Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Teatro de Objectos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Teatro de Objectos. Mostrar todas as mensagens

domingo, 2 de fevereiro de 2025

TEATRO: "War Maker"



TEATRO: “War Maker”
Direcção | Husam Abed
Dramaturgia | Marek Turošik
Direcção artística | Astrid Mendez
Cenografia | Katarina Cakova, Astrid Mendez
Produção | Dafa Theatre
50 Minutos | Maiores de 12 Anos
A SEDE
31 Jan 2025 | sex | 2130


“Sabes exactamente o que deixaste para trás: um passado que não figura em canções sobre os novos troianos, dos quais nada é dito a não ser o que os inimigos relatam. Mas eles não raptaram Helena nem causaram a guerra. Eram bondosos e pacíficos, o seu único crime foi terem nascido em encostas comparadas às escadas que conduziam a Deus. Eram corajosos sem espada, espontâneos sem retórica, pelo que alquebraram diante dos tanques, foram deslocados e espalhados pelo vento sem perderem a fé no dia em que a ferida da História sararia. // Portanto, quem és tu nesta viagem? Um poeta troiano que escapou ao massacre para contar a história, ou uma mistura de troiano e grego que se perdeu a caminho de casa?”
Mahmoud Darwish, in Na Presença da Ausência

Baseado na história real do artista palestiniano Karim Shaheen, “War Maker” é um exercício de teatro simples e eficaz, relevante na sua genuinidade, determinante na sua autenticidade, significativo na sua mensagem. Acompanhando o percurso de exílio de Karim - do Iraque ao Kuwait, da Síria à antiga Jugoslávia, da Hungria aos Estados Unidos - a peça faz-se de memórias estilhaçadas, onde se cruzam os namoros e o sofrimento de quem perdeu um braço, as sirenes que anunciam os ataques aéreos e um balde de pipocas, crianças recrutadas para servir no exército e soldadinhos de chumbo, o som dos bombardeamentos e a saga da Guerra das Estrelas. Sozinho em palco, rodeado de malas que são, como veremos, lugares de passagem num trajecto marcado por violentos conflitos armados, Husam Abed opta pela língua árabe (com legendas em inglês e português) para contar os sonhos e pesadelos de uma criança obrigada a fugir constantemente da guerra que tudo queima em redor, o que a leva a questionar-se se não será ela uma “war maker”, a grande causadora de tudo o que acontece à sua volta, para onde quer que se desloque.

Encenador, realizador, intérprete, marionetista, músico e produtor, Husam Abed conheceu Karim Shaheen no campo de refugiados de Yarmuk, em Damasco, na Síria. Foi aí que soube da sua enorme paixão por filmes de ficção científica e do seu sonho de vir a tornar-se um designer de efeitos visuais na Estados Unidos da América. Deportado da Síria em 2000, deu por si exilado na Jugoslávia e na Rússia, depois na Ucrânia, na Roménia e na Hungria, até chegar aos Estados Unidos, o país com que sempre sonhou, graças ao seu labor artístico e ao reconhecimento do seu trabalho. Mas será que a história acaba aqui, conhecidas que são as políticas da administração Trump em matéria de imigração? Um respeitador silêncio toma conta da sala. Ante o olhar do público, é o drama de milhões de refugiados que se concentra numa só pessoa, dividida entre o amor, os sonhos e as ligações familiares. Memórias da guerra, questões identitárias e exemplos da fragilidade humana fazem do palco uma verdadeira caixa de ressonância, chamando a atenção para uma realidade que constitui uma mancha vergonhosa na face da Humanidade.

Estreada em 2022, “War Maker” combina performance teatral, arte visual, teatro de objectos e meios multimédia. É uma forma de teatro alternativo, que documenta e ficciona, ao encontro de uma prática pública que pretende expressar e abordar questões e preocupações que se colocam às comunidades onde é apresentada. Mais do que uma forma de entretenimento puro e simples, a peça é um meio de auto-expressão, que desafia estereótipos, promove a consciencialização cívica e conecta pessoas por meio do teatro. A produção é do Dafa Theatre, companhia sediada em Praga, na Chéquia, e cujo nome, “Dafa”, provém do árabe e significa “calor”. Um calor que conforta e que se estendeu ao público que, n’A SEDE, foi livre de imaginar, sonhar e reforçar a convicção de que é urgente agir em prol da construção de uma sociedade mais justa e solidária. “Dafa” é, assim, o oposto de isolamento e alienação. É o que resiste quando os direitos humanos são violados, quando falham a educação e a saúde, quando a água e o ar são contaminados, quando os recursos naturais estão nas mãos de apenas alguns. Contra tudo isto, o Teatro resiste. O Teatro é liberdade!

[Foto: Dafa Theatre | https://dafatheater.com/]

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

TEATRO DE OBJECTOS: "Perpetuum Mobile"



TEATRO DE OBJECTOS: “Perpetuum Mobile”
Criação, texto, dramaturgia, direcção e interpretação | Merce Tienda
Iluminação | David Durán
Desenho gráfico | Ana Jimenez
Video | MementoNet
50 Minutos | Maiores de 8 anos
A Sede
28 Out 2022 | sex | 22:00


O espaço d’A SEDE acolhe, até ao próximo sábado, o iNpróprio - Encontro Independente de Teatro Contemporâneo de Marionetas e Objectos na Sede. São seis as peças que integram a iniciativa, a primeira das quais, “Perpetuum Mobile”, teve lugar na noite da passada sexta feira. De Valência, Merce Tienda trouxe-nos um espectáculo de teatro de objectos, pequeno na sua duração mas enorme no contexto e significado das suas mensagens. Em jeito de apresentação, começa por dizer: “Sou Merce. Tienda. Como soa. Como uma tenda. Uma loja.” Nas mãos, um vasto conjunto de volumes, como quem está de partida. Nas palavras, o seu amor pelas coisas. Pelos “objectos lindos, perdidos, velhos, elásticos, partidos, brilhantes… objectos que representam momentos e objectos de pessoas.” Serão esses mesmos objectos, com as suas cores e texturas, as suas formas e volume, que, saídos das caixas e malas onde se encontram guardados, ganharão vida nas mãos da actriz, ao mesmo tempo ajudando a contar uma história que nos diz que, com maior ou menor esforço, temos em nós essa capacidade de nos levantarmos de cada vez que caímos. Ficarmos parados em frente a uma janela a olhar o mar - e a ser olhado por ele - não é solução.

Porque a vida é feita de ciclos, e ainda que Leonardo Da Vinci o tenha preconizado, a ideia de movimento perpétuo não se aplica aos objectos - de cada vez que lançamos um pião, sabemos que não ficará a rodar eternamente e, daí, prepararmos o baraço para voltar a lançá-lo. É isso que Merce Tienda nos vem lembrar, recuando ao pior dia que a vida na Terra já suportou quando um asteróide se tresmalhou do espaço sideral e levou a uma extinção em massa que dizimou mais de 75% das espécies existentes. Recorrendo aos mais variados objectos que vai dispondo num pequeno tapete, a actriz avança a uma velocidade furiosa até aos dias de hoje, onde a destruição dos habitats, o uso excessivo de recursos naturais, a introdução de espécies invasoras, a poluição e as alterações climáticas, levam a que a comunidade científica considere que caminhamos para uma nova extinção em massa, 66 milhões de anos depois da anterior. Do geral para o particular, Merce Tienda fala-nos de si e da sua família, da forma como, a cada novo desafio, se forjaram novas soluções, numa história que cruza Sagunto e as praias do Levante com Madrid e Barcelona, turistas e hotéis com o negócio das paellas, Blasco Ibañez e Hemingway com Claudio Tolcachir e Xavier Bobés, a Guerra Civil de Espanha com dois espectadores na plateia.

Ficará sempre muito por dizer de um espectáculo que, com enorme subtileza, faz questão de colocar o dedo numa série de feridas. Que o faz com a verdade e a clarividência de quem sabe estar atento ao mundo à sua volta e, assertivamente, o questiona. A partir daqui, todo o mérito deve ser assacado à actriz ao fazer-nos acreditar em si e no seu mundo, que é também o nosso. Actriz todo-o-terreno, Merce Tienda tem trabalhado nas áreas do teatro, cinema e televisão, foi jornalista e locutora, viajou pelos quatro cantos do mundo, com representações tanto no Dubai ou em hospitais de África como no Kennedy Center de Washington. Estudou dança e arte dramática, praticou râguebi e futebol e começa agora a dominar o Kung Fu e o ukelele. Toda esta experiência e saber é colocada ao serviço de “Perpetuum Mobile”, uma peça que tem no monólogo inicial um momento de enorme emoção e cujo dinamismo a aproxima do teatro físico. Na memória permanecerá também a mímica da actriz, os seus extraordinários dotes de comunicadora e a forma como, com a ajuda de uma lata, um xaile, uma colher de pau, uma travessa e uns grãos de arroz, nos apresenta a sua avó. Uma peça genial a todos os títulos.