Fundada em 1978, a Bienal Internacional de Arte de Cerveira surge de uma circunstância que hoje parece quase improvável: levar a arte contemporânea para uma pequena vila do Alto Minho, longe dos circuitos onde habitualmente se decide a sua visibilidade. Sequência lógica dos Encontros Internacionais de Arte promovidos por Jaime Isidoro, a Bienal encontrou em Cerveira, com o acolhimento do então presidente da Câmara, Lemos Costa, um território disponível para a sua manifestação. A primeira Bienal foi, por isso, mais do que uma exposição: foi um gesto de abertura, num país que acabava de sair da ditadura, e uma aposta na arte como instrumento de transformação social. Quarenta e oito anos depois, a XXIV edição retoma essa vocação sob o título “Territórios sem Fronteira”. A expressão não é apenas um conceito curatorial conveniente. Em Cerveira, a fronteira é uma realidade quotidiana, inscrita no rio, na proximidade com a Galiza e numa história feita de circulação, comércio, emigração e contrabando. A Bienal soube transformar essa condição periférica em argumento central, fazendo do que poderia ser uma fragilidade uma espécie de vantagem crítica.
É também aí que reside uma das razões da importância histórica da Bienal. Vila Nova de Cerveira não se limita a receber uma exposição que poderia estar em qualquer grande cidade; a exposição passa a produzir sentido a partir do lugar que a acolhe. Desde as primeiras manifestações, que chegaram a provocar estranheza e escândalo com a irrupção da performance no espaço público, até à actual vocação internacional, a Bienal foi construindo uma relação singular entre criação artística, território e comunidade. O seu percurso acompanha, aliás, boa parte da história recente da arte portuguesa, tendo acolhido nomes que se tornariam fundamentais, de José Rodrigues, Clara Meneres e Ângelo de Sousa a Vieira da Silva, Paula Rego, Pedro Croft ou Cabrita Reis, sem descurar os artistas emergentes. Hoje, essa herança ganha uma dimensão particularmente significativa: cerca de novecentas candidaturas, provenientes de cinquenta e dois países, deram origem a uma selecção internacional que reúne trinta e seis artistas. Não é pouca coisa para uma vila do Minho, mas é essa desproporção que continue a tornar a Bienal necessária, provando, edição após edição, que a geografia da arte não tem de coincidir com a geografia do poder cultural.
Atravessar os vários núcleos da XXIV Bienal é, por isso, também atravessar diferentes maneiras de pensar o presente. Em “¿De qué casa eres?”, quarenta e seis artistas de dezasseis países fazem da casa uma condição instável, afectiva e política, entre diáspora, memória e deslocação. Ali, Vhils rasga a parede em Nexus, fazendo da própria arquitectura uma fronteira que o corpo atravessa; Yonamine recolhe objectos encontrados em Cerveira e reorganiza-os numa cartografia de memórias; João Penalva transforma uma simples linha de giz, continuamente refeita depois de ser pisada, numa metáfora elementar e poderosa das fronteiras que inventamos. Ao lado destas obras contemporâneas, o diálogo com Vieira da Silva, Amadeo de Souza Cardoso, Dacosta, Arpad Szenes ou Paula Rego introduz uma outra temporalidade que nos vem lembrar que a história da arte portuguesa também foi feita de exílio, deslocação, resistência e pertença. E “Luso Lunar”, dedicada a Silvestre Pestana, acrescenta a esse percurso uma espécie de memória interna da própria Bienal. Presente em todas as edições desde 1978, o artista funciona aqui como testemunha e matéria viva de uma história que a exposição recupera para a confrontar com o presente.
A dimensão mais consequente desta edição, vamos encontrá-la para além dos seus espaços centrais. A Bienal estende-se à Biblioteca Municipal, à Galeria Bienal, ao Museu Bienal, ao Convento de São Paio e às quinze freguesias do concelho, fazendo das residências artísticas e dos projectos de proximidade uma verdadeira política de descentralização. Em “Vai-Vem”, Cláudia Varejão, Eric Fok e Mariana Maia Rocha trabalham a partir do contacto com as comunidades; em “Ocre”, Alexandre Delmar aproxima-se da memória mineira da Serra d’Arga e do Grupo de Bombos Divino Salvador de Covas. É neste movimento de saída que a Bienal talvez encontre a sua forma mais convincente de contemporaneidade: não levar simplesmente a arte para um lugar distante dos centros, mas deixar que esse lugar intervenha na própria arte. Cerveira deixa de ser cenário e torna-se matéria. A fronteira deixa de ser limite e transforma-se em método. E a descentralização deixa de ser uma compensação pela distância dos grandes centros para assumir a possibilidade de produzir cultura a partir de outros lugares, outras memórias e outras comunidades, sem pedir licença a ninguém.