O Campus Jazz está de regresso, disposto a reafirmar a crescente centralidade da região de Aveiro no circuito nacional do jazz. Mais do que um simples cartaz de concertos, o festival consolida-se como um verdadeiro dispositivo cultural e pedagógico, articulando espectáculos, masterclasses, workshops, exposições, jam sessions e concursos internacionais, numa programação que atravessa a cidade de Aveiro e se estende a alguns dos municípios vizinhos. Enquanto entidade organizadora, a Universidade de Aveiro demonstra uma visão cultural ambiciosa, capaz de pensar o jazz não apenas como património musical, mas como linguagem contemporânea em permanente mutação. O alinhamento desta edição - onde surgem nomes como Gilad Hekselman, Amaro Freitas, Rita Payés e Adam Ben Ezra - confirma essa amplitude de horizontes. Integrado no ciclo Tons Inteiros, o concerto no Cineteatro Alba surgia, por isso, como um dos momentos mais aguardados da programação. O duo formado por Adam Ben Ezra e o baterista cubano Michael Olivera apresentava-se ancorado no recente álbum “Heavy Drops”, trabalho que prolonga a exploração tímbrica e rítmica que o músico israelita vem desenvolvendo há mais de uma década em torno do contrabaixo, instrumento que transformou numa espécie de centro gravitacional de múltiplas linguagens musicais.
Desde os primeiros minutos percebeu-se que o concerto assentaria numa lógica de acumulação rítmica e textural, mais do que numa construção narrativa propriamente jazzística. Temas como “Heavy Drops”, “Escape Route”, “Free Fly” ou “Taming the Bull” revelaram um Adam Ben Ezra tecnicamente irrepreensível, senhor de um domínio absoluto sobre o contrabaixo, explorando-o simultaneamente como instrumento melódico, percussivo e harmónico. O problema residiu menos na execução - invariavelmente impressionante - do que na relativa previsibilidade estrutural de vários momentos do alinhamento. A insistência em células rítmicas repetitivas, sustentadas por loops electrónicos e por uma bateria frequentemente mais física do que subtil, acabou por produzir uma sensação de redundância sonora que retirou algum impacto ao concerto. Michael Olivera mostrou enorme competência técnica e um sentido rítmico musculado, mas raramente o diálogo com o contrabaixo de Ben Ezra alcançou o risco e a imprevisibilidade que o jazz, enquanto linguagem aberta, habitualmente reclama. Pelo contrário, muitos dos temas aproximaram-se de uma estética híbrida onde o funk, certas inflexões mediterrânicas e até uma discreta matriz klezmer se sobrepuseram claramente ao vocabulário jazzístico.
O momento mais forte da noite surgiu quando o concerto abandonou parte do aparato electrónico e regressou a uma linguagem mais despojada e acústica. A homenagem ao centenário de Miles Davis e John Coltrane, integrada na programação do próprio Campus Jazz 2026, ofereceu ao público uma interpretação particularmente conseguida de “So What”, contando com a participação do jovem pianista e compositor aveirense João Barreto. Foi nesse instante que o concerto encontrou um verdadeiro espaço de respiração, escuta e tensão criativa. Sem necessidade de artifícios cénicos ou sobreposição redundante de camadas electrónicas, os músicos revelaram uma outra profundidade interpretativa, assente na subtileza dinâmica, na economia do gesto e na capacidade de construir silêncio e expectativa. Apesar do virtuosismo evidente de Adam Ben Ezra e da energia contagiante de Michael Olivera, o concerto oscilou demasiadas vezes entre a exibição instrumental e uma estética de fusão que, não sendo desinteressante, pareceu por momentos excessivamente formatada. O público reconheceu o mérito dos músicos com aplausos cordiais, embora sem o entusiasmo necessário para forçar um encore que parecia esperado.
Sem comentários:
Enviar um comentário