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quinta-feira, 5 de março de 2026

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #102



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #102
Com | Alice Eça Guimarães, André Silva Santos, Nuno Amorim, Patrícia Sobreiro, Rodrigo Alves
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
26 Fev 2026 | qui | 21:30


Franqueadas as portas da décima temporada, o Shortcutz Ovar continua a afirmar-se como um verdadeiro ponto de encontro da comunidade cinéfila vareira e de todos aqueles que encontram na sétima arte um território de descoberta e liberdade criativa. Lançado em 2017, o projecto encontrou em Ovar um espaço fértil para crescer, consolidando-se ao longo da última década como uma montra privilegiada do cinema português contemporâneo. Sessão após sessão, o certame tem dado palco a uma impressionante diversidade de propostas - do foto-filme ao documentário, da imagem animada à ficção pura e dura, sem esquecer as novas linguagens que cruzam cinema e inteligência artificial -, reflectindo a vitalidade e a constante reinvenção do formato curto. Ao longo do tempo, o Shortcutz Ovar soube catalisar as atenções e fidelizar um público cada vez mais atento e participativo, que não abdica da experiência colectiva da sala escura e que reconhece, com entusiasmo, o talento que cruza o ecrã. Celebrar esta nova temporada é, por isso, celebrar uma história de resistência cultural, de afirmação do cinema feito entre nós e de confiança num futuro onde as curtas continuam a ter, em Ovar, casa, voz e plateia. Assim foi, uma vez mais, nesta primeira sessão do ano, numa Escola de Artes e Ofícios a rebentar pelas costuras, tornada espaço de partilha e debate propícios à construção de uma relação de proximidade rara entre criadores e público.

Contrariando a lógica dominante de reservar à imagem animada o arranque da temporada, o Shortcutz Ovar abriu este novo ano com a quietude inquieta de “J’existe - Porto”, um quase foto-filme documental de Patrícia Sobreiro. Em pouco mais de dez minutos, a realizadora compõe um testemunho biográfico e intimista que nasce das suas viagens à Invicta e que transforma a cidade em matéria sensível. Sob o seu olhar, o Porto surge como casa e espelho interior, território afectivo onde cada rua parece guardar um vestígio de memória e cada rosto convocado teima em resistir ao apagamento. Num gesto assumidamente artesanal, de recusa do ruído da indústria e da voragem da produção formatada, o filme constrói-se na fricção entre a contemplação e a denúncia, entre a beleza plástica das imagens e a inquietação que as atravessa. Há enquadramentos que evocam a luz difusa de Turner, como se o casario e o rio pairassem suspensos numa névoa romântica. É sob essa superfície diáfana que pesa a consciência de uma cidade ameaçada pela gentrificação e pela turistificação, fenómenos que diluem identidades e empurram para as margens figuras genuínas que ajudam a compor o rosto da cidade e a representam. O que Patrícia Sobreiro nos oferece com esta sua curta é um acto de resistência delicada, um sussurro visual que reivindica o direito de olhar e de se demorar num mundo demasiado apressado. O direito de existir.

Amplamente aguardado - ou não fosse Alice Eça Guimarães um nome consagrado da animação portuguesa e uma realizadora querida do público do Shortcutz Ovar -, “Porque Hoje É Sábado” não frustrou as expectativas. O público distinguiu-o como melhor filme da sessão, o que se percebe não só pela verdade que se derrama da abordagem a um tema pleno de actualidade, como pela qualidade e colorido da animação, nalguns quadros a fazer lembrar um enigma de Escher. Aqui, o sábado - palavra roubada ao “Dia da Criação”, de Vinicius de Moraes - despe a ideia de repouso para voltar a ser rotina. A realizadora constrói um filme que é como um grito contido, um eco que vibra nas paredes da casa e no interior da protagonista, cercada por tarefas que se repetem com a obstinação de um castigo mitológico. Há, na coreografia exaustiva do quotidiano, qualquer coisa de sísifo moderno, o limpo que volta a sujar-se, o dia que recomeça sem que o anterior tenha nunca chegado ao fim. Vibrante e inquieta, a animação traduz a vertigem da chamada “carga mental”, esse trabalho invisível que organiza o mundo enquanto consome quem o sustenta. Entre filhos, refeições e listas intermináveis, a mulher tenta oferecer a si própria a dádiva de um tempo que se fragmenta, lhe escorre das mãos e nunca é seu. “Porque Hoje É Sábado” transforma essa frustração num retrato sensível da sobrecarga que ainda marca tantas mulheres, contrariando a ideia de uma igualdade tão apregoada, mas ainda distante da realidade.

A finalizar a sessão, “Sol Menor”, primeira obra de ficção de André Silva Santos, desenha-se como uma elegia contida às paisagens urbanas de São João da Madeira, um município que carrega em si as marcas de uma pós-industrialização silenciosa, feita de fábricas desactivadas e memórias que ecoam como notas longínquas. É Primavera, mas a estação não irrompe; insinua-se apenas numa sonata tocada em surdina, numa carta por abrir, nos vasos com plantas que respiram sobre os parapeitos das janelas. A câmara acompanha a progressão lenta do “Vouguinha”, como se o tempo tivesse aprendido a caminhar sobre carris gastos. Samuel, 38 anos, professor de flauta, move-se entre o sopro que ensina e o silêncio que o habita, repetindo rituais de luto pela falta de Luísa, companheira de música e de vida. Cada gesto é um compasso suspenso; cada parte do dia, uma pauta onde a ausência escreve a sua própria melodia. A visita do irmão virá abrir uma fractura discreta na rotina, um desvio possível no seu itinerário imóvel. Contudo, Samuel permanece figura cristalizada, homem-estação à espera de um comboio que talvez nunca chegue a partir. E, ainda assim, é dessa suspensão que brota um sentido de comunidade: das ruas que se enchem de pessoas para ver passar a procissão, das janelas que aos poucos se acendem com o anoitecer, dos pequenos rituais partilhados que tecem o sentido de pertença. Como a cidade, Samuel resiste, feito acorde menor que, na sua tristeza, guarda uma promessa ténue de redenção.

sábado, 15 de julho de 2023

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #74 | Festa dos Premiados 2022


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CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #74
Festa dos Premiados 2022
Apresentação | Tiago Alves
Escola de Artes e Ofícios
14 Jul 2023 | sex | 21:30


Ponto final na sexta temporada do Shortcutz Ovar. Com sessão esgotada, a Festa dos Premiados 2022 fez-se de entusiasmo e animação, mas também de ansiedade e emoção, ou não estivesse em causa a revelação daqueles que foram os filmes vencedores da temporada. Uma temporada atípica, que viu adiada a sua primeira sessão devido a nova investida do Coronavirus e que, por isso mesmo, arrancou mais tarde que o habitual. O caminho, recorde-se, foi clareando sessão após sessão, acabando por se abrir nos sorrisos de todos com o cair das máscaras, momento verdadeiramente marcante que assinalou o final da pandemia e que o programador e apresentador do Shortcutz Ovar Tiago Alves fez questão de recordar ao entrar em palco de máscara. Pleno de significado, o gesto foi acompanhado de palavras que, acima de tudo, vincaram a resiliência dos promotores e programadores do certame, a coragem e gratidão de um público que nunca deixou de estar presente e, finalmente, a entrega daqueles que se desafiam para levar por diante o sonho de fazer cinema e que, apesar das adversidade, têm para oferecer verdadeiras pérolas que os espectadores abraçam com admiração e fascínio.

Fazendo um resumo muito breve daquilo que foi a sexta temporada do Shortcutz Ovar, lembre-se que a selecção oficial competitiva contou com vinte e quatro curtas metragens, repartidas por oito sessões que se estenderam de Março a Novembro. Em competição estiveram quinze ficções, duas docuficções, três documentários e quatro filmes de animação. Um terço dos filmes correspondeu a primeiras obras. Apesar da sua baixa representatividade, foi no cinema de animação que se concentraram as primeiras atenções desta noite de festa, com o filme “Kumaru”, de Patrícia Santos, Tânia Teixeira e Bruno Maravilha a receber o Prémio de Melhor Primeira Obra. A produtora Joana Gusmão, o encenador Leandro Ribeiro e actriz Mia Tomé, os três elementos do Júri, renderam-se à “simplicidade e beleza” de um filme que é “uma pequena ode ao exímio trabalho de artesanato da animação”. Animação que voltou a estar em foco com a atribuição do Prémio Melhor Animação ao filme de Paulo Patrício, “O Teu Nome É”. Curta-metragem documental de imagem animada que se debruça sobre o brutal assassínio de Gisberta Salce Júnior, o filme aborda “de forma certeira, temas e conceitos como a memória, a condição social, a discriminação e a identidade de género”, aspectos que o Júri fez questão de salientar.

Figura fundamental na dinâmica do Shortcutz, o público acaba por ter um papel fundamental na atribuição dos Prémios ao ser chamado a eleger o seu favorito. São os votos que entram na pequena urna no final de cada sessão que determinam o Prémio do Público, um prémio baseado numa escolha “a quente”, tantas vezes fruto da emoção do momento, um prémio onde o coração pesa, quase sempre, mais do que a razão. Na escolha deste ano, porém, razão e coração parecem estar em perfeito equilíbrio, já que “O Lobo Solitário”, de Filipe Melo, é realmente um extraordinário filme. Tratando de forma clássica um tema tão actual, nele se concentram “um argumento sólido, preciosos pormenores técnicos e uma superior interpretação de Adriano Luz, guiando o espectador até à linha de fronteira que separa a verdade da mentira”, conforme pode ler-se no belíssimo catálogo produzido para o evento. Com o Prémio Especial do Júri foi distinguido “Tchau Tchau”, um filme de Cristèle Alves Meira filmado em plena pandemia e que testemunha as vivências de quem teve de lidar com o afastamento e com a doença e a morte dos seus entes-queridos. Um Prémio que o Júri decidiu atribuir para não deixar passar em claro “a curta realizada em pandemia que melhor caracteriza esse período das nossas vidas”.

Para o final ficou o galardão mais apetecido, aquele cujo anúncio era aguardado com a maior das expectativas. Nos breves instantes que antecedem a revelação do grande vencedor da temporada, há um filme a rodar em alta velocidade nas nossas cabeças. As memórias levam-nos ao encontro da presença impactante de Diana (“Luz de Presença”, Diogo Costa Amarante), da dolorosa ausência de Gisberta (“O Teu Nome É”, Paulo Patrício), da gravidérrima Carla à porta da cadeia (“Chama-se Carla”, Cátia Biscaia), da pequenina Lua Michel (“Tchau Tchau”, Cristèle Alves Meira), de um radialista encurralado (“O Lobo Solitário”, Filipe Melo), de um carneiro em liberdade (“O Que Resta”, Daniel Soares), de quem não consegue fazer o que quer (“Sobrevoo”, Ruben Sevivas), de uma mulher numa festa de amigos (“We Won’t Forget”, Edgar Morais e Lucas Elliot Eberl), das danças dos caretos (“Musgo”, Alexandra Guimarães e Gonçalo L. Almeida), duma casa num ferro-velho (“Yard Kings”, Vasco Alexandre) ou de um urso que uns viram e outros não (“Oso”, Bruno Lourenço). “Oso” acabou por ser o filme eleito pelo Júri para o Prémio Melhor Curta, num processo de escolha onde terá pesado o “retrato de uma comunidade rural, passeando entre a realidade e o mito”. O Júri não terá tido tarefa fácil e o público manifestou alguma surpresa, não sendo tão efusivo nos aplausos como em anteriores momentos da noite. A sessão encerrou com a visualização do filme, seguindo-se a música de Isa Leen e DJ Set Mr. Wolf, num “after party” saboroso e descontraído. O Shortcutz Ovar regressa em Setembro. Até lá, boas férias!

sexta-feira, 3 de junho de 2022

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #61



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #61
Escola de Artes e Ofícios
135 Minutos | Maiores de 14 anos
02 Jun 2022 | qui | 21:30


Apostado em vincar a aposta no desconfinamento, nessa ousadia de transpor as paredes da casa ou os limites do bairro e partir em busca dos grandes espaços verdes, a quarta sessão da sexta temporada do Shortcutz Ovar teve para oferecer três curtas-metragens onde a relação do homem com a natureza no seu estado mais puro constituiu o denominador comum. “Kumaru”, filme de animação realizado por Bruno Maravilha, Patrícia Santos e Tânia Teixeira, deu o mote para esta sessão, convocando um interessante conjunto de reflexões em torno de um estranho e enigmático ser que encontra nos pirilampos os únicos pontos de luz que conhece. O contexto pandémico e a vida do outro lado da janela servem de inspiração para um filme que joga de forma hábil com as várias dimensões das nossas vidas, servindo-se de um conjunto de metáforas para falar dos obstáculos que vão sendo superados e do caminho que cada um faz em direcção à luz. Particularmente activo no debate que se seguiu à apresentação do filme, o público deu mostras do seu apreço por uma obra que, na sua simplicidade aparente, trouxe consigo um conjunto de mensagens de grande significado e alcance.

Tal como no filme anterior, “Musgo” faz assentar o seu mecanismo narrativo nesta relação dicotómica entre a luz e as trevas, entre aquilo que vemos e o que apenas podemos intuir. Com “o terço na mão e o diabo no coração”, o filme é inspirado no livro “Etnografia Transmontana”, do “etnólogo, padre e bruxo” António Lourenço Fontes, ao encontro das expressões culturais e afetivas de herança pagã no norte de Portugal. No cerne da acção encontramos uma criança que, ao explorar o interior de uma árvore, é levada numa viagem mística que cruza o imaginário popular transmontano, abraçando por igual o sagrado e o profano. Misto de documentário e ficção, “Musgo” vive das pulsões da vida e da ancestralidade dos gestos, de cantigas de roda e Festas dos Rapazes, mezinhas caseiras e chegas de bois, alminhas e pontes do diabo. Com realização, argumento e montagem de Alexandra Guimarães e Gonçalo L. Almeida, “Musgo” arrecadou o Grande Prémio Nacional da última edição do FEST e é uma primeira obra arrebatadora, que nos obriga a manter debaixo de olho esta dupla de jovens criadores.

“Oso” fechou a sessão com uma “mirada” ecológica franca e uma boa dose de humor. Visto com cepticismo por uns e com entusiasmo por outros, o relato do avistamento de um urso-pardo no território do Parque Nacional da Peneda-Gerês permitiu ao realizador Bruno Lourenço (que assina também o argumento, em co-autoria com Telmo Churro) partir para uma ficção de aproximadamente meia hora, recheando-a de elementos que questionam factores primordiais como a identidade e o território. Contrapondo a visão lúcida de uma jovem vigilante da natureza às fantasias que se vão avolumando nas mentes de muitos dos habitantes da região e mesmo de alguns forasteiros, “Oso” abre espaço à imaginação, ao mesmo tempo dando conta do quanto de pernicioso, quase cruel, pode refugiar-se na sombra de uma natureza idílica. Com interpretação de António Mortágua e Sofia Pires, eis um filme empenhado em mostrar o quão dúbia pode ser a relação do homem com o espaço que o rodeia.

sábado, 18 de setembro de 2021

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #50



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #50
Escola de Artes e Ofícios
90 Minutos | Maiores de 14 anos
16 Set 2021 | qui | 21:30


Todos os motivos são bons para celebrar o Cinema, mas a razão agiganta-se quando envolve números redondos que acarretam consigo a dimensão dos grandes feitos e são prova de persistência, resiliência, muito suor e, seguramente, algumas lágrimas também. Por estes e outros motivos, dobradas as cinquenta sessões, o Shortcutz Ovar e os seus promotores e dinamizadores estão de parabéns, desde logo por não baixarem os braços face à ameaça de uma crise sanitária à escala global que virou as nossas vidas do avesso, mas também pela forma como têm sabido “alimentar” um público cada vez mais apto a compreender e valorizar o cinema em versão curta. Embora longe da normalidade e da “experiência-Shortcutz” tal como a conhecemos antes da pandemia, os sinais são francamente positivos e a “reentré” após a pausa estival veio confirmar isso mesmo. O formato voltou à exibição de três obras por sessão, o público em maior número esgotou uma vez mais a sala e percebeu-se um maior calor e entusiasmo da parte de todos. Só mesmo a obrigatoriedade da máscara permanece, mas até isso irá cair em breve, assim o esperamos.

Obra de animação 3D de Catarina Romano, “Seja Como For” abriu a sessão para falar-nos de solidão. É um filme que parte de testemunhos reais, remetendo para a precariedade laboral em cenário pós-troika e lembrando as dificuldades de quem perdeu o emprego e se vê obrigado a contar os tostões e a fazer escolhas com vista à própria sobrevivência. Com um trabalho de animação cuidado e de enorme beleza, a realizadora toca o público com a sua visão sensível de uma mulher desempregada que se refugia nas suas memórias para vencer um tempo estagnado, quase sufocante. Os sons que reconhecemos do quotidiano remetem para uma vida outrora activa, em choque com o actual mundo interior, fazendo dela o arquétipo de todas as mulheres isoladas e excluídas numa sociedade profundamente desigual. “Por riba se ceifa o pão, por baixo fica o restolho”, a voz de Mariana Root nessa “Cantiga da Ceifa” imortalizada por Ti Chitas, a fechar o filme, é um grito de desafio e um incentivo a erguer a cabeça e a olhar nos olhos o futuro.

Olhar o futuro pode ser também entendido como mote para o segundo filme da noite. “La Tierra de L Passado”, com realização, argumento e montagem de Rui Falcão, dá-nos a ver uma terra encostada a uma esquina do nosso País e que tem na sua língua a sua maior riqueza. Falo de Miranda do Douro, no extremo nordeste de Portugal, um território envelhecido e votado ao isolamento, que trava uma luta desigual na tentativa de preservar esta que é, desde 1999, a segunda língua oficial portuguesa. Enquanto objecto artístico, “La Tierra de L Passado” assume-se como sendo uma ficção, mas o carácter documental toca o filme de forma indelével, contaminando-o no mau sentido. Não poucas passagens têm o sabor da reportagem, o que não será o melhor dos seus salvo-condutos. Há, todavia, esse lado emocional que adquire aqui um cunho de tributo, um gesto de amor que abraça língua e território como ser uno e indivisível que é, e neste aspecto o sentido de oportunidade do filme não poderia ser maior. Chamar a atenção para uma “espécie ameaçada” é um dever que cumpre a todos e esse será, porventura, o grande mérito de Rui Falcão e do seu “La Tierra de L Passado”.

Antes de abandonar a sala, o público teve a oportunidade de ver um dos mais extraordinários filmes que passaram até hoje pelo Shortcutz Ovar. Falo de “Noite Perpétua” de Pedro Peralta, ficção que convida o espectador a viajar até Castuera, na estremenha província de Badajoz, fazendo-o mergulhar numa Guerra Civil Espanhola quase a chegar ao fim mas cuja memória permanece bem viva no coração de muitos sob a forma de um profundo ressentimento. É lá que encontraremos uma mulher que, encurralada por dois guardas falangistas, se entrega num doloroso mas muito digno acto de despedida, na certeza de que não voltará a ver aqueles que lhe são queridos. Extraordinariamente sóbrio, o filme faz uma gestão rigorosa do tempo e do espaço, em planos-sequência de cortar a respiração. A fotografia de João Ribeiro é preciosa, acentuando a tensão e mergulhando o filme numa atmosfera de angústia e dor. Quando a mulher - a actriz Paz Couso, extraordinária de contenção e nobreza - sai para a noite, escutamos o ladrar dos cães a rasgar o silêncio e sentimos as gargantas apertarem-se. Inquietante e envolvente, de um realismo profundo e trágico, “Noite Perpétua” é um manifesto contra o apagamento da memória e uma simples mas muito bela homenagem àqueles que morreram pela liberdade e são hoje um verdadeiro farol nas nossas vidas.

sexta-feira, 18 de junho de 2021

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #48



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #48
Escola de Artes e Ofícios
90 Minutos | Maiores de 16 anos
17 Jun 2021 | qui | 21:30 


Após duas sessões com a exibição de apenas dois trabalhos, o Shortcutz Ovar regressou ao seu formato original com a apresentação de três curtas-metragens nesta que foi a terceira sessão da quinta temporada do certame ovarense. As lotações esgotadas continuam a ser uma constante e a explicação é simples: Além de um excelente ponto de encontro para assistir ao melhor cinema que se vai fazendo em Portugal, o Shortcutz Ovar oferece momentos de discussão e partilha que, para além de serem uma fonte de aprendizagem e conhecimento que alargam extraordinariamente a visão que se tem das obras, estimulam e enriquecem a forma de ver e sentir o cinema em todas as suas componentes. Assim foi, uma vez mais, na noite de ontem, com a passagem de três filmes de realizadoras que estão agora a chegar ao cinema português e que, mais do que uma visão profundamente feminina das questões abordadas, nos propuseram um mergulho no “grand bleu”, nesse azul intenso que tinge o mar e o céu, nos faz agarrar a vida com mãos ambas e nos vem dizer que o Verão, com o seu calor, os dias longos e o tanto que sempre promete, está quase a chegar.

“Blue 52”, de Catarina Nascimento, foi uma excelente surpresa. Com o dedo do Departamento de Comunicação Audiovisual da Escola Artística Soares dos Reis, esta ficção de quase dez minutos leva-nos ao encontro dos dilemas e angústias que se abatem sobre os jovens na sua passagem para a vida adulta, em particular em tempos de pandemia. À deriva, perante um futuro que tarda em definir-se, são muitos aqueles que se sentem como as criaturas mais infelizes e solitárias do planeta, autênticas “baleias 52 Hz”, seres incapazes de interagir ou comunicar uns com os outros. “Seriamos capazes de apreciar a beleza da vida se não tivéssemos com quem a partilhar?”, interroga-se Catarina Nascimento, para quem “oceano”, “esperança” e “real” não devem confundir-se com “deserto”, “desespero” e “falsidade”. Aos 18 anos - o mais novo realizador de sempre a passar pelo Shortcutz Ovar em quatro edições e picos -, Catarina Nascimento mostra uma desenvoltura invulgar na forma como sabe tirar partido das potencialidades técnicas do cinema, usando-as em prol do filme, enfatizando uma mensagem de confiança e optimismo e fazendo dele um objecto artístico por inteiro.

O segundo momento da sessão intitulou-se “Lascas” e teve a assinatura de Natália Azevedo Andrade. Tratou-se de uma curta-metragem de animação com cerca de dez minutos de duração, produzida pela Moholy-Nagy University of Art and Design, de Budapeste, e surge igualmente em contexto académico. Misturando imagem real com animação, o filme aborda de forma intensa o drama interior que se abate sobre uma mulher que, sentindo-se engolida pelos seus maiores traumas, decide abandonar os três filhos e fugir para bem longe. Baseada em histórias que a realizadora foi coleccionando, também aqui a questão da solidão se impõe, o mergulho nos grandes espaços como forma de nos perdermos ou encontramos. Metaforicamente, as portas que existem em cada um de nós tanto podem abrir-se para acolher e confortar, como se fecham definitivamente sobre os outros e sobre nós próprios. Filme de uma enorme maturidade, com uma estética a fazer lembrar alguns dos grandes mestres japoneses da animação - de Hashimoto a Miyazaki -, “Lascas” é mais uma prova da qualidade da animação portuguesa e permite antever um promissor futuro para esta jovem realizadora bracarense.

“Ouro Sobre Azul”, uma ficção com pouco mais de dezassete minutos, colocou um ponto final na sessão. À semelhança dos filmes anteriores, também este é um trabalho de escola e corresponde ao desafio lançado pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia a desenvolver uma curta-metragem sobre a temática do mar. Andreia Pereira da Silva quis, nesta sua primeira obra, abordar o delicado momento da entrada na pré-adolescência onde tudo é novo e desconhecido. Num ambiente marcadamente onírico, a realizadora conta-nos a história de duas crianças que vivem junto à praia e se vêem confrontadas com a descoberta de um ser extraordinário que, com o seu “canto”, irá mudá-las para sempre. O filme é, também ele, uma enorme metáfora sobre a perda de inocência e fala-nos da transição para o vago e impreciso mundo da adolescência, onde tudo é sedução e fascínio. Escrito pela própria Andreia Pereira da Silva e com fotografia de Concha Silveira, o filme conta com os desempenhos de Tomás Andrade, Mariana Gomes e Alice Sandizell, também eles a merecerem nota alta pela qualidade das interpretações. Vários, portanto, os nomes a fixar.

domingo, 15 de novembro de 2020

CERTAME: CINANIMA - Festival Internacional de Cinema de Animação de Espinho



CERTAME: CINANIMA – Festival Internacional de Cinema de Animação de Espinho
09 a 15 Nov 2020


Chega hoje ao fim a 44ª edição do CINANIMA - Festival Internacional de Cinema de Animação de Espinho. Levado a cabo em plena crise pandémica, o certame teve que se adaptar a um número enorme de constrangimentos, tendo decorrido exclusivamente online (na plataforma https://cinanima.kinow.tv), mediante uma subscrição simbólica. Perdeu-se o ambiente em sala, o convívio, a partilha, as palavras dos convidados ligados à produção e realização dos filmes e tudo o mais que faz do cinema um acontecimento social por excelência, mas ter-se-á ganho em número de espectadores que tiveram a oportunidade de visionar as mais de trinta sessões e as quase duas centenas de filmes apresentados nas secções de competição e não-competitivas.

“Altötting”, filme do alemão Andreas Hykade que contou com a colaboração de Regina Pessoa na direção artística e supervisão de pintura, foi o meritório vencedor desta edição. Profundamente autobiográfico – o próprio título remete para uma pequena aldeia da Baviera onde nasceu o realizador e que é, simultaneamente, um dos mais importantes locais de peregrinação da Alemanha -, o filme conta-nos a história de um rapaz que se apaixona pela Virgem Maria. De enorme beleza plástica, com um sentido de humor refinado e uma mensagem fortíssima face aos tempos que vivemos, o filme conquistou, muito justamente, o júri, constituído por Manuel Mozos, Florence Miailhe e Jayne Pilling. Destaque ainda, na competição internacional, que teve em exibição 68 filmes, para “Rivages” , da realizadora e ilustradora francesa Sophie Racine, que levou para casa o Prémio Especial do Júri com uma curta-metragem de cariz naturalista, onde sobressai o enorme rigor do desenho, num preto e branco sem concessões, que nos devolve a beleza dos pássaros no seu vôo, das plantas ondulando ao vento, das brincadeiras e risos das crianças ou dos rigores de uma tempestade de Verão.

Falando ainda da competição internacional de curtas metragens, de fora dos prémios ficaram outros filmes de grande beleza e significado que destacaria sumariamente. “Casa”, da letã Anita Bruvere, fala-nos do nº 19 de Princelet Street, no leste de Londres, uma casa de refugiados que, ao longo de três séculos, recebeu Huguenotes, Irlandeses e Judeus e é hoje um Museu da Imigração e Diversidade. “Carne”, da brasileira Camila Kater, mostra-nos cinco momentos-chave na vida da mulher, cada um deles narrado por uma personagem diferente que se relaciona com o seu corpo. É um filme onde o valor da mensagem suplanta a qualidade da animação mas cuja força não deixa ninguém indiferente. Realizado pala canadiana Robin McKenna, “Thanadoulos” relata a experiência pessoal de uma mulher que acompanha pessoas nos seus últimos instantes de vida e constitui um tributo à sua irmã Anne Eskenazy, que morreu sozinha num hospital psiquiátrico. Finalmente, “Depois do Eclipse”, da argentina Bea R. Blankenhorst, uma parábola sobre o preconceito e a forma como os nossos defeitos, ao invés de nos aproximarem, nos afastam um dos outros.

Na competição nacional, entre os 29 filmes a concurso, “Elo”, de Alexandra Ramires, foi galardoado com o Prémio António Gaio. Também aqui o painel de jurados, que incluiu Bruno Caetano, Paulo Gomes e Vier Nev, esteve bem, visto ser este um filme que combina na perfeição a originalidade do tema com o virtuosismo e a qualidade da animação. Pegando em duas personagens em tudo diferentes uma da outra, Alexandra Ramires explora a perfeita simbiose que ambas conseguem alcançar para nos dar a ver o esforço de superação em toda a sua dimensão. Importa referir nesta secção outros dois filmes que me impressionaram vivamente, “Nós, Os Lentos”, de Jeanne Waltz, e “Repensar – Muhammad Munir”, de Pedro Serrazina, este último debruçando-se sobre questões relacionadas com a exclusão social e parte integrante do projecto “ReThink – Heróis da Comunidade”, uma campanha contra a discriminação patrocinada pela União Europeia. O Prémio Jovem Cineasta Português foi atribuído, ex-aequo, a “Decapitada”, do Coletivo Escola Básica e Secundária Dr. Machado de Matos (Felgueiras), e a “Walkthrough”, de Sofia Salt. Dos restantes dezoito filmes a concurso nesta secção, destacaria ainda “During December”, “Rachado”, de António Lucas, Rita Branco e Ana Rodrigues e, sobretudo, o poético “Palavras Gastas”, de Maria Giraldes.

Referentes a filmes que não tive oportunidade de ver, a secção “Estudantes – Competição Internacional” teve em “White Horse”, de Yujie Xu, do Reino Unido, o grande vencedor. “The Nose or the Conspiracy of Mavericks”, de Andrey Khrzhanovsky, foi eleita a melhor longa-metragem. Fora da secção competitiva, o CINANIMA ofereceu um vasto conjunto de filmes, com especial destaque para as longas-metragens “Velhas Lendas Checas”, uma jóia da animação do mestre Jirí Trnka (1953) e “As Andorinhas de Cabul”, dos franceses Zabou Breitman e Eléa Gobbé-Mévellec, um filme que teve uma aclamada estreia na edição de 2019 do Festival de Cannes, na secção Um Certain Regard. De The Animation Workshop, departamento da VIA University College (Aahrus, Dinamarca) puderam ser vistos oito curtas, tantas quantas as propostas pela Estonian Academy of Arts (Tallinn, Estónia). Do Festival de Cinema de Zlin (República Checa) e o cipriota AnimaFest pudemos ver alguns destaques das suas mais recentes edições, enquanto nas restrospectivas temáticas o programa reuniu filmes que ilustraram “Uma Década de Animação Europeia” e reflectiram sobre os “75 Anos Depois do Fim da Segunda Grande Guerra Mundial”. O programa completou-se com os 22 filmes da secção Panorama e com uma retrospectiva dos filmes premiados na edição de 2019.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Vemos, ouvimos e lemos... #15



1. Ao longo da próxima semana, a cidade de Espinho volta a ser a Capital Nacional do Cinema de Animação. Trata-se da 44ª edição do CINANIMA – Festival Internacional de Cinema de Animação de Espinho que, de 09 a 15 de Novembro, se derrama nos ecrãs do Centro Multimeios de Espinho, estendendo-se aos espaços da Junta de Freguesia de Espinho, Biblioteca Municipal e às nossas casas por subscrição na plataforma Kinow, em https://cinanima.kinow.tv. Os quadros competitivos nacionais e internacionais mantêm-se no formato dos anos anteriores, destacando-se, na competição nacional, o Prémio António Gaio ao melhor filme e também o Prémio Jovem Cineasta Português. O Countryside Animafest (Chipre) e o Zlín Film Festival (República Checa) são os festivais convidados desta edição. Dentre o vasto conjunto de iniciativas, destaque ainda para a retrospectiva do trabalho da realizadora francesa Florence Miailhe. Saiba tudo em https://www.cinanima.pt/.

2. Iniciativa do coletivo de galerias FORUM fotografia/filme PORTO, o MIP - Mês da Imagem do Porto arrancou no passado dia 31 de Outubro e vai estender-se até ao final do ano, ocupando os espaços do MIRA FORUM, OPPIA, Espacio Jhannia Castro, Espiga, Galeria Adorna, Salut au Monde! e The Cave Photography. Inicialmente agendada para Abril, esta terceira edição do certame traz com ela um conjunto de exposições imperdíveis, das quais destacaria “Transa, Baladas do Último Sol”, de Ângela Berlinde, co-fundadora dos Encontros da Imagem de Braga, Curadora do Museu da Fotografia de Fortaleza (Brasil) e Curadora convidada da Bienal de Fotografia de Pequim (China). Renata Siqueira, Pedro Cadilhe, Adélia Gonçalves, Gregor Sailer, José Sérgio, Lionel Jusseret, Maria Oliveira e Mathilde Cudeville são outros nomes cujos trabalhos podem ser vistos no âmbito do certame. Visitas comentadas, workshops, mostras de cinema, apresentações de livros e um vasto de conjunto de conversas completam o programa que pode ser consultado na íntegra em https://www.mesimagemporto.pt/.

3. De 11 a 14 de Novembro, em Tondela, celebra-se a 26ª edição do FINTA - Festival Internacional de Teatro ACERT. Projectos teatrais, tanto nacionais como internacionais, espectáculos de sala, exposição Cut & Paste, formação e apresentação de livros são ingredientes de uma iniciativa marcante para a ACERT e que se pretende igualmente marcante para todos quantos tiverem o ensejo de nela participar. “Antevôo da Passarola”, uma criação do Trigo Limpo teatro ACERT a partir da adaptação do romance “Memorial do Convento”, de José Saramago, será a peça de abertura do Festival. Acontecimento ímpar, esta festa do teatro vem ao encontro da necessidade de “sermos alimentados de sonhos, de magia, de cumplicidade, de outras vivências… “, conforme se pode ler na apresentação do Festival. O programa do festival pode ser detalhado em https://acert.pt/finta/.