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quarta-feira, 30 de maio de 2018

VISITA GUIADA: "Vista Alegre - Uma Questão de Urbanidade"


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VISITA GUIADA: “Vista Alegre – Uma Questão de Urbanidade”
Orientada por | Sofia Senos
Organizada por | 23 Milhas, Talkie-Walkie
Laboratório das Artes Teatro da Vista Alegre
26 Mai 2018 | sab | 10:30 – 13:00


De regresso às visitas guiadas do ciclo “Olhar por Dentro”, iniciativa do projecto cultural do Município de Ílhavo, 23 Milhas, em parceria com a empresa Talkie-Walkie, espaço para a abordagem ao tema “Vista Alegre - Uma questão de Urbanidade” a preencher o programa de Maio. Orientada pela arquitecta Sofia Senos – co-responsável, entre outros, pelo aclamado projecto das instalações sanitárias do cemitério de Ílhavo – a visita pretendeu dar a ver, de um ponto de vista arquitectónico e urbanístico, o processo evolutivo da povoação idealizada e fixada em 1824 em torno da Real Fábrica de Porcelana até aos nossos dias, incidindo sobretudo nas intervenções por altura do centenário da fábrica e do seu envolvimento e reflexos em contexto urbano e no plano industrial europeu.

A Visita Guiada teve o seu início numa das dependências do Laboratório das Artes Teatro da Vista Alegre, com Sofia Senos a projectar um conjunto importante de imagens que permitiram contextualizar a urbanidade do lugar e enumerar os principais momentos evolutivos, relacionando-os com o contexto de modernidade das vanguardas europeias. Em destaque estiveram as intervenções por altura do centenário da fundação da fábrica, levadas a cabo na vigência de João Theodoro Pinto Basto, repensando a fábrica, recuperando-lhe o prestígio e devolvendo-lhe a excepcionalidade. É neste contexto que se assiste ao aumento e requalificação do bairro, à integração de novos operários (passando dos 224 em 1890, para os 400 em 1920 e chegando aos 600 quatro anos depois), à entrega de encomendas a artistas consagrados, ao relançamento das aulas de desenho ou à grande exposição no Museu Nacional de Arte Antiga, envolvendo nomes como Leitão de Barros, Simões de Almeida, João da Silva, Delfim Maia, Américo Gomes, Roque Gameiro, Raul Lino e outros.

Já no terreno, foi possível perceber a dimensão da obra, particularmente na sua vertente arquitectónica e urbanística coincidente com o momento da requalificação, a qual não se limitou à construção de casas, cuidando também dos espaços exteriores e comuns, bem como dos aspectos relacionados com a sua manutenção e limpeza, distribuição de água e luz, espaços verdes e proliferação de pequenos serviços. São mais de 70 habitações distribuídas ao longo de ruas desenhadas e arborizadas, ora de forma regular ou mais orgânica, com edifícios heterogéneos, de habitação colectiva ou isoladas, ou ainda em “correnteza”, a maioria delas com jardins e quintais. Perceber até que ponto a Vista Alegre é um dos poucos casos portugueses em que uma iniciativa totalmente privada e filantrópica dá origem a uma aldeia industrial desta escala, isolada de outros aglomerados urbanos e autossuficiente, acabou por ser um dos aspectos mais interessantes desta Visita.

A iniciativa permitiu ainda tomar contacto com algumas singularidades do espaço e da sua organização social, desde a existência dum edifício que abrigava o teatro e que pretendia incutir nos operários uma sensibilidade artística, à formação, em 1880, do Corpo de Bombeiros Privativo da Vista Alegre, o mais antigo do género no País, passando pelo Sport V. Alegre Club, fundado em 1921 e que dirigia a sua actividade, essencialmente, para o futebol, ainda pela Bela Sombra (Phytolacca dioica L.), árvore classificada de interesse público ou pela Capela da Nossa Senhora da Penha de França, mandada edificar em finais do século XVII pelo Bispo de Miranda, D. Manuel de Moura Manuel, e em cujo interior se destacam os azulejos seiscentistas de Gabriel del Barco, os retábulos em mármore e talha dourada, as abóbadas decoradas com belíssimos frescos e o imponente túmulo episcopal de D. Manuel de Moura Manuel, magnífico trabalho em pedra de Ançã, da autoria do artista Claude Laprade, e um dos elementos de maior relevo desta capela.

Mas esta Visita Guiada não ficaria completa sem uma menção ao Arquitecto Raul Lino e à influência do seu trabalho na urbanidade da Vista Alegre (importa lembrar que Raul Lino executou alguns projectos para porcelana na Fábrica da Vista Alegre, a partir de 1922, pouco antes das intervenções profundas no bairro social, embora não se conheça um único projecto com a sua assinatura referente ao bairro operário). Apesar de bastante heterogéneo, o bairro da Vista Alegre oferece, contudo, uma imagem coerente e harmoniosa, de casa portuguesa (conceito desenvolvido por Raul Lino, 1933), que unifica todo o bairro. Sofia Senos apontou alguns exemplos como a utilização de diagonais na composição de algumas plantas, na construção de alpendres, o cuidado com os espaços exteriores, funcionando como um denominador comum nestas diferentes abordagens e que vai bastante além do branco das paredes e do emolduramento dos vãos a amarelo característico do bairro. Há características formais dos edifícios, nas suas plantas ou em elementos construtivos, quer nas casas operárias, quer nas casas mais senhoriais, que remetem aos projectos, estudos e teorias de Raul Lino e, por isso é notória a sua influência na linguagem do bairro. Ainda que esta afirmação possa ser meramente teórica!

[Texto construído com recurso a passagens de “Vista Alegre – Um Espaço Urbano Industrial”, de Sofia Senos, em http://revistas.lis.ulusiada.pt/index.php/fa/article/viewFile/309/289]

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