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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

EXPOSIÇÃO: “Luso Lunar” | Silvestre Pestana



EXPOSIÇÃO: “Luso Lunar”,
de Silvestre Pestana
Curadoria | João Ribas, Mafalda Santos
XXIV Bienal Internacional de Arte de Cerveira
Museu Bienal de Cerveira - Galerias Germano Cantinho e João Lemos Costa
18 Jul > 30 Dez 2026


Ao revisitar mais de cinco décadas de criação, “Luso Lunar” traça o percurso de Silvestre Pestana, figura pioneira da poesia experimental, da performance e da arte tecnológica portuguesa, ao mesmo tempo que celebra uma ligação rara à Bienal Internacional de Arte de Cerveira: Pestana esteve presente em todas as suas edições, desde a fundação, em 1978. A homenagem da XXIV Bienal, sob o signo “Territórios sem Fronteira”, encontra assim uma correspondência natural na obra de um artista que fez da fronteira - geográfica, política, corporal, tecnológica e imaginária - um território de interrogação. Da poesia visual à acção performativa, dos primeiros meios electrónicos à realidade virtual, Silvestre Pestana nunca tratou a tecnologia como simples ferramenta, mas como matéria crítica e poética. “Luso Lunar” reúne obras, documentos, vídeos e dispositivos que permitem acompanhar essa inquietação através das décadas, revelando uma obra que não se limita a testemunhar o seu tempo, mas também a interrogá-lo, perturbá-lo e, muitas vezes, a antecipar-se a ele.

O título recupera “Luso Padrão Lunar”, histórica instalação-performance apresentada na VII Bienal, em 1987/88, e transforma-a numa chave de leitura de todo o percurso. A ideia de instalar um padrão português na Lua, concebida no contexto da entrada de Portugal na então Comunidade Económica Europeia, contém já as questões que atravessariam a obra: identidade, pertença, circulação, território e futuro. Natural da Madeira, Silvestre Pestana começou por explorar a linguagem sob a influência do poeta e historiador António Aragão e, entre o final dos anos 60 e os anos 70, o exílio levou-o de Paris a Estocolmo, onde descobriu a televisão e a música electrónica. Depois do 25 de Abril, regressou a uma Lisboa coberta pela escrita política das paredes e fez da palavra matéria visual e acção. “O Povo Novo”, “Mater Pater", “Bio-Virtual”, “Computer Poems” ou “Light Pen, Poema Acção” testemunham essa deslocação progressiva do poema para o corpo, para a luz, para o código e para o espaço público. O artista transformou o corpo em interface e a palavra em acontecimento, antecipando questões que hoje atravessam a cultura digital.

É também em Cerveira que essa trajectória ganha uma dimensão comunitária e territorial particularmente forte. A vila tornou-se lugar de passagem, encontro e experimentação, e obras como “Águas Vivas”, distinguida com o Grande Prémio da XII Bienal, ou “Rio: Água e Sangue”, agora novamente convocada, inscrevem a sua linguagem luminosa no espaço e na memória do lugar. Ao longo dos anos, Silvestre Pestana continuou a deslocar fronteiras: dos néons aos computadores, dos outdoors ao Second Life, das performances às instalações multimédia, dos helicópteros telecomandados de “Drones” às obras recentes, a sua prática confronta-nos com a vigilância, a virtualização da experiência e a desmaterialização do corpo. É essa continuidade inquieta que a XXIV Bienal reconhece. Num certame que, em 2026, pensa os “Territórios sem Fronteira” como espaços de passagem e transformação, a homenagem a Silvestre Pestana não é apenas retrospectiva: é uma forma de devolver ao presente uma obra que continua a lançar perguntas para o futuro. O seu trabalho permanece, assim, menos como monumento do que como sinal de alarme - uma luz acesa na noite, lembrando que a arte existe para imaginar aquilo que ainda não aprendemos a ver.

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