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sexta-feira, 15 de março de 2019

CINEMA: "Rosie - Uma Família Sem Teto"



CINEMA: “Rosie – Uma Família Sem Teto”
Realização | Paddy Breathnach
Argumento | Roddy Doyle
Fotografia | Cathal Watters
Montagem | Úna Ní Dhonghaíle
Interpretação | Sarah Greene, Moe Dunford, Ellie O’Halloran, Ruby Dunne, Darragh Mckenzie, Molly McCann, Paul Alwright, Fiona Ashe, Killian Coyle, John Dalessandro, Emma Belle Jenkins
Produção | Juliette Bonass, Rory Gilmartin, Emma Norton
Irlanda | 2018 | Drama | 86 minutos | M/12
Cinema Dolce Espaço
14 Mar 2019 | qui | 16:00


"Desculpa". Talvez seja esta a palavra mais escutada ao longo de “Rosie”, quase como um grito desesperado saído da boca desta mãe de quatro filhos que não tem como não se sentir em falta perante as carências que a própria família experimenta. Relato do drama humano inerente a essa odisseia de pequena escala em busca de um lugar para dormir em Dublin, numa altura em que a crise imobiliária atinge a capital irlandesa com toda a brutalidade, “Rosie” detalha, sóbria e subtilmente, a forma como aqueles que escorregam e caem nas fissuras crescentes da nossa sociedade são levados a sentir-se culpados por uma situação para a qual, definitivamente, não contribuíram.

Quem entre nós não pensou já no quanto há de errado em tudo isto, ou não sussurrou mesmo um pedido de desculpa, ao passar por uma alma perdida na rua, sem tecto, à deriva no meio dum tudo que é nada? Se um único caso de sem-abrigo é uma tragédia, dez mil é uma estatística e, nesse sentido, “Rosie” é menos um esforço para colocar um rosto nos dados e números e mais uma chamada de atenção para o facto de que pedir desculpa não basta. A estigmatização na escola vive dos filhos de Rosie; a desconfiança dos hotéis perante a ideia de um alojamento de emergência alimenta-se de famílias como as de Rosie; e o desespero está bem à vista de todos nos esforços de Rosie para acondicionar na mala de um carro os sacos volumosos onde se resumem vidas inteiras. Há um sentimento de vergonha que atravessa todo o filme, mas há também uma enorme convicção de que são as pessoas erradas aquelas que estão obrigadas a senti-la.

Paddy Breathnach consegue essa proeza extraordinária de fazer de “Rosie” um road-movie sem sair do lugar: de forma claustrofóbica, captura seis pessoas no interior do carro, a família enquadrada de forma icónica numa estrutura que simboliza um progresso que lhe é completamente negado. O realizador reforça esta ideia de paradoxo ao seleccionar criteriosamente as paisagens de Dublin apenas pela sua metade menos atractiva, sugerindo as ironias implícitas neste conto de “duas cidades”. E depois há Sarah Greene, na personagem de Rosie, plena de versatilidade e de contenção emocional, a coragem mantida no rosto para o bem das crianças, a dignidade na pose a mascarar a dura realidade da luta diária pela sobrevivência. “Rosie” é um daqueles “murros no estômago” que magoa verdadeiramente, porquanto nos faz sentir, na sua dimensão mais trágica, o peso da palavra “desculpa”.

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