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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

CINEMA: "Corpus Christi - A Redenção"



CINEMA: “Corpus Christi – A Redenção” / “Boże Ciało
Realização | Jan Komasa
Argumento | Mateusz Pacewicz
Fotografia | Piotr Sobocinski Jr.
Montagem | Przemyslaw Chruscielewski
Interpretação | Bartosz Bielenia, Aleksandra Konieczna, Eliza Rycembel, Tomasz Zietek, Barbara Kurzaj, Leszek Lichota, Zdzislaw Wardejn, Lukasz Simlat, Anna Biernacik, Lidia Bogacz, Malwina Brych, Bogdan Brzyski, Juliusz Chrzastowski
Produção | Leszek Bodzak, Aneta Cebula-Hickinbotham
Polónia | 2019 | Drama | 115 Minutos | M/14
Cinema Dolce Espaço
07 Fev 2020 | sex | 16:00


Mais do que uma história de redenção – individual e colectiva – aquilo que Jan Komasa nos oferece com este seu filme é uma desconstrução inteligente dos males que afectam as sociedades, em particular as que vivem fechadas sobre si mesmas. “Corpus Christi” é a história de Daniel, 20 anos, detido numa instituição para jovens delinquentes e que, fascinado pela aura e pelas palavras do padre Tomasz, que oficia nas instalações, aí vivencia uma transformação espiritual. Sentindo o chamamento da fé, Daniel quer tornar-se padre, mas a sua ficha criminal revela-se um obstáculo intransponível à entrada no Seminário. Já em regime de precária e em processo de reabilitação, o jovem é enviado para trabalhar numa pequena vila onde começa a envergar as roupas sacerdotais sem que ninguém o questione. A sua forma de estar pouca ortodoxa e descontraída torna-o particularmente popular entre os mais jovens e, graças a uma série de circunstâncias, acaba por mergulhar nos segredos que a vila encerra ao ver-se à frente da paróquia local.

Inspirada em factos verídicos, a história deste encontro de uma alma perdida com Deus poderia ter resultado num “pastiche” de mau gosto sobre a fé e a religião ou mesmo num manifesto violento contra a Igreja Católica. “Corpus Christi”, o candidato polaco ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, não é nem uma nem outra coisa. Aqui, todos têm o seu lado claro e escuro, ninguém é simplesmente bom ou simplesmente mau, a começar pela personagem de Daniel, numa superior interpretação de Bartosz Bielenia. Apesar de sentir em si um “chamamento”, continua a ser a mesma pessoa de sempre. Não muda, de um momento para o outro, de um Saulo brutal para um Paulo angelical. Mantém o seu carácter violento, estabelece as suas próprias leis, mas tem uma moralidade própria que o impele a tentar corrigir aquilo que, aos seus olhos, é errado e a sentir um amor genuíno pelos seus semelhantes – em especial pelos mais desfavorecidos.

Com “Corpus Christi”, Jan Komasa reflecte sobre a Igreja de modo particularmente crítico, mas sem a demonizar. A duplicidade de comportamentos dos habitantes desta vila é igualmente colocada em evidência, daí resultando um retrato fiel das sociedades fechadas, abrigadas sob o manto da hipocrisia, dogmatismo, fanatismo, aparências e ostracização, que fazem tábua rasa das instituições e não hesitam em fazer justiça pelas próprias mãos. Entre o thriller trepidante e o drama comovente, “Corpus Christi” recusa julgamentos de qualquer espécie, apelando à colaboração franca contra o ódio cego. O convite de Jan Komasa não é para uma assembleia onde todos os pecados possam ser expurgados. Se, em termos colectivos, tudo parece querer desmoronar-se, é no nível individual que percebemos que todas as portas permanecem abertas e cada personagem deverá seguir o seu caminho em função da vontade ou do crer.

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