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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Pastores e chocalhos campo fora” | José Manuel Arsénio



EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA: “Pastores e chocalhos campo fora”,
de José Manuel Arsénio
iNstantes - Propostas Fotográficas #163
Casa da Cultura de Avintes
10 Out > 07 Nov 2026


Está a chegar ao fim a exposição de fotografia de José Manuel Arsénio, intitulada “Pastores e chocalhos campo fora”. Trata-se da mais recente proposta fotográfica do iNstantes - Associação Cultural a ocupar a Casa da Cultura de Avintes e através do olhar do artista descobrimos vidas que se escrevem ao ritmo da terra, ao compasso das estações e ao som persistente dos chocalhos. Vidas que começam antes do sol se erguer, quando a madrugada ainda guarda o silêncio da noite e já os pastores se entregam à ordenha, separando crias e mães, recolhendo o leite que é princípio de sustento e promessa de alimento. Depois, campo fora, pelos plainos e encostas entre a Serra da Achada e o Cabo Espichel, acompanham os rebanhos, conhecedores de cada vereda, de cada pasto, de cada nesga de terra onde a erva ainda se faz verde. Chuva ou sol, frio ou calor, não há calendário que suspenda esta entrega. Há animais que alimentar, caminhos que percorrer e uma responsabilidade diária que não conhece domingos nem feriados.

A liberdade do pastor só o é na aparência. Onde a natureza é, simultaneamente, casa, alimento e desafio, o trabalho não dá tréguas. Ser pastor é aprender a resistir. Resistir à dureza dos dias, à escassez dos recursos, às dificuldades de uma actividade cada vez menos capaz de garantir, por si só, a subsistência de quem a pratica. É lutar contra a progressiva redução dos rebanhos, a falta de rentabilidade, a exigência de um trabalho que tantas vezes se acrescenta a outra profissão, roubando ao descanso as horas que sobram. E é, sobretudo, enfrentar a ameaça de um desaparecimento anunciado. Os mais velhos continuam, teimosamente, a percorrer os mesmos caminhos, mas os mais novos parecem já não encontrar na pastorícia razões para ficar. Falta quem queira herdar os gestos, os saberes e os sacrifícios de uma profissão antiga, feita de paciência, conhecimento e uma ligação profunda à terra. Com cada pastor que abandona o ofício, perde-se um pouco mais do património vivo de uma comunidade.

Os rostos captados pela lente de José Manuel Arsénio lembram-nos que do seu esforço nasce o queijo, uma preciosidade que tantas vezes nos chega à mesa sem que lhe conheçamos a história. Daí a importância deste trabalho. Em cada imagem há muito mais do que leite transformado. Há madrugadas roubadas ao sono, mãos calejadas, ordenhas demoradas, rebanhos conduzidos sob o peso das intempéries e uma sabedoria transmitida de geração em geração. Há o sabor da terra, a memória dos pastos e a dignidade de quem faz do trabalho uma forma de pertença. E há um produto de excelência, de riqueza singular, que não se mede apenas pelo paladar, mas também por tudo aquilo que o antecede e torna possível. Com a sua câmara, José Manuel Arsénio recolhe estes gestos, estes pedaços de vida e esta paisagem humana, dando visibilidade a uma realidade que resiste à passagem do tempo. Mais do que um testemunho fotográfico, “Pastores e chocalhos campo fora” é uma homenagem a quem ainda guarda esta tradição e um apelo silencioso para que não deixemos morrer, com os seus protagonistas, uma parte tão genuína da nossa identidade.

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