As músicas são como os rios. Atravessam o tempo, transportam memórias e mostram-se capazes de nos devolver o sonho e a poesia. Paradoxalmente, elas têm a capacidade invulgar de desenhar um mundo que preferíamos não reconhecer. Em 1978, Chico Buarque ligava o grande lago Atlântico com “Tanto Mar” e um cheirinho de alecrim, evocando a esperança e a inquietação de um tempo de mudança. Foi a partir desse mar, das suas correntes e dos seus naufrágios, que Tiago Alves nos propôs, nesta sessão #111 do Shortcutz Ovar, uma viagem pelas contradições do presente, centrando o discurso inicial nessa autêntica panela de pressão que é o Brasil, sem deixar de olhar para o resto do mundo. Um mundo cada vez mais pequeno nas distâncias que a globalização encurta, mas que cresce nos abismos que separam os homens. Um mundo onde se multiplicam muros, se fecham fronteiras e se erguem suspeitas, enquanto se ignoram as pontes que nos deveriam aproximar. De costas voltadas uns para os outros, habituámo-nos a não ver quem caminha ao nosso lado, a ignorar quem luta por uma vida mais digna, a transformar em ameaça tudo aquilo que não compreendemos. Há vidas que passam diante dos nós sem que lhes concedamos sequer o direito de serem vistas, como se a invisibilidade fosse uma condição natural e não uma escolha de todos. Entre rios e mares, as três curtas-metragens desta 111.ª sessão do Shortcutz Ovar tiveram o condão de nos levar ao encontro desse lugar incerto onde a indiferença se confunde com a sobrevivência, recordando-nos que navegar continua a ser preciso.
A sessão teve em “Alado” o seu momento inaugural, convidando-nos a sulcar as águas do Douro, um rio que parece correr ao encontro da dor. É sobre elas que navega Gastão Teixeira, cumprindo dia após dia o ritual de quem espera e guarda no olhar milhares de horas anuais de vigília, mas também os muitos corpos resgatados ao rio. Ao contrário do barqueiro Caronte, da mitologia grega, Gastão não transporta as almas, antes devolve os corpos à terra e às famílias, oferecendo ao mundo dos vivos a possibilidade da despedida, a dádiva de um luto com rosto e matéria. É desta travessia que nasce “Alado”, primeira obra de Tânia Gomes Teixeira, “filho” da longa-metragem documental “Caronte”, cuja história prolonga, entregando-a a novos olhares. A realizadora pergunta: de quem se atira da ponte, o maior contrassenso será a água ou o vôo? Talvez o abismo comece muito antes, na invisibilidade em que nos deixamos cair, neste mundo em que as tecnologias encurtam distâncias, mas nem sempre aproximam pessoas. Tão ligados, mas tão sós, cruzamo-nos de olhos postos em ecrãs, de costas voltadas para quem sofre em silêncio. O rio, porém, não desvia o olhar. Leva, traz, devolve. Na margem ou sobre as águas, Gastão permanece o guardião de uma humanidade que tantas vezes só se reconhece quando já não é possível salvá-la. De uma poética sublime, “Alado” lembra-nos que há corpos que desaparecem nas águas, mas há também vidas que se afundam à vista de todos, sem que ninguém lhes estenda a mão.
Se “Alado” fala de um rio que devolve à terra os corpos que a água reclama, “Rio Infinito” mostra que a travessia se faz no sentido inverso: é a vida que cruza o rio, todos os dias, para que a cidade desperte e continue a funcionar. Nesta primeira obra de Gonçalo Pina, o Tejo surge como estrada líquida, linha de passagem entre duas margens, mas também como fronteira entre quem pertence e quem apenas serve. A viver em Almada e a trabalhar em Lisboa, o realizador conhece por dentro este movimento pendular, esta rotina de partidas e regressos em que milhares de vidas se diluem no anonimato. Ao longo de vinte e quatro horas, três protagonistas dão rosto a quem limpa, constrói, entrega e alimenta a cidade, partindo ainda de noite e regressando quando a noite já voltou. Entre o documentário e a ficção, o filme desenha uma geografia humana feita de ausências: gente que, na diáspora, tem um pé numa terra que não é sua e o coração preso a outra margem, algures onde o mar talvez volte a ser rio. Há uma profunda carga política nesta corrente, que expõe a contradição de uma sociedade dependente daqueles que insiste em não ver, tantas vezes transformados em bodes expiatórios pelos discursos de quem governa ou ambiciona o poder. E é no prólogo e no epílogo, quando o sonho se interrompe e a dignidade reclama o seu lugar, que “Rio Infinito” parece encontrar a sua voz mais funda. Porque há travessias que não conduzem apenas ao trabalho: são viagens de sobrevivência, sonhos adiados, promessas suspensas entre partidas e chegadas. O que Gonçalo Pina nos vem dizer é que a verdadeira distância não se mede em quilómetros ou milhas náuticas, mas no espaço que cavamos entre nós e os outros. Depois de “Alado”, o Tejo prolonga a pergunta do Douro, querendo saber quantas vidas terão ainda de atravessar um rio para deixarem de ser invisíveis em terra firme.
Se nas duas obras anteriores é entre margens que a invisibilidade se desenha, em “Fronteira Azul” ela instala-se à beira-mar, onde a travessia deixa de ser rotina e se torna uma luta desesperada pela sobrevivência. Curta-metragem que fechou a noite, filme que o público elegeu como o melhor da sessão, a obra de Dinis M. Costa conduz-nos a uma cidade portuária nas margens do Mediterrâneo, numa Europa alienígena onde um barco carregado de migrantes se afunda sem que o curso dos dias se interrompa. Os guardas civis recolhem os náufragos, os turistas velejam ao sol, a roda gigante no parque de diversões prossegue a sua marcha incessante e os camiões seguem viagem, carregados de mercadorias rumo a norte. Tudo permanece no seu lugar, como se a tragédia fosse apenas mais um ruído de fundo, desses que as televisões repetem até que o horror se torne paisagem e a indiferença, hábito. Com uma mise-en-scène de quadros imóveis, uma luz cuidadosamente desenhada e uma imagem que prefere construir a narrativa a capturar o real, o filme ergue uma distopia demasiado próxima de nós, sem geografia nem horizonte, porque poderia acontecer em qualquer costa, em qualquer margem deste continente cada vez mais fechado sobre si mesmo. Os náufragos descobrem o chão de betão de uma Europa que não os vê, corpos entregues a uma terra que talvez nunca os acolha. E, contudo, a invisibilidade não pertence apenas a quem chega: estende-se também aos que assistem, aos que presenciam sem intervir, aos que aprenderam a olhar sem ver. Se o Douro devolvia os mortos e o Tejo revelava os vivos que a cidade consome, o Mediterrâneo de “Fronteira Azul” devolve-nos o espelho de uma humanidade à deriva. Que fronteira é esta, afinal? A que separa os que procuram viver dos que podem escolher como vivem, ou a que erguemos dentro de nós quando o sofrimento alheio já não nos obriga a parar para pensar?

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