LIVRO: “Amor Chega em Breve Num Volkswagen”,
de Filipa Leal
Ed. Assírio & Alvim, Outubro de 2026
“A poesia é como se conta a festa.
É poupar o outro a ouvir o que se passou na festa toda.
A poesia é quando se conta a festa.
É sobre aquela parte em que encontrámos uma pessoa especial que ninguém sabe que conhecemos e amámos durante muitos anos.
A poesia é a parte da festa que não contamos.
Ou que só contamos a quem se interessa.
É rara, quase secreta.
É curta
e nossa.”
[Filipa Leal, poema “A poesia é como se conta a festa”]
Há livros… e livros. Uns há que chegam como quem chama um Uber, sem prometer mais do que dois minutos de espera. Outros, no entanto, mal entram e logo nos desarrumam a casa, mudam os móveis de sítio e obrigam-nos a olhar o que preferíamos não ver. “Amor Chega em Breve Num Volkswagen”, de Filipa Leal, pertence às duas espécies, o que talvez explique a singularidade deste título, tão prosaico e tão disponível para o imprevisto. A poesia acontece aqui como a vida: sem pedir licença, entre uma viagem, uma recordação, um sobressalto amoroso ou uma notícia que nos interrompe o sossego. Filipa Leal conhece o poder das pequenas coisas e a desproporção entre aquilo que nos acontece e aquilo que conseguimos dizer. Por isso, o poema não precisa de se anunciar com solenidade: basta-lhe uma aplicação de transportes, um gato desaparecido, uma tampa de desodorizante que salta com a altitude, uma conversa que chega tarde ou uma pergunta que, de tão simples, nos envergonha. Há nesta escrita uma inteligência do quotidiano capaz de encontrar nele a matéria clandestina da emoção. E se a poesia é, como a autora nos explica, a maneira de contar uma festa sem contar a festa toda, este livro sabe escolher o instante, o gesto, a frase que ficaram de fora da fotografia. E é precisamente aí que começa aquilo que verdadeiramente importa.
A ironia é uma das formas mais eficazes de respiração deste livro. Filipa Leal desconfia das frases feitas, dos bons costumes da linguagem e das certezas que se apresentam de gravata, mas não faz do riso uma trincheira onde se refugie da tristeza. O humor ilumina, por vezes, aquilo que a ternura não consegue suportar à luz directa; noutras ocasiões, limita-se a puxar-nos o tapete, deixando-nos com a embaraçosa consciência de que também participamos no desconcerto. Veja-se o “Honesty Bar”, onde a honestidade convive com a vigilância, ou o amor anunciado por uma aplicação que começa a contar o tempo de espera antes de o sentimento ter conseguido fazer as malas. O cómico não é um adorno: é um método de conhecimento, uma maneira de desmascarar o absurdo sem lhe conceder a dignidade excessiva da tragédia. Mas há, sob esta superfície ágil, uma zona de sombra sempre presente. As amizades que resistem à distância, as que se perdem, o envelhecimento, o medo, a solidão e a consciência da morte atravessam os poemas como correntes subterrâneas. A autora pode falar-nos de Emily Dickinson, de viagens longínquas ou de um semáforo vermelho, e de súbito estamos perante a intimidade desarmada de quem sabe que amar é também conhecer os pequenos medos do outro. Não há aqui uma separação rígida entre o elevado e o comezinho: há a certeza de que o sublime, quando existe, costuma apresentar-se vestido de banalidade.
Seria, contudo, redutor ler este livro como uma colecção de episódios privados, por mais deliciosos ou comoventes que alguns possam ser. O mundo entra nele sem bater à porta e a poesia não desvia os olhos. Bate à porta da amiga polaca que acolhe refugiados, segue pelo mar onde a salvação de um náufrago exige que alguém o agarre pelo pescoço, mas também pelas casas onde uns fazem planos enquanto outros morrem em paz, pelas pessoas esquecidas dentro das cidades e pelas pessoas esquecidas dentro de nós. Entra também numa manifestação em que mãos vazias se tornam impossíveis de deter, e em que a liberdade, mesmo escrita com um erro de ortografia, continua a ser a palavra certa. Filipa Leal não escreve um programa político nem transforma o poema em cartaz: prefere o desconforto da pergunta, a vergonha de quem percebe tarde, o detalhe que desmente a indiferença. É aí que a sua poesia encontra uma exigência moral e uma ideia de liberdade que não se separa do pão, da habitação, da saúde ou da justiça. Talvez por isso estes poemas nos peçam tão pouco e, ao mesmo tempo, tanto: que paremos, que olhemos, que não confundamos o privilégio com a inocência. “Amor Chega em Breve Num Volkswagen” é, afinal, um livro sobre a urgência de guardarmos a nossa humanidade num mundo que se empenha em dificultar-nos a tarefa. O amor pode vir de automóvel, atrasar-se ou cobrar-nos a espera; o que não pode é encontrar-nos distraídos para sempre. Porque, no meio dos grandes desastres e dos pequenos nadas, repararmos no outro talvez seja a forma mais discreta e mais radical de começar a mudar o mundo.

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