LUGARES: Centro Interpretativo Murais Almada Gares Marítimas
Gare Marítima de Alcântara e Gare Marítima da Rocha do Conde de Óbidos
Horários | Diariamente, das 10h00 às 19h00
Ingressos | € 5,00 (bilhete normal, inclui transfer entre as duas gares marítimas)
As gares marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos nasceram de uma ambição antiga: dotar Lisboa de infra-estruturas capazes de receber o crescente tráfego de passageiros que, desde o final do século XIX, chegava à capital por via marítima. A concretização desse objectivo, contudo, apenas ganhou forma na década de 1930, quando o Ministério das Obras Públicas decidiu integrar estas construções num vasto programa de modernização do país. O projecto foi entregue ao arquitecto Porfírio Pardal Monteiro, uma das figuras centrais da arquitectura portuguesa da época, responsável por alguns dos mais marcantes edifícios modernistas da cidade. Concebidas como verdadeiras portas de entrada na capital, as duas gares foram desenhadas com uma linguagem racionalista e depurada, onde a organização funcional do espaço se reflecte na sobriedade dos alçados. A sua construção prolongou-se por vários anos e acabou por não coincidir com a Exposição do Mundo Português de 1940, para a qual inicialmente se desejava que a Gare de Alcântara estivesse concluída. Inaugurada apenas em 1943, e seguida em 1948 pela abertura da Rocha do Conde de Óbidos, a dupla infraestrutura passou desde então a marcar o ritmo de chegadas e partidas que ligavam Lisboa ao mundo.
A edificação destas gares inscreve-se plenamente na política de obras públicas desenvolvida durante o Estado Novo e que encontrou no investimento em infra-estruturas um instrumento de afirmação política e económica. Sob a liderança do ministro Duarte Pacheco, o regime promoveu uma intensa campanha de construção que procurava projectar uma imagem de modernização nacional, envolvendo arquitectos e engenheiros numa rede de encomendas públicas sem precedentes. Foi neste contexto que Pardal Monteiro concebeu as gares marítimas e convidou o artista José de Almada Negreiros a integrar o programa decorativo dos edifícios. A colaboração entre ambos não era inédita: já tinham trabalhado juntos na Igreja de Nossa Senhora de Fátima e no edifício do Diário de Notícias, exemplos da articulação entre arquitectura moderna e artes plásticas que caracterizou várias encomendas do período. Nas gares, Almada encontrou uma oportunidade rara de realizar pintura mural em grande escala, concebida desde o início para dialogar com a arquitectura de Pardal Monteiro. O resultado seria um conjunto de obras monumentais que, mais do que simples decoração, transformariam os salões de embarque em autênticos palcos visuais da vida ribeirinha lisboeta.
A visita ao Centro Interpretativo começa no núcleo Cais, onde o percurso expositivo recorda o papel destas infra-estruturas como palco de múltiplas histórias humanas. Fotografias de época, documentos e recortes de imprensa revelam o intenso movimento que marcou estes espaços ao longo do século XX. Durante a Segunda Guerra Mundial, milhares de refugiados passaram por Lisboa na esperança de encontrar um navio que os levasse para longe da Europa em conflito. Nas décadas seguintes, o cais tornou-se também ponto de partida para emigrantes rumo às Américas ou para colonos destinados a territórios africanos sob administração portuguesa. O visitante é convidado a observar essas imagens como fragmentos de uma memória colectiva: filas de passageiros à espera de vistos, famílias que se despedem no cais, soldados que partem para a guerra nas Colónias. Ao mesmo tempo, percebe-se que estes edifícios foram pensados como espaços organizados e modernos, com percursos diferenciados para passageiros de várias classes e serviços que iam da alfândega às agências de turismo. A arquitectura surge, assim, como cenário de uma história feita de deslocações, expectativas e despedidas.
Segue-se o núcleo O que contam as paredes, dedicado à génese das pinturas murais de José de Almada Negreiros. Aqui, o visitante encontra estudos preparatórios, fotografias do processo de execução e documentos que revelam a recepção ambígua que estas obras suscitaram. Longe de representar heróis ou episódios gloriosos da história nacional, Almada preferiu retratar a vida quotidiana das margens do Tejo: varinas, marinheiros, carvoeiras e trabalhadores anónimos que tiravam do rio o seu sustento. Essa escolha, inesperada para uma encomenda oficial, provocou desconforto entre algumas autoridades do regime. No entanto, é precisamente essa atenção às figuras populares que confere às pinturas uma força singular. As cenas multiplicam-se em narrativas vibrantes e por vezes irónicas, como na recriação da história da nau Catrineta, tratada com um tom simultaneamente dramático e humorístico. Através dos documentos expostos, percebe-se que a defesa da obra exigiu o apoio de figuras influentes e a emissão de vários pareceres oficiais, evitando que os murais fossem alterados ou destruídos.
O percurso conduz depois o visitante pelos restantes núcleos expositivos - Passagens, Partidas, Chegadas, História Mural e Diz que disse — que aprofundam as múltiplas dimensões históricas e artísticas do conjunto. Em Passagens, a atenção centra-se nas histórias de refugiados e viajantes que atravessaram Lisboa durante e após a guerra, lembrando episódios como a acção humanitária do diplomata Aristides de Sousa Mendes. Em Partidas e Chegadas, a narrativa acompanha os fluxos migratórios que marcaram o século XX português: a emigração para as Américas, a colonização africana e, mais tarde, o regresso de militares e civis após a descolonização. O núcleo História Mural insere as obras de Almada numa tradição milenar de pintura mural, da arte rupestre às experiências contemporâneas, enquanto Diz que disse reúne testemunhos, entrevistas e documentos que revelam os bastidores da encomenda. Ao terminar a visita, o público é convidado a contemplar os murais no espaço para que foram concebidos. Entre Alcântara e a Rocha do Conde de Óbidos — ligadas hoje por um breve percurso de transporte incluído no bilhete — percebe-se que estas pinturas não são apenas objectos artísticos: são também testemunhos visuais de uma época e de uma cidade em permanente movimento.
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