Páginas

Mostrar mensagens com a etiqueta Rui Miguel Abreu. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rui Miguel Abreu. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 7 de abril de 2026

CERTAME: Ovar em Jazz 2026



CERTAME: Ovar em Jazz 2026
Com | Anna Setton Quartet, Carlos Bica Quarteto, Marius Preda, Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal com John O'Gallagher
Centro de Artes de Ovar
08 > 11 Abr 2026


A partir de amanhã, e até ao próximo sábado, a cidade de Ovar volta a ser o epicentro do jazz nacional com a chegada do Ovar em Jazz, este ano a cumprir a sua oitava edição. Capaz de projectar a cidade no circuito internacional e de atrair tanto nomes consagrados como novas propostas artísticas, o festival recebeu, ao longo das suas anteriores edições, nomes como os de Amaro Freitas, Ricardo Toscano, Mário Costa, Marc Ribot, João Lencastre, Carmen Souza, Abe Rábade, Hugo Carvalhais, Carlos Bica, Andy Sheppard, Stefano Battaglia, Maria João, Danilo Pérez ou Tigran Hamasyan, entre muitos outros. Espelhando a sua consistência e ambição artística, prepara-se agora para mais quatro dias do melhor jazz, afirmando-se como um espaço de encontro entre a tradição e a vanguarda. Sob o lema “Jazz sem Fronteiras”, o certame volta a apostar no cruzamento de linguagens, geografias e gerações musicais, propondo, mais do que uma sucessão de concertos, uma experiência imersiva que se irá desdobrar entre Auditório, Caixa de Palco e Bar do Centro de Artes, envolvendo o público numa vivência plural e contínua.

À semelhança dos anos anteriores, a edição de 2026 mantém uma elevada linha de exigência, apresentando um cartaz que cruza nomes nacionais e internacionais de reconhecido mérito. Entre os destaques encontra-se o virtuoso romeno Marius Preda, que vamos poder ouvir na noite de sexta feira e que traz ao festival o projecto “Phenomenon”, síntese de mais de três décadas de carreira, onde o címbalo ganha protagonismo num diálogo entre tradição clássica, influências folk e improvisação contemporânea. A abrir o certame, já esta quarta feira, a cantora brasileira Anna Setton marca presença com um quarteto que funde jazz com bossa nova e MPB, num registo sofisticado e luminoso. Carlos Bica regressa ao festival com “11:11”, projecto de forte identidade melódica e intensidade expressiva, reafirmando o seu lugar como uma das figuras maiores do jazz português. Também a Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal regressa ao festival, desta vez na companhia do saxofonista nova-iorquino John O’Gallagher, num encontro que cruza tradição e contemporaneidade e que promete encerrar em beleza esta edição do certame.

Para além dos concertos em sala, o Ovar em Jazz expande-se pelos mais diversos espaços do Centro de Artes, incorporando a gravação ao vivo do programa “Notas Azuis”, da Antena 3, com curadoria de Rui Miguel Abreu, bem como DJ sets, mostras de vinil e projectos emergentes. Iniciativas como o Ovar Jazz Collective, orientado por João Martins, reforçam a aposta na criação e valorização do talento local, estabelecendo pontes entre formação e performance. Ao mesmo tempo, propostas como Mantis, Fourward ou Oxímoro evidenciam a vitalidade de uma cena que recusa fronteiras estilísticas e procura novas formas de expressão. Neste equilíbrio entre memória e experimentação, o festival prossegue o seu trajecto de afirmação como espaço singular de liberdade criativa e de encontro cultural, entendendo o jazz não apenas como género musical, mas como linguagem aberta e em permanente transformação. O programa completo pode ser consultado na página Ovar/Cultura, em https://cultura.cm-ovar.pt/pt/menu/734/ovar-em-jazz.aspxAté jazz!

domingo, 13 de julho de 2025

CERTAME: FESTA - Sons da Lusofonia (I)



CERTAME: FESTA - Sons da Lusofonia
Com | A Garota Não, Cara de Espelho, Cacique 97
Parque Urbano de Ovar
11 Jul 2025 | sex | 18:00 às 00:30


O FESTA – Sons da Lusofonia regressou a Ovar para a sua décima edição. Ponto de encontro de toda a comunidade, ao longo de dois emotivos e intensos dias o Parque Urbano da cidade transformou-se num espaço de celebração da diversidade, inclusão e participação activa, através de um conjunto de actividades voltadas para os mais diversos públicos. Ponto alto da FESTA, os concertos viram-se repartidos por três palcos, reunindo artistas brasileiros, cabo-verdianos, moçambicanos e portugueses, para dez momentos musicais a trazerem consigo a promessa de comunhão em torno da melhor música. Novidade nesta edição do FESTA foi o “Lugar das Infâncias”, uma aldeia para brincar e descobrir um mundo plural e tolerante, onde os mais novos e suas famílias se sentiram convidados a explorar a diversidade cultural através de histórias, brincadeiras, gestos, sons e silêncios. O jornalista Rui Miguel Abreu repetiu a presença no FESTA, moderando um vasto conjunto de conversas que se abriram em criação, memória, liberdade e futuro, num “Dar à Língua” que aproximou artistas e público. E foi justamente por aqui que o FESTA teve o seu início, com os Cara de Espelho a fazerem a antevisão do primeiro de dois concertos previstos para a noite do primeiro dia e com a apresentação do Livro “Festa - Sons da Lusofonia: Da Revolução ao Ritmo - 50 anos do 25 de Abril em Sons Lusófonos”, um trabalho que reúne todos aqueles que passaram pelas conversas em 2024, edição muito especial a assinalar o cinquentenário do dia inicial inteiro e limpo.

Depois de um dia cinzento e chuvisquento, o Sol disse “olá” à tarde de sexta feira e foram muitos aqueles que responderam à chamada para o concerto de abertura do FESTA. No fantástico anfiteatro natural em frente ao Palco Verde, uma numerosa assistência dispôs-se a ouvir A garota não, a sua música, as palavras sempre incisivas e mordazes apontadas a uma certa classe dirigente que teima em negar os valores da liberdade, igualdade, justiça e democracia, afirmando o seu poder pela opressão e exploração dos mais fracos e vulneráveis. Com Sérgio Miendes e João Mota nas guitarras e Diogo Sousa na bateria, A garota não fez questão de mostrar que “não é não”, na denúncia de “um país que não é para mães”, onde “toda a gente aceita o saque” e “há bestas no lugar de deputados”. Do novíssimo “Ferry Gold”, os temas são “disparados” com força e raiva, penetrando as consciências do público e arrancando-lhe aplausos vigorosos. Seguiu-se um “medley” com cinco temas do segundo álbum de estúdio da artista, “2 de Abril”, e de novo o retomar de “Ferry Gold”, no “train a curtir Coltrane” para se concluir que “a vida é uma roleta com cinco balas no tambor”. A terminar, pois que se privatize o mar e o céu, a justiça e a lei, a nuvem que passa, o sonho (sobretudo se for diurno e de olhos abertos). “E, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos”. A mim parece-me bem!

Os Cara de Espelho abriram as hostilidades do segundo momento deste dia inaugural, alinhando pelo diapasão da música de denúncia e protesto, tão necessária nos dias que correm. Banda revelação no ano passado com o lançamento do álbum homónimo, os Cara de Espelho começaram por assumir a sua condição, sendo o reflexo do numeroso público que fez questão de os aplaudir. Reflexo, afinal, de quem olha para si e não gosta do que vê, que tem na banda uma via aberta à reivindicação e ao murro na mesa. Na voz de Maria Antónia Mendes, “Mitó para os amigos”, “Tratado de Paz” foi o primeiro tema da noite, ao qual se seguiram “Cara Que é Tua” e um poderoso “Corridinho Português”, “a juntar a malta numa boa”, porque “triste é quem fica a ver dançar”. Animado, o concerto prosseguiu quase em forma de comício. Na plateia, “livres criaturas” gritavam “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais”, enquanto no palco se louvavam as benesses dos paraísos fiscais e se rogava a S. Pedro que “[nos] receba no seu Portal das Finanças”. Com as letras e músicas de Pedro da Silva Martins e a magia dos instrumentos de Carlos Guerreiro, Nuno Prata e Sérgio Nascimento, entre outros, o concerto levou-nos do “Fadistão” ao “Ministério do Anonimato”, até parar no “Dr. Coisinho” e na sua “coisificação do dedo”, a plateia com os dedos médios de ambas as mãos espetados no ar, numa coreografia impressiva que as luzes amplificaram. Na despedida, um alerta para as varejeiras - “[que] anseiam pobreza, fomentam o asco, a náusea e o nojo” - e uma pergunta: “Em qual de vós é que ela vai poisar?”

A fechar a noite, os Cacique 97, banda pioneira do Afrobeat, ofereceram um magnífico momento, feito de ritmo, história e força coletiva. Espécie de “Best of” dos seus dois álbuns de estúdio - “Cacique 97” (2009) e “We Used to be Africans” (2016) -, o concerto mostrou uns “caciques” em grande forma, pondo em palco um género popularizado em África na década de 1970 e que se espalhou ao mundo. Fiel ao conceito musical do género e ao seu cunho político de denúncia e protesto, esta big band não esqueceu o papel criador do multi-instrumentista e nigeriano Fela Kuti, num impactante e revelador “Come from Nigeria”. Liderada pelo guitarrista e vocalista Milton Gulli, a banda manteve em diálogo constante, livre e rico, uma poderosa secção rítmica, onde pontificou Marisa Gulli (que dá também apoio nas vozes), com um naipe de metais firme e assertivo, cruzando o groove africano com a alma lusófona, num som de combate e celebração. Ritmos quentes, letras de intervenção e uma energia contagiante era tudo o que o público esperava, reagindo com o embalar dos corpos e algumas coreografias improvisadas sobre o anfiteatro verde de um Parque Urbano em ebulição. “American Cop”, “Jorge de Capadocia”, “Get no Stronger”, “13”, “Dragão” ou “Letter to the Martyrs”, novíssimo single da banda e que denuncia a ocupação, a colonização e o genocídio do povo da Palestina, foram temas trazidos a palco com enorme força, numa despedida em grande do FESTA, ao final do seu primeiro dia.