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domingo, 12 de abril de 2026

CONCERTO: "Phenomenon" Marius Preda | Ovar em Jazz 2026



CONCERTO: “Phenomenon” Marius Preda
Com | Marius Preda (címbalo, acordeão e violino), Taco Gorter (bateria), Kiba Dachi (baixo)
Ovar em Jazz 2026
Centro de Artes de Ovar
10 Abr 2026 | sex | 21:30


À semelhança do que sucedera na edição anterior com Tigran Hamasyan, o terceiro e penúltimo dia do Ovar em Jazz 2026 extravasou as fronteiras do mero concerto para se afirmar, tanto de um ponto de vista estético como filosófico, como um momento de reflexão sobre o lugar do jazz no universo da música. Não haverá, na verdade, género em cujo “saco” caibam mais estilos, modos, tempos ou conceitos, mas aquilo que Marius Preda mostrou foi algo de completamente diferente: um estilhaçar das convenções sobre a forma de “fazer jazz”. No centro das atenções esteve o címbalo - instrumento milenar, de ressonâncias que nos fazem recuar a Marco Polo e às caravanas que atravessavam a Rota da Seda -, reinventado com uma ousadia rara. Multi-instrumentista de recursos inesgotáveis, Preda abordou o instrumento, não como curiosidade étnica, mas como veículo principal de uma linguagem própria, híbrida e em permanente mutação. Estendendo o seu virtuosismo ao piano e ao acordeão, aquilo que o músico mostrou foi algo de difícil classificação, o concerto a orbitar o fascinante mundo dos “fenómenos” e a deixar o público mais preso à actuação do que à música em si.

Com “Mission Cimbalon”, o tema que abriu a noite, rapidamente se percebeu que Marius Preda não veio a Ovar apenas para apresentar um instrumento pouco habitual no léxico jazzístico, antes para reconfigurá-lo enquanto eixo narrativo, capaz de sustentar composições densas, ritmicamente incisivas e emocionalmente expansivas. E isso foi evidente ao longo de um concerto de curta duração mas de enorme intensidade, capaz de roubar o fôlego até aos mais habituados a estas andanças do jazz. Assente num trio que contou com os contributos do baterista Taco Gorter e do baixista Kiba Dachi, o concerto evoluiu através de um discurso sonoro que soube tirar partido da enorme fluidez entre géneros. Particularmente marcante foi a forma como o címbalo, com o seu timbre percussivo e metálico, se integrou na malha rítmica, ora funcionando como motor, ora como elemento melódico de grande subtileza. Envoltos numa energia febril e num rigoroso sentido formal, apontamentos de jazz latino, sugestões de música árabe, inflexões de blues e ecos da vibrante tradição cigana entrelaçaram-se com naturalidade nas homenagens que o músico entendeu prestar a Arturo Sandoval, Astor Piazzolla ou Stevie Wonder.

Aliando virtuosismo - que em doses generosas se espalhou pelos quatro cantos de um pouco preenchido Auditório do Centro de Artes de Ovar -, a uma clareza de intenções no aproximar de culturas, dissolver fronteiras estilísticas e propor uma escuta aberta e inclusiva, o concerto fez da travessia de territórios o motor de construção de uma identidade musical própria. Marius Preda não se limitou a exibir perícia técnica, antes procurou instaurar uma experiência colectiva, cada tema a afirmar-se como ponto de encontro entre o passado e o presente, a tradição e a modernidade. Percebeu-se, em “Phenomenon”, essa dimensão quase utópica, mas que em palco pareceu diluída nos muitos momentos de enorme exuberância instrumental que acabaram por se sobrepor à substância, embora se aceite que é precisamente nesse excesso controlado que reside a singularidade do projecto. Ainda que a performance tenha estado quase sempre um passo à frente da música, o fulgor do “fogo de artifício” a abafar os ecos raros e subtis da própria festa, fica a sensação de termos assistido a algo único, não apenas no que teve de afirmação de um singularíssimo músico, mas também na recriação das possibilidades de um instrumento peculiar.

terça-feira, 7 de abril de 2026

CERTAME: Ovar em Jazz 2026



CERTAME: Ovar em Jazz 2026
Com | Anna Setton Quartet, Carlos Bica Quarteto, Marius Preda, Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal com John O'Gallagher
Centro de Artes de Ovar
08 > 11 Abr 2026


A partir de amanhã, e até ao próximo sábado, a cidade de Ovar volta a ser o epicentro do jazz nacional com a chegada do Ovar em Jazz, este ano a cumprir a sua oitava edição. Capaz de projectar a cidade no circuito internacional e de atrair tanto nomes consagrados como novas propostas artísticas, o festival recebeu, ao longo das suas anteriores edições, nomes como os de Amaro Freitas, Ricardo Toscano, Mário Costa, Marc Ribot, João Lencastre, Carmen Souza, Abe Rábade, Hugo Carvalhais, Carlos Bica, Andy Sheppard, Stefano Battaglia, Maria João, Danilo Pérez ou Tigran Hamasyan, entre muitos outros. Espelhando a sua consistência e ambição artística, prepara-se agora para mais quatro dias do melhor jazz, afirmando-se como um espaço de encontro entre a tradição e a vanguarda. Sob o lema “Jazz sem Fronteiras”, o certame volta a apostar no cruzamento de linguagens, geografias e gerações musicais, propondo, mais do que uma sucessão de concertos, uma experiência imersiva que se irá desdobrar entre Auditório, Caixa de Palco e Bar do Centro de Artes, envolvendo o público numa vivência plural e contínua.

À semelhança dos anos anteriores, a edição de 2026 mantém uma elevada linha de exigência, apresentando um cartaz que cruza nomes nacionais e internacionais de reconhecido mérito. Entre os destaques encontra-se o virtuoso romeno Marius Preda, que vamos poder ouvir na noite de sexta feira e que traz ao festival o projecto “Phenomenon”, síntese de mais de três décadas de carreira, onde o címbalo ganha protagonismo num diálogo entre tradição clássica, influências folk e improvisação contemporânea. A abrir o certame, já esta quarta feira, a cantora brasileira Anna Setton marca presença com um quarteto que funde jazz com bossa nova e MPB, num registo sofisticado e luminoso. Carlos Bica regressa ao festival com “11:11”, projecto de forte identidade melódica e intensidade expressiva, reafirmando o seu lugar como uma das figuras maiores do jazz português. Também a Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal regressa ao festival, desta vez na companhia do saxofonista nova-iorquino John O’Gallagher, num encontro que cruza tradição e contemporaneidade e que promete encerrar em beleza esta edição do certame.

Para além dos concertos em sala, o Ovar em Jazz expande-se pelos mais diversos espaços do Centro de Artes, incorporando a gravação ao vivo do programa “Notas Azuis”, da Antena 3, com curadoria de Rui Miguel Abreu, bem como DJ sets, mostras de vinil e projectos emergentes. Iniciativas como o Ovar Jazz Collective, orientado por João Martins, reforçam a aposta na criação e valorização do talento local, estabelecendo pontes entre formação e performance. Ao mesmo tempo, propostas como Mantis, Fourward ou Oxímoro evidenciam a vitalidade de uma cena que recusa fronteiras estilísticas e procura novas formas de expressão. Neste equilíbrio entre memória e experimentação, o festival prossegue o seu trajecto de afirmação como espaço singular de liberdade criativa e de encontro cultural, entendendo o jazz não apenas como género musical, mas como linguagem aberta e em permanente transformação. O programa completo pode ser consultado na página Ovar/Cultura, em https://cultura.cm-ovar.pt/pt/menu/734/ovar-em-jazz.aspxAté jazz!