CONCERTO: Carminho
Com | Carminho (voz), André Dias (guitarra portuguesa), Flávio César Cardoso (viola de fado), Pedro Geraldes (lap steel guitar e guitarra eléctrica), Tiago Maia (baixo acústico), João Pimenta Gomes (cristal baschet, mellotron, ondes martenot)
Casa da Cultura de Ílhavo
09 Mai 2026 | sab | 21:30
Há concertos que começam muito antes da primeira nota e o de Carminho, na lotada Casa da Cultura de Ílhavo, foi um desses casos em que o público escreveu parte decisiva da narrativa da noite. O atraso de três quartos de hora poderia ter instalado a impaciência, o murmúrio ou a deserção emocional; ao invés, a sala manteve-se num estado de urbanidade pouco comum, acolhendo a entrada da cantora com uma vibração cúmplice, como se todos compreendessem que o fado vive também destas suspensões do tempo. E talvez tenha sido precisamente essa predisposição colectiva que permitiu a Carminho transformar o arranque da digressão de “Eu Vou Morrer de Amor ou Resistir” num exercício de intimidade rara. Entre canções, a fadista falou de si, de como o fado se lhe foi infiltrando nas veias e da forma como as camadas de experiência alteram o peso das palavras e o sentido da interpretação. Fê-lo sem aparatos nem falsas modéstias, antes com um desprendimento sereno, quase doméstico, convertendo uma sala cheia num espaço de intimidade e cantando para centenas de pessoas como quem canta para uma só.
Se a força dos poemas tem sido marca identitária da cantora desde o inaugural “Fado”, de 2009, neste novo trabalho ela adquire uma centralidade absoluta. Temas como “Balada do País que Dói”, “Saber” ou “Canção à Ausente” confirmaram uma artista cada vez mais interessada em empurrar o fado para um lugar de reflexão poética e inquietação contemporânea. A revisitação de vários momentos da sua discografia permitiu, justamente, perceber uma evolução que tem na depuração tradicional o seu ponto de partida, crescendo para uma escrita musical mais ousada, aberta a outros géneros e a outras texturas. Convém dizer, no entanto, que nem todas as experiências pareceram plenamente conseguidas, já que a panóplia instrumental trazida para o palco foi, a espaços, mais intrusiva do que reveladora. Nalguns momentos, os instrumentos pareceram reclamar protagonismo para lá daquilo que a canção exigia, retirando crueza e tensão ao gesto fadista. Aquilo que em disco poderá surgir como expansão estética subtil, em palco tornou-se por vezes excesso demonstrativo. Não por insuficiência dos músicos, irrepreensíveis na execução, mas porque o fado continua a pedir contenção e sombra, mais do que aparato tímbrico.
Ainda assim, mesmo quando o concerto ameaçou dispersar-se em derivações sonoras menos convincentes, bastou a Carminho recentrar-se na palavra para tudo reencontrar eixo e verdade. “Meu Amor Marinheiro”, “Estrela” ou “Rouxinóis do Mondego” devolveram à noite essa dimensão quase ritual que faz do fado uma experiência de comunhão e memória. Foi nesse despojamento final que o concerto encontrou a sua imagem mais poderosa, levando a sala ao rubro com um derradeiro “As Minhas Penas”, ao metamorfoseá-la numa velha casa de fados lisboeta. Nesse instante desapareceram os dispositivos experimentais e ficou apenas o essencial: voz e guitarras, respiração e escuta. O público acompanhou em silêncio reverente, antes de explodir numa ovação longa, agradecida, consciente de ter assistido não apenas ao início de uma digressão que levará Carminho de Valença a Faro, de Ludwigsburg a Barcelona, mas sobretudo a um concerto onde a artista reafirmou a singularidade do seu caminho. Um caminho que continua a dividir-se entre tradição e risco, entre depuração e excesso, mas onde permanece intacta a convicção de que o fado só sobrevive quando aceita resistir à sua própria ideia de permanência.
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