“hoje o caminho tinha um cheiro que não era dele
mas da minha infância
era um cheiro a pão misturado com cheiro a chão
e não era nenhum deles
escrevi-o
como se os cheiros se escrevessem
como se escreve uma recordação
que por instantes nos coloca de novo
no princípio da nossa vida”
“Entra-se na casa pelo pátio” é um livro que convoca o espaço da casa, abrindo-lhe portas e janelas como quem abre um verso - e um verso que se percorre como uma casa. A ideia não é simples metáfora, mas uma arquitectura íntima onde cada divisão corresponde a um gesto de linguagem, e cada objecto guarda a memória de um corpo que o tocou. “Entra-se na casa pelo pátio / como no verso”, escreve Carla Louro, nessa equivalência ancorando toda a sua poética. Mais do que cenário, o espaço doméstico é aqui matéria activa da escrita. A cozinha, sobretudo, surge como o centro gravitacional desse universo, lugar onde o tempo se mede em fervuras e esperas, onde o “cheiro a torradas” ou o “refogado com cebola alho e tomate” instauram uma gramática sensorial que antecede a palavra. A casa respira - e ao respirar, dita. Há uma disciplina silenciosa nos gestos de arrumar, de limpar o pó que “está limpo e limpa-se outra vez”, como se a repetição fosse uma forma de permanência e a permanência uma tentativa de compreender a vida. Longe de ser banal, o quotidiano transforma-se no lugar onde o poema germina, discreto, quase invisível, como um soalho que treme e que, nesse abalo, anuncia o início do ciclo de centrifugação da máquina de lavar roupa.
A casa não existe sem as linhas que a cosem, e é aí que o poema se revela enquanto ofício. A herança do avô alfaiate prolonga-se num labor paciente: “alinhavo as palavras nas folhas / como se fossem poemas”. Escrever é coser, desmanchar, voltar a coser - “nos medos / faço alinhavos mais largos / e deixo a ponta da linha sem nó / para poder puxar por ela e desmanchá-los a todos”. Há, neste gesto, uma recusa da fixidez e uma aceitação do erro como parte do processo criativo. O poema não nasce inteiro: constrói-se ponto a ponto, como uma peça de roupa que precisa de corpo para existir. E, tal como na costura, há um saber táctil, uma inteligência das mãos que antecede a consciência plena do que se faz. “Procuro o peso certo das palavras”, e essa procura é quase física, exige medir o ar, a voz, o silêncio que envolve cada sílaba. A linguagem tem densidade, tem temperatura, tem som; e só quando encontra o seu equilíbrio pode pousar na folha. Assim, o poema é expressão, mas é também matéria trabalhada, objecto que se afina até caber no mundo.
Entre a casa e o poema, há ainda o fio invisível das relações da escritora, sobretudo com a filha, cuja presença reconfigura ambos os espaços. É ela quem pergunta “de que cor são os novelos”, transformando a vida em interrogação e o poema em resposta provisória. A infância introduz um olhar inaugural, capaz de ver pedras “em forma de televisão” ou de dizer que o azeite “é que liga tudo”, revelando, com desarmante clareza, a essência da criação. Há sempre um elemento que une, que dá coesão ao disperso. Nesse sentido, a casa torna-se também lugar de transmissão, onde se aprendem, não só gestos, mas modos de ver. E o poema, por sua vez, torna-se herança em construção, algo que se carrega “na mochila”, mesmo quando pesa. Os diálogos preenchem-se de ternura, ganham consciência de que escrever é também cuidar, como quem faz uma canja para uma garganta dorida, ou diz palavras “com o cheiro da roupa passada”. Terna e delicadamente, “Entra-se na casa pelo pátio” oferece a ideia de que habitar e escrever são actos indissociáveis, ambos feitos de paciência, de atenção e de uma delicada insistência em dar forma ao que, de outro modo, se perderia. É de mansinho que o faz, envolvendo o leitor num abraço e convidando-o a entrar nesta que é, também, a sua casa.
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