentos e arbitrariedades. Para os repatriados, a fronteira não representava o fim da perseguição: em Portugal esperavam-nos a PVDE, a suspeita política, o Aljube, Peniche ou Caxias e, para alguns, o campo da morte lenta do Tarrafal. A repressão atravessava, assim, a própria fronteira que tantos haviam cruzado em busca de uma vida melhor.
O trabalho de Maria José Oliveira tem, por isso, um valor que ultrapassa largamente o preenchimento de uma lacuna historiográfica. Ao resgatar da invisibilidade vidas de diáspora e resistência, devolvendo nomes, percursos e biografias a pessoas que foram presas, condenadas, espoliadas, deportadas ou obrigadas ao exílio, restitui-lhes uma humanidade que a violência dos regimes procurou apagar. A sua investigação não recupera apenas combatentes esquecidos: recupera homens e mulheres que fizeram de Espanha o lugar da sua existência, dos seus afectos e da sua consciência política. Há nestas histórias uma acusação silenciosa a dois países e a duas realidades políticas: a um Portugal que condenou tantos dos seus filhos à emigração pela pobreza e pela falta de liberdade, e a uma Espanha que, depois de lhes ter permitido construir uma vida, os abandonou à perseguição e ao extermínio. Talvez a maior lição resida nesta contradição: partiram para sobreviver, criaram raízes longe da pátria e acabaram por morrer, ou por perder tudo, a defender uma sociedade onde julgavam poder viver com dignidade. Não foram heróis por destino. Foram pessoas comuns a quem a História impôs circunstâncias extraordinárias e cobrou, com uma violência desmedida, o preço da sua escolha.

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