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sexta-feira, 18 de abril de 2025

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #94



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #94
Com | Maria Trigo Teixeira, Gonçalo L. Almeida, Dinis Leal Machado
Apresentação | Tiago Alves
150 Minutos | Maiores de 14 Anos
Escola de Artes e Ofícios
17 Abr 2025 | qui | 21:30


Um pouco mais cedo do que o habitual devido às festividades pascoais, o Shortcutz Ovar viu cumprida mais uma sessão regular da presente temporada. De novo com casa cheia, o programa do serão cinéfilo teve para oferecer imagem animada, documentário e ficção, em três curtas-metragens centradas em questões de cariz intergeracional, de proximidade e relação, em linha com a quadra que atravessamos. Curiosamente, tanto Gonçalo L. Almeida como Dinis Leal Machado e Maria Trigo Teixeira já tinham pisado anteriormente o palco do Shortcutz Ovar, sendo este um regresso aclamado e recheado de boas propostas. “Amanhã Não Dão Chuva” foi o filme que abriu a sessão e no qual Maria Trigo Teixeira fala de envelhecimento e de factores a ele associados como a solidão, a doença ou a dependência. Nesta relação de uma mãe com uma filha, porém, aquilo que mais avulta são as memórias que se vão perdendo irremediavelmente, deixando incompleto o imbricado puzzle em que as nossas vidas se vão tornando. Baseada no trabalho a carvão, a animação tem momentos de enorme beleza, com a realizadora a trazer para o desenho seguinte alguns traços do anterior, tornando claro que cada acto nosso deixa uma marca que só o tempo se encarregará de fazer desaparecer.

“A Reforma de Manuel Lima” preencheu o espaço intermédio da sessão, espalhando uma nota de humor pela sala na história de um reformado que, aos 84 anos, luta diariamente contra a inactividade e o ócio, ao mesmo tempo que olha em retrospectiva alguns dos momentos mais significativos da sua vida. Realizado em contexto familiar - Gonçalo L. Almeida é neto do protagonista e os figurantes são membros da família - o documentário surge no âmbito do “Laboratório do Envelhecimento”, projecto inovador do Município de Ílhavo e um espaço de excelência na produção de conhecimento sobre a área do envelhecimento humano, através da sinergia entre os eixos do conhecimento, cooperação, partilhas, capacitação e descobertas. Do distante ofício de alfaiate ou dos anos passados numa empresa de pequenos e grandes domésticos, ao presente entre a casa e o quintal, o teatro, as danças de salão e a participação esporádica em programas televisivos de entretenimento, a vida de Manuel Lima é o retrato fiel de uma realidade que diz muito da forma como a sociedade trata os nossos idosos, deixando-os à mercê das dificuldades crescentes para empregar o seu tempo de forma útil, cada vez mais agarrados às memórias de um passado que não volta, mais descrentes e ociosos, mais dependentes e sós. Um belo presente de um neto para o seu avô, testemunho vivo de momentos felizes que ficarão para sempre no coração de todos.

“Solda”, uma quase média-metragem nos seus trinta e cinco minutos de duração, foi o filme que encerrou a sessão. Ficção de Dinis Leal Machado centrada na relação de um pai, serralheiro, e de um filho, estudante de Belas-Artes, o filme sai em busca dos vínculos de união entre os dois, a partir daquilo que os separa. O conflito de gerações volta a tomar conta da história, reflectindo-se na atitude de quem possui um saber de experiência feito e de quem da vida apenas conhece o que vem nos livros. Embora menosprezada ou ignorada por uma academia que insiste na conceptualização e na teorização dos seus objectos de estudo, a verdade que reside no lado prático e simples das coisas acaba por vingar, nela residindo o fulgor que desbloqueia os impasses e faz com que a vida flua: Bela e surpreendente, criativa e livre. Recheado de momentos bem humorados, o filme chega a ser comovente na forma como desenvolve a relação entre pai e filho, ao mesmo tempo que estabelece uma visão irónica sobre a realidade da arte e as diferentes formas de olhar o objecto artístico. A par de um argumento de enorme solidez e da paixão que Dinis Leal Machado coloca na feitura deste filme, “Solda” tem no actor Adriano Carvalho um dos seus maiores trunfos, capaz de exprimir na perfeição a riqueza de sentimentos que atravessam a personagem. Um momento precioso de cinema!

sexta-feira, 3 de junho de 2022

CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #61



CINEMA: Shortcutz Ovar Sessão #61
Escola de Artes e Ofícios
135 Minutos | Maiores de 14 anos
02 Jun 2022 | qui | 21:30


Apostado em vincar a aposta no desconfinamento, nessa ousadia de transpor as paredes da casa ou os limites do bairro e partir em busca dos grandes espaços verdes, a quarta sessão da sexta temporada do Shortcutz Ovar teve para oferecer três curtas-metragens onde a relação do homem com a natureza no seu estado mais puro constituiu o denominador comum. “Kumaru”, filme de animação realizado por Bruno Maravilha, Patrícia Santos e Tânia Teixeira, deu o mote para esta sessão, convocando um interessante conjunto de reflexões em torno de um estranho e enigmático ser que encontra nos pirilampos os únicos pontos de luz que conhece. O contexto pandémico e a vida do outro lado da janela servem de inspiração para um filme que joga de forma hábil com as várias dimensões das nossas vidas, servindo-se de um conjunto de metáforas para falar dos obstáculos que vão sendo superados e do caminho que cada um faz em direcção à luz. Particularmente activo no debate que se seguiu à apresentação do filme, o público deu mostras do seu apreço por uma obra que, na sua simplicidade aparente, trouxe consigo um conjunto de mensagens de grande significado e alcance.

Tal como no filme anterior, “Musgo” faz assentar o seu mecanismo narrativo nesta relação dicotómica entre a luz e as trevas, entre aquilo que vemos e o que apenas podemos intuir. Com “o terço na mão e o diabo no coração”, o filme é inspirado no livro “Etnografia Transmontana”, do “etnólogo, padre e bruxo” António Lourenço Fontes, ao encontro das expressões culturais e afetivas de herança pagã no norte de Portugal. No cerne da acção encontramos uma criança que, ao explorar o interior de uma árvore, é levada numa viagem mística que cruza o imaginário popular transmontano, abraçando por igual o sagrado e o profano. Misto de documentário e ficção, “Musgo” vive das pulsões da vida e da ancestralidade dos gestos, de cantigas de roda e Festas dos Rapazes, mezinhas caseiras e chegas de bois, alminhas e pontes do diabo. Com realização, argumento e montagem de Alexandra Guimarães e Gonçalo L. Almeida, “Musgo” arrecadou o Grande Prémio Nacional da última edição do FEST e é uma primeira obra arrebatadora, que nos obriga a manter debaixo de olho esta dupla de jovens criadores.

“Oso” fechou a sessão com uma “mirada” ecológica franca e uma boa dose de humor. Visto com cepticismo por uns e com entusiasmo por outros, o relato do avistamento de um urso-pardo no território do Parque Nacional da Peneda-Gerês permitiu ao realizador Bruno Lourenço (que assina também o argumento, em co-autoria com Telmo Churro) partir para uma ficção de aproximadamente meia hora, recheando-a de elementos que questionam factores primordiais como a identidade e o território. Contrapondo a visão lúcida de uma jovem vigilante da natureza às fantasias que se vão avolumando nas mentes de muitos dos habitantes da região e mesmo de alguns forasteiros, “Oso” abre espaço à imaginação, ao mesmo tempo dando conta do quanto de pernicioso, quase cruel, pode refugiar-se na sombra de uma natureza idílica. Com interpretação de António Mortágua e Sofia Pires, eis um filme empenhado em mostrar o quão dúbia pode ser a relação do homem com o espaço que o rodeia.