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quinta-feira, 12 de julho de 2018

TEATRO: "Hoje Jogamos em Casa"


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TEATRO: “Hoje Jogamos em Casa”,
de Tanya Ruivo e Rafael Polónia
Encenação e cenografia | Tanya Ruivo
Interpretação | Carolina Gonçalves, Fausto Dias, Gonçalo Barros, Inês Afonso, João Lopes, João Macedo, Júlia Pinto, Marta Magalhães, Santiago Valente
Produção | Conversa Própria
Salão irmãos Unidos
06 e 07 Jul 2018 | sex e sab | 21:30


“(...) E depois olho para mim a sair do supermercado, ao fim do dia, de saco vazio e a chegar a casa e lá está ele, o mânfio que vi crescer, ali, e tenho de lhe falar para ele me responder, ou não o ouço até ao momento em que me diz que já vem (…) Pá, e vocês não eram iguais? Não éramos iguais? Quantas vezes não nos pusemos na alheta e desaparecemos, sem que ninguém nos pusesse a vista em cima o dia inteiro?”. Foi neste tom crispado, de fúria contida e nervos à flor da pele, que o colectivo Conversa Própria surgiu em palco na apresentação da sua mais recente produção, “Hoje Jogamos em Casa”, um trabalho que aborda os dilemas da adolescência na transição para a idade adulta e os reflexos desta fase problemática na ordem familiar.

Transformado em quadra de jogo, o palco é o local onde se descarregam todas as emoções, de euforia, indecisão, dúvida e frustração feitas. Os actores ora são apenas filhos, ora são apenas pais, ora se repartem, em simultâneo, entre pais e filhos, para abordar temas tão prementes como os laços familiares, a escola e o emprego, os desafios da identidade ou a consolidação da autonomia, mas também a infedelidade, a sexualidade, a eterna insatisfação, a forma como mentimos a nós próprios ou como muda o eu à medida que tudo muda à nossa volta. Não exactamente uma guerra mas, decisivamente, um confronto com uma dimensão interior do tamanho do mundo, este embate evidencia um turbilhão de mudanças nas quais o risco faz parte do processo e onde os amigos constituem um verdadeiro porto de abrigo.

Na linha dos trabalhos anteriores – sobretudo do iniciático “FALSOS dEUSES”, do qual surge quase como um prolongamento -, “Hoje Jogamos em Casa” é um exercício de teatro com enorme solidez, ancorado num texto realista e muito bem interpretado por este naipe de jovens actores, muitos deles com provas dadas (quem não se lembra de “Atalhos”, de Joana Craveiro, que este colectivo levou à Culturgest, na fase final do PANOS 2017). Mérito ainda para a encenação de Tanya Ruivo, encontrando soluções de grande dinamismo e fluidez nos momentos mais marcantes, nomeadamente na hilariante cena da piscina, os baldes de água fria a sucederem-se a cada nova revelação. Teatro do real, teatro que mexe e obriga a reflectir, “Hoje Jogamos em Casa” é mais um grande momento na história do colectivo e a afirmação dum projecto que tem de continuar em frente. Com muita força e ambição!

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