EXPOSIÇÃO DE DESENHO E PINTURA: “(In)fluxo”
Aquisições MUDAS.MUSEU Itinerância Regional
Artistas representados | Menez, Júlio Pomar, António Pedro, Joaquim Rodrigo, Marcelino Vespeira, Paula Rego, Nadir Afonso, Jorge Martins, João Hogan, Sónia Delaunay, Fernando Azevedo, João Cutileiro, Alice Jorge, Teixeira Lopes, Nuno Siqueira, José Júlio, Artur Rosa, Jorge Barradas, António Areal, Maria Velez, Guilherme Parente, Eduardo Nery, António Sena, René Bértholo, Costa Pinheiro, Nikias Skapinakis, Espiga Pinto
Assembleia Municipal do Porto Santo - Sala de Exposições
03 Jul > 31 Out 2026
Entrei na Sala de Exposições da Assembleia Municipal do Porto Santo com a displicência de quem entra para ver “o que é que vai sair daqui”. E foi talvez a melhor maneira de entrar numa exposição: sem expectativas, sem preconceitos, sem a reverência que tantas vezes acompanha os nomes que já conhecemos. De repente, estavam ali Pomar e Vespeira, João Hogan e Jorge Barradas, Menez, Paula Rego, Nadir Afonso, António Pedro e tantos outros. O que era para ser uma passagem breve transformou-se numa espécie de descoberta. Primeiro a surpresa, depois a excitação do reconhecimento, finalmente o fascínio. Há qualquer coisa de emocionante quando uma obra que julgávamos pertencer aos livros, aos museus e às grandes cidades aparece diante de nós num lugar onde não esperávamos encontrá-la. Aí residirá o primeiro mérito de “(In)fluxo”, ao não se limitar a fazer circular um dado conjunto de obras. Transporta-as para fora do lugar que mentalmente lhes atribuímos e, ao fazê-lo, modifica também o lugar onde elas se mostram.
É fácil falar de descentralização cultural como se se tratasse apenas de distribuir pelo território aquilo que normalmente se concentra nos grandes centros. Mas descentralizar não deveria significar levar às periferias uma espécie de versão itinerante da cultura dos outros, antes reconhecer que também nesses lugares existem públicos capazes de receber, interrogar e transformar aquilo que lhes é dado a ver. No Porto Santo, onde a oferta de exposições desta dimensão é necessariamente escassa, “(In)fluxo” adquire por isso uma importância que ultrapassa largamente o seu valor enquanto mostra. Há qualquer coisa de quase político, no sentido mais nobre da palavra, em pôr a magnífica “Procissão”, uma obra de Júlio Pomar, diante de alguém que talvez nunca tenha tido oportunidade de a ver ao vivo. O contacto directo desfaz distâncias que nenhuma reprodução consegue eliminar. É justamente aí que uma política cultural começa a fazer sentido, quando deixa de perguntar apenas onde estão os públicos e começa a perguntar onde queremos que eles possam estar.
Uma exposição como esta pode, assim, fazer mais do que mostrar o que já foi feito. Pode abrir uma porta para aquilo que ainda não existe. Porque a formação do gosto, da curiosidade e do olhar não acontece apenas nas escolas ou nos museus; acontece também nesses encontros fortuitos em que qualquer coisa nos interpela antes de sabermos sequer como lhe responder. Uma criança que olha para uma pintura e pergunta porquê, um jovem que descobre que também pode desenhar, pintar, construir, desconstruir, inventar, ou simplesmente alguém que regressa a casa com uma imagem na cabeça que não consegue esquecer: é desse tipo de resíduos que se alimenta a cultura. “(In)fluxo” chama-se assim, e o nome parece particularmente feliz no Porto Santo. As obras chegam, passam, partem. Mas talvez alguma coisa fique. Um olhar mais atento, uma curiosidade nova, uma vontade de procurar, ou até a secreta convicção de que a arte também pode nascer aqui. E, se assim for, a exposição terá deixado no seu rasto algo muito mais valioso do que aquilo que trouxe consigo.
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